Friday, January 20, 2006

O Caso do Brasileiro Preso em Hannover



Baseado em uma estória real durante a feira Cebit em Hannover, Alemanha (ou foi 2000 ou 2001):

Uma das descobertas mais importantes da feira foi a existência de confraternizações após o horário de funcionamento. Não que as festas tivessem alguma graça, mas em compensação transbordavam de comida. Uma refeição comum numa cidade alemã típica com algum suco ou refrigerante não custa menos do que trinta marcos, não incluíndo a sobremesa. No segundo dia de feira descobrimos a boca-livre e passamos a sair do Messe de Hannover, o gigantesco centro de convenções onde acontece o evento, depois das dez da noite, quatro horas após o encerramento. O almoço também foi substituído por um baguete com presunto, que custa caro, se compararmos com o preço no Brasil, mas é suportável. O hábito adquiriu nível tal de especialização que chegamos ao cúmulo de assistir a palestras em alemão na espera do coquetel servido após. Isto aconteceu ontem e entre canapés bem servidos com salmão, queijo, presunto e outros frios refinados, tomávamos vinho tinto Melot ou branco com uva Riesling. Como meu organismo tem um certo preconceito com álcool, enquanto os meus caros amigos tomavam taças e taças eu consegui beber uma completa. Uma etapa concluída, o próximo passo foi procurar outra confraternização para finalizar o jantar. Não foi difícil. Mais cerveja para os meus amigos. Finalmente, depois das dez, conseguimos ir embora. Como em Hannover praticamente não existem hotéis, é prática hospedar-se em quartos de casas de família. E como o procedimento é corriqueiro existe um nível alto de profissionalização.

Fiquei em uma casa com dois quartos para alugar, o outro foi alugado por um brasileiro que veio para o CeBIT, e para manter sua identidade em sigilo, vamos chamá-lo de Sr. X. O Sr. X havia alugado carro em Frankfurt ou Munique, não lembro bem qual das cidades, e veio dirigindo até Hannover. Como estávamos na mesma casa, aproveitava a carona na ida à feira e na volta, mas na Europa o sistema de transportes é tão eficiente que ter um carro é um luxo dispensável. Voltando ao fatídico dia de ontem, eu me ofereci para dirigir naquela noite, primeiro porque o Sr. X estava ligeiramente embriago. Segundo porque, pela infelicidade de uma doença de infância, a maldita pólio, suas pernas não tinham muita força e naquele dia todos andamos muito. O estacionamento era especialmente distante da entrada da feira e eu fui pegar o Ford Focus alugado para poupar o Sr. X de andar toda aquela distância. Ele insistiu em dirigir e por mais argumentos lógicos que eu usasse para dissuadi-lo, ele foi o motorista. O Sr. X é extremamente seguro de si, ou em linguagem menos politicamente correta, teimoso o bastante para se considerar à prova de engano e acreditar que sabia o caminho de volta para nosso hotel-casa naquela cidade estranha. Após mais de uma hora andando em círculos ele decide finalmente aceitar minha sugestão de olhar o mapa. Paramos numa estrada principal, mas muito estreita, próximo ao semáforo. Devia ser por volta das onze da noite. O Sr. X fica observando o mapa e tentando descobrir nossa localização. Um carro pára atrás do nosso e dá sinal de luz. O Sr. X naquele seu jeito debochado fez sinal com a mão como quem diz passe por cima. Ao terminar o sinal, aquele carro ligou a sirene. Era a polícia, provavelmente nos seguindo há algum tempo, afinal o que aquele carro estava fazendo andando em círculos? O policial chega falando palavras duras em alemão que embora fossem incompreensíveis, sabíamos que eram palavas duras. Quando descobriu que não falávamos alemão e tentávamos explicar que estávamos perdidos e que precisávamos de ajuda, tudo em inglês, não quis conversa. Pegou o bafômetro e mandou o Sr. X soprar. O outro policial que o acompanhava fazia o papel de tira bom, tentando apaziguar. De todo modo o tira mal me entrega o seu cartão com o telefone e endereço da delegacia e diz para eu esperar no carro enquanto o Sr. X é levado para averiguação.

A noite estava bastante fria. Embora já fosse março, ainda havia alguns dias de neve, mas não naquele dia. Fui até a estação de metrô que estava do outro lado da rua e liguei para Claus Traeger, o consultor da SOFTEX na Europa, um brasileiro descendente de alemães, que vive em Colônia, na Alemanha. Então ele ligou para Darci Weiss, uma cearense cujo marido é um advogado alemão. Passados uns trinta minutos, o tira bom retorna na sua viatura, pergunta se eu tenho habilitação e faz o teste do bafômetro. Como não bebi o bastante para coisa alguma, ele pede para que acompanhe sua viatura até a delegacia. Eu tinha acabado de fazer uma cirurgia de miopia, que me deixou apenas dois graus dos meus doze graus e eu estava sem óculos ou lentes e ainda via as coisas embaçadas. Consegui segui-lo sem problemas. O Sr. X é advogado e os códigos legais de quase todos os países têm uma forte influência alemã. Ele estava fazendo o jogo de advogado. O bafômetro não é prova e ele insistia na tese de que sua religião não permitia que lhe retirassem sangue. O inglês do Sr. X não era grande coisa e dentro do seu jogo ainda estava bem pior e eu fiz o papel de tradutor. Uma alemã, a que conduzia o interrogatório, falava em inglês comigo e o Sr. X esperava que eu traduzisse para só então se manifestar e eu então traduzia para o inglês. Também no jogo dos policiais eles conversavam entre si em alemão. O Sr. X tem sobrenome alemão e os policiais temiam que ele entendesse alguma coisa e iam cada vez mais testando limites. A delegação era do Rio Grande do Sul e eu era o único cearense da turma. O Sr. X entendia um pouco do que eles falavam e era algo como “que mala! Vamos ter de passar a noite toda aqui”. No jogo de ganhar tempo, eu cada vez me desesperava mais pois tinha uma reunião às oito da manhã com uma empresa interessada em nossos produtos. Os policiais exigiam uma fiança de mil marcos para liberá-lo. Depois de muito ganha-tempo conseguimos baixar a fiança para seiscentos marcos (a relação era de 2,3 marcos por dólar americano a mesma relação do real à época). O Sr. X disse-me onde seu dinheiro estava no nosso hotel-casa. Perguntei aos policiais como chegar em casa a partir da nossa localização e finalmente consegui a informação que tanto queríamos. Estava bem próximo, somente a alguns quilômetros. Fui ao local indicado pelo Sr. X e havia uma grande quantidade de marcos e dólares, cerca de uns três mil dólares no total. Peguei o dinheiro do acordado e voltei para a delegacia. Quando cheguei, encontrei o Sr. X alquebrado como nunca o havia visto em nossa curta convivência.

Aproveitaram minha ausência como testemunha e lhe retiraram sangue à força. Isto mesmo, no primeiro-mundo há também violência policial. Assinei o boletim como testemunha e como tradutor. Ele insistiu em escrever seu próprio testemunho, como manda a lei em muitos países e embora houvesse uma pressão velada para que ele não o fizesse, escreveu no seu inglês tosco a violência que sofreu e o seu relato teve de ser arquivado junto com o boletim. Chegamos em casa e o Sr. X, sujeito forte como é, não ficou remoendo a violência que sofreu enquanto eu estava me remoendo com a injustiça. No outro dia ele compareceu ao forum, o promotor achou uma injustiça o que ele sofreu e a sua multa acabou reduzida para apenas duzentos marcos. A porta também estava aberta para que ele processasse os políciais. O tempo infelizmente era curto e ele teve de voltar com esta injustiça não desfeita para o Brasil e eu com uma péssima impressão da polícia alemã.

Thursday, January 19, 2006

Novidades que não se vêem na TV

iWeb

Steve Jobs apresentou no dia 10 de janeiro, o iWeb que promete revolucionar a criação de páginas web para uso pessoal. Eu assisti a apresentação e o produto realmente é interessante. O que Steve falou, e eu concordo, é que softwares simples fazem páginas feias e softwares complexos são difíceis de usar para o usuário comum. O iWeb também cria páginas de blog, podcasts e estas coisas da moda.

Disney e Pixar

A Pixar foi responsável pelos sucessos que salvaram a Disney de anos de queda de receita, entre os sucessos incluem-se Monsters, Inc.; Nemo; The Incredibles e Toy Story. A Pixar é de Steve Jobs, o homem que criou a Apple. Disney e Pixar não conseguiram renovar o acordo. Parte porque Steve Jobs não se dava muito bem com o antigo CEO da empresa, Michael Eisner. Com a entrada de Robert Iger, as conversas retornaram. O jornal Wall Street dá como certa a compra da Pixar pela Disney. Com isto, Steve Jobs se tornaria um grande acionista da Disney, com direito a participar das decisões e assim um homem mais poderoso do que já é. Ou como disse um comentarista da CNN, se tornaria o próprio Mr. Incredible.

MBAs nos EUA

Cerca de cem mil pessoas completam MBA aqui nos EUA e são recompensados: a média de salário no primeiro ano é de US$ 106 mil por ano. Eu já fui aceito para o MBA em Project Management na Universidade do Texas, agora falta só o dinheiro para pagar as despesas.

A lei Anti-Walmart

O Walmart é conhecido por aqui como destruidor de economias. Onde chega destrói os pequenos negócios ao redor e acaba com o lucro dos fornecedores. Também é conhecido por pagar mal aos funcionários. A coisa boa é que os preços são realmente baixos. Quando os funcionários de alguma loja se juntam a algum sindicato, o Walmart simplesmente fechas as portas desta loja e vai para outro lugar. Walmart way or Highway (ou é do jeito do Walmart, ou adeus). Sofrendo pressões de todo o lado, especialmente da rede regional Giant (que tem um serviço ao cliente excepcional), o governo de Maryland aprovou a lei que é conhecida com anti-Walmart dia 16 de janeiro. Esta lei força que qualquer empresa com mais de 10 mil funcionários tenha de gastar pelo menos 8% do seu faturamento em benefícios para os funcionários. Por lá só outras três empresas possuem mais de 10 mil funcionários, a Giant, Johns Hopkins (universidade e hospital) e um empreiteiro para o serviço de defesa. Todos já gastam mais de 8% com benefícios. O Walmart iria abrir um centro de distribuição em Baltimore, mas depois desta deve mudar-se para Virgínia (MD, VA, PA ficam próximas e são satélites de Washington, DC).

Hemetério, U2, eu e a sina de um dia depois



Continuo acompanhando as notícias no Brasil através da Internet e uma notícia que me chamou a atenção foi a confusão causada pela correria para comprar o ingresso do show do U2. Eu conheci o U2 na casa do meu amigo Valmir Meneses que hoje mora em Portugal. O CD que eu ouvi foi o Achtung Baby! A primeira música que eu ouvi foi o suficiente para perceber que aquele grupo era muito especial. Cada um teu seu gosto musical e este post não é uma ode ao U2, em breve chegarei ao ponto.

Naquela época, eu trabalhava com uma equipe de notáveis. Fazíamos experimentos, escrevíamos feito loucos e ainda ganhávamos dinheiro com isto. Foi aí que eu conheci o Valmir e o Hemetério. O Hemetério é um grande artista plástico, que agora está escrevendo tão bem no seu blog (ver link ao lado) que, para quem o conhece apenas por lá, não imagina o grande ilustrador que ele é (também mantém o blog Genésio, o galalau, com tirinhas semanais). O Hemé é também um grande apreciador do U2.

O U2 tocou no Brasil pela primeira vez (e única por enquanto) em 1998 no Rio e em São Paulo. Hemé e eu compramos os ingressos imediatamente e fizemos reservas para o Rio de Janeiro com bastante antecedência. Acontece que a agência marcou a viagem para um dia depois da única apresentação no Rio e o pior é que só descobrimos isto quando, de malas prontas, tentamos embarcar na data que pensávamos ser a correta. Não lembro bem, mas acredito que recebemos o dinheiro da passagem de volta, mas o prejuízo foi realmente não ter visto o U2 ao vivo. Antes de eu me mudar para cá, acredito que algumas semanas antes, convidei o Hemé para assistir ao show do U2 no projetor da empresa que eu tinha instalado em casa. Comemos caranguejo e tomamos cerveja, assistindo ao show da área mais VIP possível pelas câmeras. Quando eu cheguei aqui, neste mesmo dia houve um show aberto do U2 em Washington, DC, apenas a alguns quilômetros de onde eu estava. Se eu tivesse chegado um dia mais cedo...

Wednesday, January 18, 2006

O Schwa



Um dos fatores que atrapalha qualquer estrangeiro de pronunciar inglês perfeitamente é o Schwa, uma vogal neutra marcada foneticamente como ə que pode estar fantasiada de várias vogais, com o i de animal; o segundo o de oxford; o u de but; o e de character; o i, o a e a vogal entre sm de Puritanism. Esta vogal falsa pode estar em qualquer palavra e se você não ouviu a pronúncia da palavra fica difícil de imaginar onde ela está, ou se não existe schwa. Depois de algum tempo você acaba percebendo os schwas em palavras novas, mas isto requer tempo. Eu conheço pessoas que vivem aqui há anos, são fluentes na língua, mas têm problemas de pronúncia. Abaixo coloco algumas palavras com o link para a pronúncia correta (os links funcionam melhor com o Internet Explorer). Tentem pronunciar antes e só depois usem os links:

Focus, Taurus, Dulles, Animal, Oxford, Characteristic, Puritanism, But, Organization.

Para verificar a escrita fonética de qualquer palavra inglesa visite http://www.m-w.com.

Tuesday, January 17, 2006

Contos do Fim do Mundo: Sociedade dos Céticos (parte I)



Antes eu era cético com a mesma impropriedade apresentada por aquele que crê somente. Hoje sou um cético que possui convicção igual ao do crente que se banhou nas graças do Espírito Santo mas ao contrário deste posso descrever por palavras minha experiência sem que o interlocutor careça de encontrar-se em um determinado estado de espírito para compreender-me. Se há um começo, um marco que aponte de maneira inequívoca a formação do caráter cético em um jovem que ainda carregava as culpas da religião cristã, como era o meu caso, aos meus dezessete anos, esta efeméride coincide com a partida de Ana Luzia, no momento em que eu perdi o amor que me corroía pois justificava minha existência ao mesmo tempo que me enchia de culpa e junto com ele, algo irrecuperável também foi perdido, a minha inocência. Não me lembro ao certo do rosto de Ana Luzia e a menção do nome dela, neste momento que escrevo seu nome, traz-me a imagem de uma moça de cabelos compridos e negros com uma tez pálida e traços tão delicados que causavam comoção em quem a via, não importando quão insensível fosse o observador. A imagem, de tão genérica, não pode ser mais imprecisa. Antes, quando eu escrevia repetidamente Ana Luzia, Ana Luzia, Ana Luzia na folha do caderno da escola para depois disfarçar as letras, transformando A em B, L em E, u em d, antes de riscar completamente as palavras para que se alguém se empenhasse em descobrir o que fora riscado, olhando através dos riscos, deparasse com símbolos ininteligíveis, o sentimento era de prazer e de dor que como já disse me assolavam. Mais estranho acharia o leitor se eu dissesse que o mais próximo que cheguei de consumar este amor, que custou minha inocência e imputou-me novo caráter, foi um beijo de encontro de lábios, cuja falta de malícia foi culpa exclusiva de minha imperícia. Ana Luzia fôra-me apresentada por meu grande amigo de infância, Leonardo, que antes desta formalidade já a tinha tornado uma figura familiar por conta de suas descrições detalhadas.

Se eu agora apresentasse a qualquer um de vocês Ana Luzia depois de precavê-los, talvez de espírito preparado, o leitor não sofresse a tempestade sensorial que sofri ao vê-la pela primeira vez, tão indefeso. Não fosse somente isso, mas também a afinidade que nós descobrimos ter um com o outro e, no crescendo de nossa intimidade, ver surgir alguma coisa que explicava minha existência e, lembrando mais uma vez, tornava minha vida miserável pela culpa de saber que minha felicidade seria a ruína de Leonardo. Não que ele não pudesse sobreviver sem Ana Luzia, tanto que sobrevive até hoje..

No dia em que nos beijamos, eles namoravam há dois anos. Era fim de tarde e estávamos na casa de praia alugada pelo pai de Ana Luzia para as férias do início de ano. Leonardo estava jogando sinuca sem perder uma partida sequer, enquanto Ana Luzia nos chamava insistentemente para andarmos na praia. Em dado momento ela saiu em direção à praia sem falar nada com ninguém, iria ao passeio sozinha. Leonardo por um momento pensou em interromper o jogo, mas preferiu pedir que eu fosse com ela que em breve ele estaria conosco. Enquanto andávamos Ana Luzia queixava-se que Leonardo não lhe dedicava a atenção de outrora. Paramos em uma duna e deitamos lado a lado. Ela então pediu para que eu descrevesse o que eu via quando olhava para o mar. Não lembro as palavras exatas, mas disse algo que a comoveu, pois ela me olhou e disse: "Você é tão diferente do Leonardo". Neste momento, neste segundo que ela me olhou de modo que todo meu corpo entrou em descompasso, eu a beijei. A maneira como ela entregou-se àquele beijo, me fez pensar que o prazer de saciar o desejo supremo valeria qualquer infortúnio que a culpa causasse. Quando o beijo acabou, Ana Luzia tremia o corpo todo. Tentei repetir o beijo e quando a puxei para mim ela evitou a aproximação com o braço estendido, levantou-se e disse que era hora de voltarmos. Não falamos uma só palavra até chegarmos na casa onde Leonardo ainda continuava jogando sinuca. Foi a última vez que eu a vi.

Friday, December 30, 2005

Cherry Blossom


Com a chegada da primavera, os ânimos melhoram e não foi diferente para a nossa família. A primavera na região de Washington, DC é um acontecimento. Um dos eventos importantes é o festival do Cherry Blossom (desabrochar das cerejeiras). Em 1912, o prefeito de Tokio, Yukio Ozaki, presenteou a cidade de Washington com três mil cerejeiras para comemorar o bom relacionamento entre os dois povos. Resta lembrar que décadas mais tarde o Japão quase destruiu Pearl Harbor e os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas no Japão (o status atual é de amizade, como todos sabemos). Em 27 de março de 1912, a primeira dama Helen Taft junto com Viscountess Chinda, a esposa do embaixador japonês, plantaram as duas primeiras árvores em West Potomac Park (próximo de onde eu morava). Estas árvores e outras cerejeiras são protegidas por lei e todo ano, na primavera, desabrocham em flores. O espetáculo atrai muitos locais e turistas. Acredito que este foi o momento em que minha esposa passou a gostar de morar aqui.



Sofia




Minha mulher e eu temos uma filhinha de 13 meses, a Sofia, que é um amor de bebê e é também a neta distante dos quatro avós saudosos. Eu me mudei para os Estados Unidos quando ela tinha pouco mais de 10 dias de nascida. Ela poderia ter nascido aqui e assim ter dupla cidadania, já que o visto de trabalho saiu bem antes do nascimento. A escolha por nascer no Brasil foi devido a vários fatores. Um deles é que nenhum plano de saúde daqui (e do Brasil também) cobre parto de mãe já grávida durante a adesão. O nosso plano de saúde no Brasil já estava cuidando da gravidez muito bem e Sofia teimava em permanecer sentada, situação em que o parto Cesariano é o mais indicado. O custo de uma C-Section, como este tipo de parto é chamado por aqui, custa cerca de US$ 9.000 se tudo correr bem.

Embora a parte financeira tenha tido um papel importante, a escolha do nascimento no Brasil foi principalmente pela proximidade com a família. Nós éramos (e ainda somos) marinheiros de primeira viagem no assunto de paternidade. Estar perto da família foi fundamental. Nestes 10 dias em que eu passei com a Sofia antes da mudança, também tive de cuidar da retirada do seu passaporte, compra da passagem para dois meses e meio depois (época que o médico considerou prudente) e pedido de visto. Dois meses e meio depois e após montar apartamento, preparar plano de saúde, comprar carro e outras providências fui buscá-las. Na época morávamos em Rockville, Maryland, na região da grande Washington, DC. Elas chegaram um dia depois de uma grande nevasca. Nem é preciso dizer qual o estado de espírito da minha mulher: longe dos país, em um país novo, diante de uma língua nova que ela não tinha muito domínio, recém mãe e ainda recuperando da cirurgia e com a filhinha pequena. Depois eu conto mais.


As boas vidas de Maryland para minha esposa e Sofia

Saturday, November 19, 2005

A versão de Crazy (do Seal) por Alanis Morissette

Estava eu hoje assistindo ao Conan O'Brien quando ouvi a versão de Crazy pela Alanis Morissette. Eu conhecia a música pelo Seal, mas só agora eu prestei atenção à letra. Que loucura. É a descrição mais assustadora que eu vi de uma bad trip. Só ouvi coisa similar de pessoas que esperimentaram o Santo Daime, LSD ou Chá de Cogumelos. A musica pode ser ouvida aqui (escolha a música Crazy na lista à esquerda). E a letra (não exatamente como ela canta) está aqui. A versão em vídeo pode ser vista aqui (tem de instalar um ActiveX da AOL).

Wednesday, November 09, 2005

Sobre a confusão na Europa

Com todos estes acontecimentos de tensão social na França e uma discussão acalorada no site do CHONGAS, onde assino como Lasher, acabei encontrando um texto que escrevi quando estava em Portugal, logo após ter chegado da feira Eurobanking em Frankfurt na Alemanha. Na Alemanha estive com um grupo de brasileiros representando o país pela SOFTEX. Como é normal na Alemanha, tanto eu quanto outros brasileiros nos hospedamos em casas de pessoas normais que ganham dinheiro extra com isso. Existem agências que cuidam especificamente deste tipo de hospedagem e foi assim que nos arranjamos. Eu e outro brasileiro ficamos na casa de uma senhora muito simpática em um bairro de classe média alta. Um outro brasileiro ficou em um bairro de trabalhadores manuais. Este brasileiro, muito simpático, o típico animador de festas, foi a um bar da região e quase entrou em uma grande enrascada por conta de um sujeito neo-nazista que ficou incomodado com o seu brilho. Foi salvo pelos amigos alemães que fez no bar. Talvez eu ainda conte esta história neste blog. Mas o que me interessa é mostrar a impressão que eu tive de Portugal nesta mesma viagem de três semanas que ainda incluiu uma passagem pela COMDEX Las Vegas aqui nos EUA em uma de suas últimas edições. Este post vai em homenagem ao blog O Vizinho:

Visões sobre Portugal (Escrito em 7/11/2000)

Estando em Cascais, um balneário da grande Lisboa, onde mora meu irmão e tendo compromissos sérios e não tão sérios na capital sou obrigado a uma grande jornada para chegar aos meus destinos. Um trem, ou combôio como aqui se chama, que vai de Cascais ao Cais de Sodré seguido de inúmeras trocas no metrô, ou metro como falam os portugueses. A viagem é agradável, nada a comparar com o transporte público do Brasil. Tão agradável que aproveito para observar enquanto viajo. Observar o povo e os lugares. No primeiro trem para Lisboa, vejo um ato de vandalismo, alguém riscou nas costas da cadeira, alguém que provavelmente estava sentado onde ora eu sentava. Dizia, "CARLOS SOUSA AMO-TE LOUCAMENTE, ROSA SOUSA". Vi vandalismo mais bem elaborado, em tintas, em Frankfurt, na Alemanha, como uma bela suástica pintada em um portão de ferro. O vandalismo em Portugal pelo menos tratava de amor, amor louco, mas amor. No mesmo dia, no carro de metrô, no meu caminho de volta, vejo um ataque, agora em giz, de Daniela e Xena. Em um canto, "DANIELA & XENA 100% AMIGAS", em outro: "DANIELA AMA LUIS" e mais adiante, "XENA AMA CARECA". Que amor tem para oferecer as duas, provavelmente adolescentes, são amigas em seu grau mais elevado, que se medido em percentagem soma cem porcento e ainda assim possuem espaço para amarem Luis e Careca. E que amor tem Rosa, por seu esposo, pelo que parece por possuírem mesmo sobrenome, que chega a ser louco. Camões, um também Português, mais famoso que Xena, Daniela e Rosa, acredita em um amor menos consumidor, que "é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer."

Entretanto, exageros à parte, o vandalismo do amor é menos ofensivo e mais divertido de se ver.

Tuesday, November 08, 2005

Teu corpo é o templo

Templo de Jerusalém
Acredito que um dos maiores mal-entendidos dos ensinamentos cristãos é a interpretação popular do sentido de que o templo está em nós. Os evangélicos costumam ler e discutir a Bíblia bem mais que os católicos. Nós, católicos, somos reconhecidamente não leitores da Bíblia, exceto por uns poucos. Infelizmente os cristãos que conhecem alguma coisa sobre a Bíblia, o fazem de maneira superficial, não importando a sua denominação. A superficialidade provém da falta de compreensão do contexto histórico e religioso. Vamos, como muitos citadores de Bíblia, colocar duas passagens importantes do Novo Testamento que tratam do santuário (Templo) sem a contextualização:


I Coríntios 3:16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? 17 Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é sagrado.

João 2:13 Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. 14 E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; 15 tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas 16 e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio. 17 Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá. 18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? 19 Jesus lhes respondeu: Destruí este templo, e em três dias o reconstruirei. 20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu, em três dias, o levantarás? 21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.


- Pronto! Tá vendo? Meu corpo é o templo e é sagrado. Só quando casarmos – diz a moça extremamente religiosa
- Mas ... – diz você enquanto fica imaginando como quer depedrar e vilipêndiar este monumento de templo que é a moça. Ao mesmo tempo imagina se isto está na Bíblia ou é invenção do Pastor ou Padre para frear os hormônios em embulição daquele pedacinho de paraíso.

Com tal barreira, o melhor é pesquisar e tentar descobrir que mensagem é esta. Quem se prestar a pesquisar vai descobrir exatamente o que eu vou escrever aqui, já mastigadinho. Os judeus de Jerusalém eram xenófobos e racistas, ao contrário da diáspora que era cosmopolita e tolerante. A diáspora (nome bonito para os judeus que vivem fora da Terra Santa) conseguiu carregar a ética judaíca para outros centros mais desenvolvidos como Roma e Egito e influenciar a classe-média alta destes centros. Muitos gentios (não judeus) viviam sob o ensinamento judáico, que bem ou mal permitiu que os judeus sobrevivessem como unidade por cinco mil anos até agora, enquanto civilizações mais ricas e bem armadas não duraram muito. Esta conversão nunca poderia ser completa, infelizmente, porque havia o fator geográfico da religião: o Templo de Jerusalém. No início, o cristianismo era mais uma das centenas de seitas judáicas que existiam na época. Se não fosse por Paulo, a mensagem não teria se tornado tão universal como se tornou. Paulo era da diáspora e teve a sensibilidade de compreender que aquilo era muito maior do que uma seita judáica poderia se transformar. Aquela mensagem era uma quebra de paradigma. Os Essênios, outra seita judáica da mesma época, quase tinham chegado lá. Eles se afastaram do centro corrupto do Templo e já começaram a ventilar a idéia de que o Templo estaria onde está a . Jesus de Nazaré, mais incisivo, fez como alicerce principal o desligamento do Templo com Deus. Os Essênios (parecido com os monges modernos) não conseguiam imagina Deus sem os judeus. O homem de Nazaré retirou o fator geográfico (o Templo somos nós) e o fator racista (pregava para cobrador romano, prostitutas e quem mais quisesse ouvir).

Em suma, o Templo está em nós significa que para estar perto de Deus a pessoa não precisa estar no Templo de Jerusalém. A mensagem é simples, a compreensão é sofisticada. Paul Johnson, um grande historiador, escreveu um livro sobre a história do Cristianismo e do Judaísmo. Vale a pena a leitura.