Wednesday, February 01, 2006

Contos do Fim do Mundo: A Culpa tem Cor Cinza (Completo)



Patrícia entrou apressada, estava atrasada mais de meia hora. Mas nada saiu como planejado desde a hora em que saiu da cama. E ainda chovia. A chuva que não parava desde a madrugada tornou tudo mais difícil. Era a segunda semana que estava morando sozinha em toda a sua vida. E numa cidade estranha, ainda hostil. Sentia-se uma criança abandonada, engolida pelo barulho intimidante da chuva que caia. A noite não foi tranqüila, mal iniciava a sonhar e logo era interrompida por pesadelos bobos que enganavam a mente adormecida o bastante para fazê-la acordar assustada. A situação era insólita, estúpida. O pavor era real, mesmo sendo infundado. De qualquer modo decidiu não reagir, apenas esperar a chegada da manhã. A luta era entre a razão e o temor infantil e a razão não teve a menor chance neste entrave. Não bastasse a noite mal dormida, levou mais tempo do que o esperado para chegar até a clínica. A cidade estava um caos, até mesmo para o motorista do táxi que a levou. O barulho da cidade batia em seus ouvidos como martelo. A chuva ainda a assustava. O sentimento de desproteção não a abandonava, logo a ela.

Era seu primeiro trabalho externo como repórter na nova editora. Patrícia não esperava encontrar de imediato o mesmo ambiente de trabalho de seu outro emprego, no qual havia trabalhado seis anos. Afinal era agora uma estranha em meio a estranhos. Duas semanas não são suficientes para entrosamento. As pessoas desta cidade eram tão diferentes de seus pares e não faziam o mínimo esforço para que ela se sentisse à vontade.

O tempo passa tão rápido. Seis anos parecem ontem. Há pouco, Patrícia ainda era uma estagiária mal saindo da adolescência, esforçando-se ao máximo para sobressair-se da leva de estudantes de comunicação social que também sonhava com a vaga permanente no jornal. Ousadia e uma certa medida de coincidência lhe asseguraram a vaga. O médico que a acompanhou na infância foi acusado de pedofilia por uma mãe indignada que alegava que seu filho havia sofrido abuso durante os anos em que vinha sendo acompanhado pelo médico. O delegado encarregado do caso, ainda jovem e muito ambicioso, após constatar em exame no IML que a criança poderia ter sofrido abuso, tornou público e a impressa transformou o caso em escândalo nacional, condenando o médico antes de ele ir a julgamento. As mães não deixavam seus filhos sozinhos com os pediatras e houve um aumento na procura de médicas mulheres. O assunto foi discutido em rede nacional.

Era o início da abertura política. O país discutia a possibilidade de eleições diretas. A imprensa experimentava a liberdade em doses tão enormes que a levaram a embriagar-se, tornando-a, por vezes, irresponsável. Quase todos os programas em rede nacional discutiam o caso do médico, os sérios e os nem tanto. E o médico via sua vida privada tornar-se pública. Seus atos da adolescência, completamente típicos dos adolescentes eram então mostrados como manual de comportamento dos psicopatas. Sua casa foi apedrejada noite após noite, seu muro pichado com inscrições impublicáveis até o ponto em que o velho médico viu-se forçado a mudar-se de cidade, indo morar em sua chácara na serra. Patrícia conseguiu convencer o seu supervisor, Marcão, ou formalmente Marcus Vinícius Pereira Domito, a deixá-la entrevistar o médico.

Marcão alimentava interesses além dos profissionais por ela. Conseguia enxergar charme por trás do seu estilo desalinhado de vestir-se, não diferente de muitas adolescentes da época. Nem mesmo o aparelho dental que ela usava o demovia de uma visão particular de Patrícia. Cada um ao seu modo, mas todos os homens que se aproximavam de Patrícia eram alterados, encantados, tocados por sua beleza que a transcendia. Por isso era normal vê-la sempre rodeada de rapazes nos corredores da faculdade. E ela não podia negar que gostava da atenção que recebia.

Na outra ponta da popularidade havia Marcão – sempre alvo de discussões suspirantes das estagiárias, tanto nos corredores do jornal quanto no campus da universidade, onde lecionava no sétimo semestre. Mesmo com a reputação de conquistador barato, sempre arrematava alguma beldade adolescente da faculdade ou do jornal. Algumas delas sabiam em que tipo de relação estavam se metendo, outras achavam-se muito especiais e por isso acreditavam que acabariam controlando a situação. Patrícia simplesmente o ignorou, ou melhor, tinha-o como mais um dos membros do seu séquito.

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da chuva que castigava a sacada do prédio da clínica. O medo infantil havia retornado. Ela apressou o passo até a recepção. O rapaz por trás balcão iniciou, como quem recita a própria a fala – “Em que posso ajudá-la?”
– Eu tenho hora marcada com o Dr. Da Silva.
– Qual o seu nome? – Perguntou o rapaz abrindo o livro de protocolo.
– Patrícia Domito... – disse Patrícia, assustando-se com o ato falho. – Desculpe, Patrícia Lins.
O rapaz pediu para que ela o acompanhasse enquanto dirigia-se ao fim do corredor. No caminho pôde ver uma sala gradeada e trancada onde havia um homem por volta de seus sessenta anos, barba cheia, ainda não completamente branca. O corredor terminava em uma porta na qual ostentava uma placa de metal com a inscrição: “Dr. Hernane Alves da Silva. Diretor”. O rapaz bate à porta e antes de qualquer resposta, abre-a. Dr. Da Silva a recebe com um sorriso.
– Desculpe meu atraso, doutor...
– Não há problema. – Falou com sinceridade. – Ou pelo menos espero que não. Já que passou o horário de visitas, não foi possível manter os pacientes na sala, assim tomamos a liberdade de escolher um paciente para sua entrevista. Isto é problema para a senhora?
– Bem, na verdade seria importante para a integridade da reportagem que eu mesma escolhesse o entrevistado.
– Neste caso, poderíamos marcar novamente para amanhã, no mesmo horário.
– Amanhã seria complicado. O fechamento da semana na revista é amanhã e eu ainda preciso compilar outras informações. – E já considerando a situação, pergunta – O entrevistado é, por algum acaso, o senhor de barba na sala gradeada?
– Este mesmo. O nome dele é ... – e lendo o nome no borrão, disse – João Filomeno Coelho. – Patrícia tomou nota. De alguma maneira ela havia gostado do semblante daquele senhor de barba e talvez não fosse má idéia entrevistá-lo, afinal de contas.
– Ele está lúcido?
– Se estivesse completamente lúcido, não estaria aqui. Mas posso lhe garantir que é possível extrair sentido no que ele fala, foi ele mesmo quem insistiu em ficar quando soube da entrevista.
– Ele está aqui por quê?
– Infelizmente não tenho esta informação no momento. – Disse olhando para o borrão. – Mas eu posso providenciar.
– Pode ser depois da entrevista, assim eu recuperaria algum tempo.
– A senhora quer começar a entrevista agora? – Como a resposta foi afirmativa, Dr. Da Silva pediu pelo interfone que alguém a conduzisse até a sala de visitas.

Patrícia observava as paredes recentemente pintadas enquanto lembrava a primeira vez em que esteve naquela clínica, logo após a denúncia em rede nacional de que os pacientes estavam sendo maltratados e que o ambiente era impróprio para abrigar seres humanos, tamanha falta de higiene observada em todas as dependências. Era-lhe irônico o fato de que uma denúncia na televisão tivesse força superior a qualquer outra providência legal que se aplicasse ao caso. Não importava qual o instrumento, mas Patrícia sentia-se melhor ao ver que a situação havia melhorado para os doentes. Embora o Dr. Da Silva, em sua opinião, fosse um sujeito metódico, pragmático, incapaz de rompantes metafísicos, um médico típico, totalmente contrário à formação liberal que ela tivera, era um sujeito honesto, franco e detentor de um senso de humanidade formidável. Talvez pela suas limitações, ou por seu caráter, era incapaz de ironias, o que é um alívio em um mundo permeado por elas. Certamente ele era o homem certo para a situação. A reportagem já estava praticamente pronta. Se o caso fosse outro, isto é, se não fossem pessoas mentalmente debilitadas envolvidas, bastaria um telefonema para levantar as informações. Pelas paredes novas, a atmosfera respirável, o aspecto daquele senhor de barba por trás das grades, era visível a melhora.

O enfermeiro abriu-lhe o cadeado e a fechadura que isolava a sala onde, naquele momento, estava o homem de barba e em outros momentos servia de sala de visitas para os familiares de outros pacientes. Ele observou Patrícia durante todo o seu percurso até a mesa ao redor da qual ele estava sentado. Ela pediu permissão para sentar-se à mesa com um gesto. Foi respondida também com um gesto. Patrícia pediu para o enfermeiro retirar-se. As normas impediam que ele estivesse ausente, então, resignado ele foi ao ponto extremo da enorme sala, de onde nada poderia ouvir, mas estaria à disposição para alguma eventualidade. Ao sentar-se, colocou o minigravador sobre a mesa e novamente sem falarem, apenas através de gestos, fora pedida e concedida a permissão para a gravação da conversa.
– Eu ouvi dizer que o senhor havia se oferecido para falar comigo. Existe algum motivo especial? – Iniciou Patrícia, sondando a sanidade do interlocutor.
– Existe. E os motivos são dois: um deles é a sua entrevista.
– Qual seria o outro? – A resposta a esta pergunta certamente exporia a sanidade do homem.
– O outro não é seu motivo, logo não interessa no momento. – O tom com que foi falado não revelou agressividade.
– Está certo. – Sorriu quando falou. O homem havia-lhe acendido uma fagulha de curiosidade. Não se fala assim com um repórter quando se quer manter segredo sobre alguma coisa. Mas o medo de uma resposta estapafúrdia que invalidasse o entrevistado era tudo que ela não desejava. – Meu nome é Patrícia Lins e gostaria de lhe fazer algumas perguntas, tudo bem? Primeiro, qual o seu nome?
– Meus pais me batizaram de João. João Filomeno Coelho. Mas sou Caipé. Assim me batizou Uripurá a quem devo tudo, do meu apogeu a minha desgraça. Mas minha desgraça como homem é o meu apogeu e no meu apogeu como homem, meu espírito era lixo. Caipé de Uripurá, este sou eu. – Patrícia tentou entender esta afirmação como algo poético. Pelas circunstâncias, entretanto, era mais provável estar diante de delírios de um louco.
– O senhor sentiu alguma melhora nas condições de viver da clínica? – Foi objetiva, numa tentativa desesperada de ouvir a única resposta que lhe interessava.
– Claro. Somente um tolo não vê. Agora temos nossa dignidade. Uripurá falou que meu aprendizado havia acabado. Agora eu era novamente íntegro e, por isso, poderia ter de volta o esplendor humano. A situação agora vai melhorar cada vez mais enquanto eu estiver aqui. Uripurá abençoou minha casa e todos que nela moram. – A resposta que ela queria estava no meio do delírio e era clara. Fim do serviço.
– Muito obrigada, seu João...
– Você não quer saber o outro motivo de eu estar aqui?
– O senhor não falou que não era meu motivo?
– Quando eu falar será.
– Tudo bem. Qual é?
– Acho que a pergunta certa é quem é.
– Como assim?
– Márcio pediu a Uripurá para lhe dar um recado. Uripurá agora me pede para dar o recado de Márcio para você.
– Quem é Márcio?
– Uripurá diz que não é Marcio. O nome é Marco. – Patrícia foi tomada por um choque. Perdeu visivelmente o equilíbrio.
– O que Marcus quer dizer para mim?
– Que sente sua falta, mas que está bem. Diz que te ama e espera que você possa voltar a ser feliz.
– Pergunte para ele o que aconteceu naquela noite. – Seus olhos encheram de lágrimas.
– Uripurá diz que sabe porque você tem medo de chuva.
– Por quê?
– Homem velho fazia brincadeira com a menininha. Homem velho revirava os olhos quando brincava com menininha. Tava chovendo no dia e menininha tinha nojo de homem velho. Menininha fechava os olhos. Marco diz que homem velho era pai de menininha.
– Seu porco! Seu mentiroso! Dobre a língua quando falar do meu pai! – Disparou enquanto chorava compulsivamente.
– Moça tá certa, Uripurá diz que homem velho não era o pai de menininha. Homem velho era médico de menininha. – Patrícia permaneceu chorando. Quando olhou para o lado viu o enfermeiro se aproximando.
– A senhora está bem? – Perguntou o rapaz.
– Vamos embora – pediu-lhe enquanto tentava se recompor.
O homem de barba iniciou uma gargalhada tão estridente quanto medonha e acrescentou: “Moça está rodeada por Incubus” e acrescentou a isso um gesto lascivo com a língua, tal qual uma cobra.
Quando Patrícia tomou-se novamente por si, já estava na sala do Dr. Da Silva. Ele havia-lhe providenciado um comprimido tranqüilizante e um copo com água. Ela tomou a medicação instintivamente. Dr. Da Silva esperou silenciosamente a sua recuperação, deu-lhe o tempo necessário para que saísse do estado de choque em que se encontrava. Patrícia não precisou o tempo exato que se passou e a medicação trouxe-lhe uma certa paz a qual ela se entregou irrestritamente – a morte deveria ser algo tão sublime quanto aquilo. Adormeceu sentindo-se segura enquanto Dr. Da Silva, silenciosamente, a observava, velando-lhe o sono. Teve então sonhos lindos. Nos sonhos Marcus estava vivo e eles se beijavam...

Patrícia acordou e viu-se numa maca, numa sala que parecia um ambulatório desativado. Olhou o relógio e viu que passava das três da tarde. Estava um pouco atordoada, mas sentia-se revitalizada. Quem a colocou na maca teve o cuidado de tirar-lhe o sapato. Espreguiçou-se sorrindo, lembrando dos sonhos bons. Subitamente veio-lhe o sentido de urgência, o fechamento da revista e junto a isso também voltou-lhe a lembrança do homem asqueroso de barba e das parvoíces pronunciadas. Levantou-se, calçou os sapatos e saiu do ambulatório. Achou o caminho por entre o labirinto de corredores até a sala do Dr. Da Silva. Hesitou por um momento em entrar, estava profundamente embaraçada por toda a situação, pelo seu descontrole, quando sentiu uma presença. Olhou para trás e viu Dr. Da Silva.
– A senhora dormiu bem? – Saudou-a com um sorriso.
– Dr. Da Silva, me desculpe o incômodo, estou tão envergonhada.
– Não há nada do que se envergonhar, estas coisas acontecem. Vamos entrar? – Disse enquanto abria-lhe a porta. Os dois entraram e Dr. Da Silva dirigiu-se a sua mesa e apontou-lhe uma cadeira. Abriu uma gaveta de sua mesa e retirou o minigravador. – A senhora esqueceu isto na sala de visitas. – Ela recebeu o gravador e acenou com a cabeça. – A senhora quer conversar comigo sobre o que aconteceu?
– Quero, mas somente se o senhor parar de me chamar de senhora.
– Então estou pronto para ouvir você.
Patrícia rebobinou a fita no minigravador e reproduziu a entrevista. Dr. Da Silva ouvia compenetrado.
– Que sentido isto faz para você?
– Todo o sentido do mundo. Marcus é meu falecido marido. O médico que ele fala foi meu pediatra e foi acusado de abuso sexual pela mãe de um menino, o caso saiu na impressa durante um bom tempo.
– E que lembrança a senhora, digo, você tem do médico.
– Pelo que eu recordo, nunca chegou a me tocar com outras intenções. Era um senhor, bem velhinho, uma simpatia. Inclusive minha primeira reportagem foi uma entrevista que fiz com ele quando ele havia se mudado de sua casa para a casa de campo. O jornal ficou meio receoso de publicar a reportagem, pois o assunto era polêmico, ele já tinha sido julgado culpado por unanimidade pela opinião pública e ninguém queria humanizá-lo, o que a entrevista acabou por fazer. Logo depois da publicação a mãe da criança retirou as acusações, mas o caso já estava no controle do Ministério Público e a mulher não quis explicar porque mudara de idéia, mas foi categórica ao afirmar que o médico era inocente. O coitado morreu de desgosto poucos meses depois.
– E o seu pai?
– O melhor pai do mundo.
– O que especificamente a incomodou?
– Como o quê? Como ele sabia o nome do meu marido? Como ele sabia da existência do médico?
– Mas você não falou que o médico era inocente?
– Falei. Mas por um tempo, durante o período em que o caso estava nos jornais, eu ficava me questionando se não havia sofrido, de alguma maneira abuso. A histeria de massa, acaba, de alguma maneira nos afetando e eu ficava, às vezes, imaginando que de alguma maneira ele agia com malícia quando pedia um beijinho na bochecha ao fim da consulta e me dava uma bala. Depois eu percebia como estava sendo idiota, pois minha mãe sempre estava comigo.
– Quanto ao nome do seu marido, que ele chama de Marco e você de Marcus, não poderia ter sido coincidência, afinal de contas é um nome bem comum?
– Isso é verdade e agora revendo a fita dá pra ver que ele não revela nada específico sobre o Marcus. Mas o que realmente me impressionou foi ele falar do meu medo da chuva. Hoje eu não tinha conseguido dormir por medo da chuva.
– E nos outros dias? Você tem dormido bem?
– Não durmo bem faz muito tempo.
– Há quanto tempo o seu marido faleceu?
– Vai fazer um ano agora em junho.
– Como ele morreu?
– Acidente de carro. Eu estava com ele, estávamos voltando do litoral.
– Deve ter sido terrível. Você se machucou no acidente?
– Me machuquei muito. O carro virou sucata. Mas eu não lembro nada do que aconteceu dias antes e depois do acidente. Mas o que mais me incomoda é não saber como aconteceu o acidente.
– Não ocorreu perícia para determinar a causa?
– Falha humana.
– Quem estava dirigindo?
– Pelo que tudo indica era ele. Por todas as evidências, concluiu-se que era ele. E este é meu grande problema, saber ao certo o que aconteceu naquela noite. Eu não ando bem desde o acidente e não consigo melhorar o que não pode ser, em nenhuma hipótese, normal. Eu acredito que se eu soubesse ao certo o que aconteceu naquela noite eu poderia voltar a ter uma vida normal.
– Eu lhe indicaria uma terapia. Se você quiser posso lhe indicar um ótimo clínico...
– Terapia demora demais e eu não agüento mais viver assim.
– Eu vou lhe receitar um antidepressivo e assim você vai poder voltar a viver uma vida normal e com o acompanhamento da psicoterapia em pouco tempo você superará estes problemas.
– Eu ouvi falar que o tratamento com hipnose gera resultados rápidos.
– Tão rápidos quanto imprecisos. Hipnose para recuperação de memória é uma coisa perigosa. Estudos sérios têm demonstrado que a hipnose não é muito indicada para este fim, muitas vezes o paciente cria fantasias, cria um passado que não existiu e a mente é criadora tão poderosa, tão rica em detalhes, torna tudo tão verossímil que o paciente passa a acreditar que o que ele fantasiou realmente aconteceu. A hipnose é mais indicada para sugestionar pacientes, fazendo com que um fumante, por exemplo, controle seu impulso de fumar até livrar-se da dependência física.
– Eu gostaria de tentar.
– Posso lhe indicar alguém, mas depois não reclame se descobrir que o seu medo de chuva é fruto de um trauma na vida passada...
– O senhor não acredita em vidas passadas?
– As minhas crenças não importam. É que como médico, como cientista, não vejo fundamentação científica nestas terapias. Existem pessoas sérias trabalhando com isso, pessoas que estão preocupadas com os resultados, que têm sido consideráveis, mas que não afirmam que a experiência é autêntica e preferem imaginar o fenômeno como alguma alegoria mental para a compreensão do inconsciente.
– Que visão materialista das coisas. Quer bem me dizer que o que aquele homem falou para mim não tinha nenhum componente sobrenatural?
– Certamente paranormal, não sobrenatural. Eu requisitei a ficha do homem como havíamos combinado. Ele é o que as pessoas chamam de médium. Veio para a clínica por vontade própria e não sai porque não quer. Ele possui uma disfunção, ou talvez uma capacidade mental de interpretar o pensamento das pessoas, mas como você pôde observar esta capacidade é imprecisa. Criou mais confusão na sua cabeça do que ajudou. Nos tempos de hoje não devíamos mais dar lugar a este tipo de coisas.
– Mas nem em milagres o senhor acredita?
– Se o objetivo é saber se eu acredito em Deus, a resposta é sim. Como pessoa, como Hernane, acredito em Deus e nos milagres. Estes sim são sobrenaturais. Mas esta é uma questão de fé e uma questão pessoal. Para o médico, para o Dr. Da Silva, a existência ou não de Deus é irrelevante e assim a pessoa e o médico podem conviver em paz.
– Me chame de teimosa, me chame do que quiser, mas eu realmente gostaria de tentar o hipnotismo. É muito importante para mim saber o que aconteceu na noite do acidente.
– Tudo bem. Posso lhe indicar um amigo que trabalha com isso.
– Eu gostaria de fazer a hipnose com o senhor.
– Eu não estou mais clinicando, agora tenho um cargo burocrático aqui no hospital e coordeno o curso de mestrado da Universidade Federal.
– O senhor está se saindo muito bem nesta consulta não marcada, antes de chegar aqui eu não tinha muita esperança, queria nem mesmo ter nascido...
– Como eu falei, nem mesmo acredito na eficácia do método.
– Mas sabe como proceder.
– É. Sei. Mas realmente não gostaria de fazer. O que tenho em comum com Freud é ser péssimo hipnotizador. Quando é que você pretende ser submetida...
– Que tal agora?
– Agora não posso. – Disse olhando para o relógio, – vamos marcar para Sexta-feira próxima. Depois das seis.
– Fechado.
– Enquanto isso, tome este comprimido uma vez por dia, antes de dormir, durante seis dias. – Disse enquanto aviava a receita.

Naquele mesmo dia Patrícia terminou a compilação de sua matéria. Tomou a medicação e dormiu tranqüilamente, mesmo com a chuva que persistia. A Quinta-feira foi tranqüila apesar da ansiedade pela chegada da Sexta-feira e do dia estressante na revista, normal em fechamentos de edição. O repórter, além de preparar a matéria, deve requisitar as ilustrações que deseja com antecedência ao departamento gráfico. Em matérias que envolvem algum tipo de especialidade científica como a matéria sobre a clínica é obrigatório a revisão de um profissional da área. A editora age em conformidade com o padrão ISO 9000, o que obriga um conjunto de ações padrões, às vezes cansativas, mas que também trazem seus benefícios como, principalmente, forçar que o time trabalhe de forma profissional, com normas bem estabelecidas, que sempre funcionam, mesmo quando poderiam ser agilizadas por atalhos no processo.

Naquela mesma noite de Quinta-feira, Patrícia aceitou o convite das pessoas de seu núcleo de trabalho para o happy hour. Achou por bem nada beber por conta do medicamento, embora não tenha sido instruída a este respeito. As pessoas afinal de contas não eram bairristas, admitiu, ela sim vinha se comportando de maneira estranha. Enveredou em conversas divertidas, esquisitas, sérias, assuntos de toda sorte. Estava se divertindo. Estava se permitindo, quando subitamente um conjunto de preocupações infundadas, um sentido de urgência a incomodou. Retraiu-se, taciturna. Os outros tentaram levantar-lhe o ânimo, em vão. A felicidade acabou novamente.

Patrícia chegou em casa confusa, não sabendo ao certo se deveria se matar ou tomar a medicação. Esse pensamento a assustou, mesmo sabendo que jamais se mataria, ou pelo menos não naquela noite. Capitulou e percebeu a incoerência dos seus sentimentos. Nada de concreto poderia tê-la levado a este estado de desespero. Nenhum motivo haveria para que ela deixasse de viver, ou melhor, para que não sentisse prazer em viver. Os pensamentos eram confusos e Patrícia evitava considerá-los. Tratou logo de tomar o medicamento. Em pouco tempo as idéias foram clareando e as sandices anuviaram-se. Agora via tudo claramente, mais acuradamente, mas estava com sono, precisava dormir. Tomou um banho quente. O toque da água deu-lhe a noção do seu corpo. Ainda que torpe sentia-se bem mais sensível. Tocava seu corpo como que se redescobrindo. Imaginou que Marcus estava lá junto a ela, tocando-a como ele aprendeu a tocá-la. Tocava os seios, olhos fechados e imaginando a cena como se estivesse assistindo aos dois fazendo amor. Tocou o sexo com a outra mão e engendrou um movimento em ritmo lento. “Faz assim, amor, come tua putinha”, sussurrou para um imaginário Marcus. Aumentou o ritmo, como Marcus fazia quando ela lhe falava obscenidades. Explodiu num clímax delicioso. Torpe e sensível era como estava. A respiração pesada. Passou ainda alguns minutos sob o chuveiro, recompondo-se, sentindo as pernas vacilarem. Os olhos fechados. Estava em paz naquele exato momento. Desligou o chuveiro e colocou o roupão. Dirigiu-se ao quarto, vestiu uma calcinha e uma camiseta e deitou-se, dormindo imediatamente. Sonhou que estava com Marcus na casa de praia, que se beijavam, e quando olhou novamente para Marcus não era mais ele, era um dos seus amigos do trabalho que estava no happy hour naquela noite. Antes que ela dissesse alguma coisa ele a beijou novamente e ela estava gostando. Quando ela olha novamente, o rapaz havia dado lugar ao seu pediatra, o velho sorri e pergunta: “quer uma balinha?”. Ela acorda assustada. Olha o relógio, duas da manhã. Estava com muito sono e dormiu de novo.

O dia de sexta-feira transcorreu sem muitos imprevistos. Nenhuma notícia de última hora teve de ser encaixada. Ao final da tarde a revista já estava completamente editorada no computador, os anúncios em seus devidos lugares. Com a nova impressora importada da Alemanha era possível começar a imprimir a revista até mesmo no sábado, no caso de uma eventualidade. Não era mais necessário fazer a separação de cores, imprimir fotolitos e criar chapas. A separação de cores era automática, rápida. Anos de estudos em matemática e física, que permitem transformar as cores primárias aditivas RGB em cores primárias subtrativas CMYK eram aplicados de modo transparente na nova parafernália tecnológica da editora. A impressão dos exemplares tornou-se tão simples como a impressão doméstica de um documento do computador pessoal.

Às seis horas, Dr. Da Silva recebeu Patrícia em seu escritório. Apresentou-lhe um amigo, Dr. José Padilha, um homem na casa dos cinqüenta anos como maior especialista em hipnose e principalmente como um homem sério. Eram amigos da Universidade Federal. Antes que Patrícia esboçasse alguma reação, Dr. Da Silva afirmou que para uma sessão de hipnose ela estaria mais bem atendida com o Dr. Padilha. Ela cumprimentou o médico e sinceramente não se incomodou com a idéia, ao contrário, sentiu mais segurança. Dr. Da Silva disse então que esperaria o final da sessão fora do escritório. Mas por insistência de Patrícia acabou por ficar.
– Tem alguma pergunta que a senhora gostaria de fazer antes de começarmos?
– Na verdade tenho algumas dúvidas...
– Quais são?
– Eu não acredito que vá conseguir ser hipnotizada...
– Por quê?
– Eu ouvi dizer que pessoas de personalidade forte não conseguem ser hipnotizadas.
– Vamos então derrubar o primeiro mito: hipnose é um estado mental que exige concentração aguçada, um estado no qual a mente foca em um determinado assunto, as pessoas de personalidade forte são as que conseguem melhor concentração e o melhor resultado.
– Eu vou lembrar de tudo que aconteceu durante a hipnose?
– Certamente. Sua mente estará mais aguçada do que nunca.
– Ah! Doutor, a mais importante: será que vou dizer alguma coisa íntima que eu não gostaria de dizer?
– Se você quiser mentir vai conseguir fazer isso com uma destreza maior do que quando não hipnotizada.
– Podemos começar, então.
O médico fechou a luz do consultório. Para evitar a escuridão completa, ligou um abajur que emitia uma luz ínfima. Colocou um pêndulo sobre a mesa e ao contrário do que ela imaginara o deixou imóvel.
“Em poucos minutos vamos iniciar uma das fases do processo. Antes, eu gostaria de explicar o que está para acontecer. Primeiro, você estará consciente toda a sessão, e ouvirá tudo que eu disser. Você sentirá alguma coisa diferente, uma sensação de maior lucidez. Isto é muito bom, pois o mais importante ponto a lembrar é que se você abrir a sua mente para o que eu vou dizer, aceitar as idéias sem questioná-las, deixar acontecer o que acontecer, você estará indo no caminho certo. Apenas ouça o que eu digo e deixe as coisas acontecer sem interferência. Pode ser diferente do que você imagina agora. Não tem problema. Não force nada. Mas se algo acontecer, deixe acontecer...”, pausa.
“Eu quero que você relaxe o corpo na cadeira. Coloque seus pés confortavelmente no chão. Se quiser tirar os sapatos, ótimo. Repouse as mão sobre as coxas, sem pressioná-las”, pausa.
“Você vai observar a esfera do pêndulo sem jamais tirar os olhos dela. Olhe-a fixamente enquanto eu falo. Ouça com atenção as minhas palavras. Evite qualquer outro pensamento. Ignore o resto do mundo. Apenas preste atenção ao que digo e olhe atentamente a esfera. Se seus olhos quiserem fugir da esfera, não se preocupe, simplesmente volte seus olhos novamente para ela. Você pode ver cores emanando da esfera, ela pode parecer crescer ou diminuir, pode parecer mover-se, pode parecer ter uma aura, pode ficar embaçada ou sumir. O que acontecer, deixe acontecer.", os olhos de Patrícia lacrimejavam e boa parte dos efeitos de ótica realmente aconteciam.
“Devo lembrá-la que em qualquer momento seus olhos podem sentir-se cansados a ponto de fecharem. Vá em frente. Você não precisa me dizer. Você pode fechá-los quando quiser", pausa.
"Agora mesmo enquanto você observa a esfera, você nota que seu corpo está relaxando. Quanto mais você se concentra, mais seu corpo relaxa, cada um dos seus músculo está se libertando do stress. Os músculos da barriga também. Seus ombros estão livre do peso. Você está se sentido bem..."
Neste momento Patrícia sente-se flutuando. Entrou no estado hipnótico. Dr. Padilha continuou ainda falando por alguns minutos até notar o transe.
“Você está agora segura, nada pode te ferir”, pausa.
“Você agora vai direcionar suas lembranças para o dia do acidente”. As imagens vieram à mente de Patrícia de forma bastante clara. Ela não estava dormindo, estava consciente, mas relaxada. Jamais imaginara que a hipnose era daquele modo.
“Estou no carro com Marcus. Está chovendo muito. Estamos discutindo ... não lembro o que é, mas é alguma bobagem. Agora estou lembrando, eu ficava dizendo que o Spock, da série Jornada das Estrelas, era mais jovem que o capitão Kirk e ele dizia o contrário. Nenhum dos dois sabia quem era realmente mais jovem, mais continuávamos discutindo. Está chovendo muito. Marcus leva muito a sério as discussões e eu queria irritá-lo só de pirraça. Eu estava usando um blusão ... e mostrei minhas pernas, como que casualmente para ele parar de ser tão sério...”. Patrícia na verdade havia lembrado que levantara a saia e deixara à mostra a calcinha. Marcus parou de falar e em novo tom perguntou: “você tá com aquela a calcinha de rendinha?”. Patrícia lembrou como gostava de provocá-lo, irritá-lo ao extremo para depois fazê-lo se derreter. Marcus era passional e parecia não perceber o jogo que ela fazia, ou então era um excelente jogador. “Eu então cobri novamente minhas pernas e ele pediu para ver de novo”, continuou a falar em voz alta. “Eu então perguntei: quem é mais jovem? Ele respondeu que era o Spock. Eu levantei de novo a saia e mostrei as pernas. NÃO! Umas luzes no sentido contrário, acho que é o caminhão, não vai dar tempo de desviar”, Patrícia começou a chorar neste instante.
“Nada pode te machucar agora”, tranqüilizou o médico.
“O carro bateu, capotou várias vezes, eu bati a cabeça, não vi mais nada”.
“Eu vou contar até três e no três você vai despertar e sentir-se muito bem. Um, dois, três”.

Três meses se passaram. Patrícia continuava fazendo terapia como Dr. Da Silva havia recomendado inicialmente. Pela terapia, acreditou ter descoberto que se sentia culpada pela morte do marido e por isso não havia conseguido superar este episódio de sua vida. Como Dr. Da Silva advertiu, Patrícia não podia afirmar ao certo se o que lembrou na hipnose realmente aconteceu, já que a cena descrita ocorria com certa regularidade enquanto viveu com Marcus. O fato confirmado por sua mãe de que não choveu no dia do acidente, também a intrigava. Mas era indubitável que se sentia responsável pela morte do marido e quando passou a tratar este problema, em terapia convencional, sentiu-se melhor e ensaiava uma vida normal. De qualquer modo, Patrícia sentia-se grata ao homem de barba.

Monday, January 30, 2006

Escolhas


Ainda faltava uma hora para o grande encontro e a imagem não lhe saia da cabeça, sentado na calçada daquele café, naquele dia cinza. A imagem, uma lembrança que demorou anos até que descobrisse era de algo que nunca aconteceu. Era o dorso nu de uma mulher que nunca conhecera, mas que na lembrança lhe era tão familiar quanto ele próprio. Tinha-a desde a adolescência quando podia imaginar um dorso nu feminino com concupiscência, mas aquela imagem lhe era pura, o dorso da mulher que amava, o corpo que era com o dele uma só carne e formavam juntos um só espírito. Desde a adolescência tinha aquela lembrança, e era o que entendia por felicidade. Aquele momento era de felicidade, embora também de expectativa, só uma lembrança era apropriada – a lembrança da felicidade. Será que ela virá?

A sua vida retomara o fluxo normal. Pulara dos vinte e um anos para os trinta e oito. Daquele buraco negro de dezessete anos, apenas Juliana pode fazer parte de sua nova vida. O tempo não foi perdido por causa dela. Todo o sofrimento que passaram juntos os tinha aproximado e Juliana com certeza o apoiará. Sua filha há de entender. O sorriso lhe vem aos lábios quando lembra que ela lhe trazia o travesseiro quando ele deitava no chão para ver televisão e muito delicadamente levantava sua cabeça e encaixava a peça sem nada dizer. Naquele momento é como se ela dissesse que ele era um bom pai e que ela o amava. Por ela, os dezessete anos não foram em vão.

Luciano lembra como se fosse hoje o dia que retornou ao Brasil. Até seu pai estava no aeroporto. Passara seis meses fotografando os países da América do Sul e seis meses fotografando os países europeus tendo como motor uma bicicleta e como hotel uma barraca de camping. Seu pai não gostou nenhum pouco quando ele surgiu com esta idéia de desocupado e não fossem os patrocinadores não teria o dinheiro para a aventura. A idéia pode parecer comum nos dias de hoje, mas nos idos dos anos 70 era absurda. Largar a faculdade de engenharia por um ano era uma idéia que não combinava com a cabeça de seu pai. Não fossem a fabricante de bicicletas, a revista Cruzeiro e o governo da Bélgica, Luciano não teria dinheiro para a empreita. Mas seu pai estava lá no aeroporto, orgulhoso. Junto a sua família estava Carmem. E naquele exato momento ela estava maravilhosa, como convém a uma armadilha.

O garçom lhe traz o pedido. Luciano adora aquela torta de maçã e a perfeição daquele café. Qualquer dia que escolhesse, o café e a torta teriam o mesmo gosto. E provar aquela delícia deveria ser declarado pecado por todas as religiões. Nada tão sublime pode ficar impune de culpa. Agora ele lembra a primeira vez que trouxe Marília para conhecer seu pequeno segredo, para torná-la cúmplice daquele pecado. A mudança em seu rosto quando provou da sua torta preferida. Pena que ela não goste de café. A hora passou, seguiu-se outra hora, outra, outra, até que o Café fechou. Bobagem dele acreditar que aquela felicidade poderia ser recuperada, depois que ele escolheu a vida que escolheu.

Wednesday, January 25, 2006

O ideal ascético




A ciência é uma oficina que exige muito dos que nela se aventuram. A exigência é tanta que suga a humanidade, transmigra o indivíduo em uma espécie de zumbi, uma criatura irreconhecível para os não iniciados. O que difere o homem da ciência em particular e o homem do conhecimento em geral dos seus pares humanos é o ideal ascético. Ele é tão necessário para o homem do conhecimento quanto o é para o homem religioso. É preciso alienar-se dos pormenores da vida comum tanto quanto o religioso precisa alienar-se dos prazeres do mundo terreno. Não pense o menos religioso ou o menos afeito ao conhecimento que esta alienação é algo pesaroso, forçado. Não, o ideal ascético é um modo de vida, ou modo de não vida para quem tem valores mais padronizados, mas o ascético não se sentiria bem levando outro tipo de vida, não pode se imaginar como pai ou mãe de família presente, do tipo que tem bom relacionamento com os filhos, que é amado pelos vizinhos e amigos. O ascético, entretanto, após sua fase de produção, tende a tornar-se um bom pai, mãe, amigo ou amiga, melhor, por vezes, do que os que cultuaram a humanidade durante toda a vida.

Tuesday, January 24, 2006

Contos do Fim do Mundo: A Mulher do Hotel (completo)






“15 Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. Por acaso colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos cardos? 17 Do mesmo modo, toda árvore boa dá bom fruto, mas a arvore má dá frutos ruins. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos. 19 Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 20 É pelos seus frutos, portanto que os reconhecereis.” – Mateus 7.


Quando Paulo encontra um espaço livre e finalmente estaciona o carro, o seu relógio marca cinco horas. A técnica de adiantar a hora, em cinco minutos, parece sempre funcionar – por mais que saiba que o relógio está adiantado, os seus mecanismos de alerta o incomodam como se a hora do relógio fosse a hora oficial, não são espertos o suficiente para efetuar uma simples operação matemática, uma estúpida subtração – e assim, esse procedimento tão simples tem lhe ajudado a mudar toda a filosofia de vida – a de estar sempre atrasado cinco minutos.

Antes de entrar no hotel, olha para o mar a dez metros dali, e imagina como seria o pôr-do-sol daqui a poucos minutos. E, nesse exato momento, Paulo acha estranho o pensamento. Não o pensamento em si, mas o fato de, morando perto do mar há anos, nunca antes haver se preocupado em ver o pôr-do-sol ou qualquer outra dessas coisas que tanto falam os admiradores, entusiastas e os fanáticos. Já vira, mas não porque quisera vê-lo – era apenas um homem no local e hora em que algo acontecia. De qualquer modo, hoje não é o dia, tem um compromisso. Além do mais, a visão que tinha era apenas do norte. O espetáculo está no sol já morno e passível de observação direta, mergulhando lentamente na linha que divide o mar e o céu, segundo ouvira. O ângulo não estava propício de qualquer maneira – o sol não se põe a norte.

Na época em que éramos colônia de Portugal, a escola arquitetônica Européia era majoritariamente barroca. Era isso que Paulo esperava encontrar na arquitetura do hotel Colonial. Mas não, em lugar disso, o que ele vê é uma arquitetura criativa que reproduz o rústico com conforto. Esse é o hotel Colonial – quartos como choupanas e uma grande área livre no centro, onde fica a piscina, rodeada por cadeiras de madeira e hóspedes que aproveitam os últimos raios de sol daquele dia – contrastando-se com os inúmeros hotéis que povoam aquela mesma costa, grandes monólitos que crescem para cima e nunca para os lados, na região de metro quadrado mais caro da cidade de Fortaleza.

A moça sorridente da recepção aponta para a sala de reunião, respondendo a Paulo. Faltam três minutos para às cinco, de acordo com o relógio do hotel, com certeza a hora oficial. Ele desce um lance de escadas, anda pelo corredor que passa ao largo de alguns dos quartos e desemboca na tal sala. Bate à porta e anuncia seu nome. Uma voz feminina o convida a entrar. Ele abre a porta e cumprimenta a senhora de pouco mais de quarenta anos que o convida a sentar-se na ante-sala. Ela tem cabelos loiros que devem ser muito bem pintados, pois parecem naturais, mas não combinam com a sua tés morena. O seu vestir e o perfume apuradíssimo denunciam a sua vaidade e bom gosto. Também falam muito de sua boa condição financeira – uma mulher com aquela presença não se faz com pouco dinheiro – horas de bons cabeleireiros, pedicuros, consultores de belezas e afins – com certeza aquela visão final que agrada Paulo não se é construída ao acaso, ele já viu muitas mulheres maravilhosas que murcharam quando o manto de proteção da juventude foi-se embora. Ela entra na sala principal de onde Paulo não tem fresta alguma de visão e o pede para esperar enquanto ela se prepara.

O tempo passa lentamente. Os minutos levam horas. E aquela espera soa insólita. Por que ela não o recebe logo? Não se ouve vozes. Ela não está falando com ninguém. Ela não tem porque trocar de roupa. Ele então imagina o que deve estar sendo preparado, mas não consegue chegar a uma conclusão, imagina coisas absurdas, caricatas, com o intuito de se entreter e ajudar a passar o tempo e não de encontrar sentido. Ela fôra muito bem recomendada por alguém em quem ele confia – o Macedo – e essa era a razão da submissão àquela situação.

Macedo tem uma filha que sofre de síndrome de down. Essa diferença genética da filha afetou de sobremaneira as crenças, ou mais precisamente, a incredulidade do pobre homem. “Não há ninguém ou nada neste mundo ou em quantos outros houverem ou venham a existir que eu ame mais do que aquela criança”, para usar as suas mesmas palavras. E na sua busca, não pela cura, mas por uma forma de comunicação com a sua filha Clara, ele experimenta de tudo.

Macedo foi hippie na época de faculdade, quando ainda tinha cabelo, nos anos iniciais da década de setenta. E quem diria que aquele cabeludo iria se tornar calvo ainda aos trinta anos. Da filosofia hippie, se é que existiu tal coisa, gostava do amor livre e das drogas. Experimentou todas não injetáveis – lícitas, ilícitas, fracas, fortes – mas não se tornou viciado em nenhuma delas, nem o álcool deixou saudades. Hoje bebe muito raramente. Entre elas, experimentou o ácido, os Lindos Sonhos Dourados, ou Lucy no Céu de Diamantes, como diziam Os Beatles em Lucy in the Sky with Diamonds, todos anagramas para o LSD, ou ácido lisérgico, um alucinógeno que causou certa curiosidade na época, por parte dos adoradores da natureza, dos espiritualistas, dos gnósticos. O ácido entra na corrente sangüínea através da pele, não é necessário cheirá-lo, aplicá-lo na veia ou mesmo bebê-lo. Essa facilidade de profilaxia permitia formas criativas e inusitadas de comercialização. Macedo conseguia a droga no jornaleiro, comprando figuras de álbum juvenil. Naquela figura colorida, ao se tocar em uma determinada região, como o olho do super-herói da ilustração, o ácido penetrava na corrente sangüínea e em poucos segundos estava nos lóbulos temporais, causando uma tremenda confusão mental.

Visões, estado alterado da consciência e fala obsessiva – todos esses efeitos foram sentidos por Macedo. Muitos afirmam ter uma experiência espiritual, outros arrancam os olhos, ferem-se ou matam-se durante a experiência. Mas o pior de tudo é que sem menos esperar, alguns poucos, que já experimentaram a droga e não a usam há décadas, apresentam os sintomas de como se tivessem feito-lhe uso. Isso pode acontecer ao se estar dirigindo de volta para casa com a família. O fato é que Macedo suspeita que a filha é diferente graças ao seu envolvimento com as drogas, mesmo ele tendo parado com o hábito anos antes de concebê-la. A ciência não confirma a sua suspeita, nem desmente. E isso o afeta. Mais do que se fosse, comprovadamente, o responsável. Queria a certeza e gostaria de poder encontrar um culpado. Na falta de um culpado de carne e osso, gostaria de uma razão, mesmo que fosse ela absurda aos olhos da ciência moderna a quem não deve nenhum respeito.

A necessidade de respostas, levou Macedo a experimentar um sem número de religiões e um outro tanto de tratamentos tão esquisitos quanto inócuos. Ao passar do tempo, ele desenvolveu um senso crítico mais racional e passou a fugir dos embusteiros e sentir-lhes o cheiro a distância, pelo menos gabava-se disso. Uma indicação de Macedo valia o esforço de conferir. O profissional indicado poderia ter todos os defeitos morais, intelectuais e éticos, mas era coisa genuína. Paulo está pacientemente esperando ser atendido por esta mulher, que ele esquecera o nome, porque Macedo a tinha indicado. E ele a indicara como profissional científica – uma psicóloga e parapsicóloga que não está no patamar dos pajés, curandeiros e sacerdotes – uma pessoa das ciências, do jeito que Paulo esperava que fosse. Os pensamentos de Paulo são interrompidos pelo chamado da mulher. Já não era sem tempo.

Ao se levantar Paulo sente suas pernas pesadas. Aquela sensação ele conhece bem. Não é dormência pela má circulação de sangue por ter estado sentado. É o estado de alerta de perigo invisível. Paulo sente isso em alguns locais onde pessoas depois lhe contam que é mal-assombrado. Perto de pessoas que não são muito agradáveis, ou muito violentas, mesmo antes de conhecê-las ou ouvi-las. Sabe que existem coisas que não pode descrever, mas pode sentir. Se mais pessoas tivessem estes sentidos, haveriam termos na língua para descrevê-los e uma só palavra seria suficiente e não um parágrafo inteiro. O perigo existia e, naquele momento, ele já estava arrependido de ter vindo. Mas a mulher o chamara novamente. Iria ao menos ouvi-la, desculpar-se e ir embora.

Aquela mulher elegante agora usava um vestido enorme de sacerdotisa do candomblé, rodeada de pedras semipreciosas, cordões e bijuterias de toda a sorte. Paulo entendeu que viera parar no lugar errado, mas não quis ser indelicado. Sabia, entretanto, que por mais que fizesse daquele momento em diante, entrara em uma região perigosa, imprecisa. Sentou-se à mesa coberta por uma colcha bordada e com detalhes feitos, cuidadosamente, à mão. No seu centro havia uma peneira de palhas de palmeira já maduras. Na peneira, repousava em jogo de búzios.

– Qual o seu nome mesmo, meu filho? – Pergunta a mulher.
– Paulo – responde-a e acrescenta – Qual o seu nome, novamente?
– Elisa. O que te trouxe aqui?
– Você lembra do Macedo, que trouxe a filha Clara, para uma consulta com você nesta semana?
– Lembro, sim. Como ele está?
– Está bem. Ele falou muito bem de você, disse que era psicóloga e parapsicóloga. Eu realmente não esperava uma mãe de santo parametrizada. – Fala com um certo sorriso irônico, mas mantém-se cordial.
– Espere um momento – Elisa sorri e junta todos os búzios com as duas mão, e antes que Paulo fale alguma coisa, os balança, fecha os olhos, balbucia algo ininteligível e atira todo o conteúdo de volta para a peneira. Os búzios se acomodam em forma de U com todas as aberturas voltadas para cima. – Você tem uma grande mediunidade, criou um campo tão forte que todos os búzios se abriram para você, mas precisa desenvolvê-la.
– Senão?
– Caso contrário sua vida vai ficar muito complicada. Não é verdade que tudo que você vai fazer sempre aparece uma complicação?
– Sim. Mas assim é a vida. Quando faço um estudo minucioso do que pode ter dado errado chego a conclusão que deixei de observar algum pormenor que acabou estourando mais a frente. – Paulo responde ainda meio em dúvida, pois há um pouco de razão nisso tudo, mas a confusão é uma das armas da ignorância e desinformação e esta era uma guerra, suas pernas não mentem. – Eu vim aqui por causa de alguns sonhos que venho tendo.
– Shhh!!! Vou ouvi-los daqui a pouco. – Diz isso enquanto repete todo o ritual, e joga novamente os búzios na peneira. – Aqui diz que um momento muito atribulado está querendo se formar na sua vida. Saia daí!!!. – Disse apontando para o lado de Paulo. E como resposta a um olhar atônito, complementa. – Existe um negrinho que o belisca de tempos em tempos. Você não sente um beliscão, vê alguns vultos?
– Sinto, mas com certeza é alguma pontada de um órgão interno. E quanto a ver vultos todos nós vemos, principalmente quando nos viramos rapidamente e a retina nos prega uma peça.
– Puxa, como você é incrédulo! Você sabia que foi um Português na outra encarnação. – Ao ouvir esta última frase Paulo é tomado por um choque. Estas palavras fazem todo o sentido do mundo. Isso o assusta, mas deve manter a serenidade.
– E você é muito crédula, pelo seu lado. Mas que estória é essa de eu ser Português? – Paulo perguntou, meio ríspido, com autoridade.
– Conte-me o seu sonho, mais tarde voltaremos a discutir tudo isso novamente. – Diz Elisa. Neste momento, Paulo arrepende-se de ter mencionado o fato. Se não o tivesse feito era a hora certa de ir embora. Mas rende-se. – “Era uma cidade de praia e era noite. Havia uma atmosfera carregada onde eu estava, eu podia senti-la como quem sente o vento da noite e a maresia. Eu estava em frente a uma casa bem simples, pintada de verde, com a pintura quebrada. Entro nesta casa e vejo na sala de visitas um sofá de madeira também em ruínas com o seu centro lascado. A forma da casa é a de um corredor, só que da porta de entrada vê-se mais largura que comprimento, ou seja, a casa é atravessada e não tem muita profundidade. Ao lado esquerdo e acima do sofá existe uma prateleira de madeira bem pequena, sobre a qual repousa um prato com comida. Eu entro na casa e como do prato. Ao terminar vejo que o fundo do prato é um espelho. Eu então sinto que fiz algo muito errado e que as pessoas dariam conta. Na manhã seguinte, o solo acusa chuva recente. Estou com a minha namorada e uma amiga comum. Peço para minha namorada trazer-me algo. Neste tempo, embora não tenha visto as imagens no sonho, seduzi a nossa amiga e mantive relações sexuais com ela. O sonho então dá um pulo e me vejo andando com uma outra amiga e um conhecido em uma estrada limitada por cercas de madeira, muito bem cuidadas, dos dois lados. Este conhecido segura um aparelho de som portátil que tem duas caixas de som pretas. Converso com a minha amiga enquanto o aparelho começa a pegar fogo. Ela se vira para o lado e diz: “Eles levaram três anos para fazer este aparelho, não pode ser destruído”. “Isso se faz em poucos minutos”, pensei. Ela correu para o aparelho que o rapaz soltara e acaba morrendo no acidente. Eu e este conhecido não comentamos, mas sabíamos que ela morrera para salvar aparelho. Ao final da estrada chegamos a um tipo de grêmio de cidade do interior. Entramos e conhecemos algumas pessoas. Conversei com um homem que falava castelhano, não poderia precisar, mas era quase certo que ele não era latino-americano. Ele então convidou-me a sentar no bar e tomar uma cerveja. Não havia cadeira para mim, ele então foi à piscina e pegou uma cadeira de madeira branca. Havia uma criança sentada nesta cadeira e ele levantou a cadeira mesmo assim, só com uma mão, demonstrando grande força física. A criança pulou e a cadeira foi trazida ao bar. “Por que você não teve medo?”, perguntou-me o forasteiro, referindo-se ao incidente com a minha amiga. “Porque sou protegido por Deus”, respondi e me surpreendi e lembro de ter pensado: “Mesmo Deus tem seus preferidos”. “Por que você se acha protegido por Deus?”, continuou, como se lesse meus pensamentos. “Talvez não por algo que eu tenha feito, mas provavelmente por algo que eu vá fazer”, novamente me surpreendi com a resposta. “Você sabe o que matou a sua amiga, não?”, perguntou ele. “Estava relacionado àquela presença, ela atraía”, novamente outra surpresa na minha resposta. Ele disse então que não me entendera. Falei em portuñol. Ele continuou sem entender. Falei-lhe em inglês e ele pareceu entender. Foi então que me disse: “Você tem olhos fundos como o de um Português”.” – Elisa anotava enquanto Paulo descrevia o seu sonho. Mudava sua fisionomia a medida que algumas partes eram reveladas.
– Este seu sonho tem caráter espiritual. Como você sabe eu também sou psicóloga e é muito raro um sonho ser ao mesmo tempo extenso e ter uma linha única de pensamento.
– O que é o sonho para a psicóloga Elisa? – Pergunta Paulo com real interesse.
– Os sonhos, em geral, fazem parte do processo de organização da memória. Se você observar bem, quando passamos uma noite em claro temos dificuldade de organizar a cronologia dos eventos. Coisas que aconteceram há horas parecem ter acontecido há minutos e vice-versa. Somente após o sono, e os sonhos, podemos fechar a contabilidade do dia. – Elisa fala em tom professoral. – Os sonhos também trazem coisas do inconsciente à tona, isto é, para o consciente. Eles têm sentido simbólico, mas não apresentam, em geral enredo simbólico. E o seu sonho apresenta enredo simbólico, conteúdo simbólico e significado simbólico. – Responda-me só uma pergunta: este seu amigo castelhano usa alguma coisa na cabeça?
– Não nesse sonho. – Novamente a mulher tocara em outro ponto delicado. Paulo tem uma teoria já formada sobre os seus sonhos e experiências, e principalmente uma idéia sobre quem seja o tal castelhano que é figura recorrente. Procura alguém para ratificar suas crenças. Mas ele não quer que essa mulher traga nenhuma resposta. O terreno é perigoso, ela é o inimigo. Na França de Vichy, a arma era a desinformação e a desinformação era recheada de fatos verdadeiros costurados em sofismas. Esta mulher acha que sabe verdades, mas Paulo sabe que só ouvirá mentiras verossímeis: distorções da verdade.
– Acho que você não precisa que eu interprete o seu sonho, você sabe exatamente o que ele significa. Você tem um problema muito mais sério. Você tem algum inimigo? Alguém metido com magia negra?
– Na verdade tenho. Uma senhora que tem uma fábrica de velas de umbanda certa vez me comprou um carro e pagou com dois cheques. O primeiro compensou. O segundo retornou porque tinha sido sustado. Liguei para saber o que tinha acontecido e ela disse que o carro sofrera um acidente e tinha virado sucata e estava dividindo o prejuízo comigo. Ganhei na justiça o valor devido e dizem que ela me jogou uma maldição. Não levei muito a sério, mesmo quando um carro que eu tinha capotou, com apenas um mês de uso, em uma reta.
– Eu sei que você tem preconceito quanto a minha crença. Eu até respeito isso. Mas é melhor você se precaver. Eu posso fazer um trabalho para amarrar o mal que tenta atacá-lo. Se você trabalha com o Macedo, você trabalho no Estado. Pode pedir referências minhas ao Governador. Ou, se você quiser ao Secretário de Estado. Meus clientes são pessoas instruídas. Isto não é magia negra. Meu trabalho é somente com espíritos superiores. E não se preocupe que eu não vou lhe cobrar nada
– Eu não posso me livrar do mal por mim mesmo? Por orações? Sem a necessidade de trabalhos?
– Não. Este tipo de trabalho só pode ser cortado com outro trabalho.
– Mas a Bíblia não tem uma passagem que fala que qualquer pessoa pode expulsar demônios.
– Claro, mas a pessoa para fazer este tipo de coisa deve estar com a vida bem equilibrada, em comunhão com Deus. Senão não terá autoridade sobre os espíritos. Você acha que está preparado? Na Bíblia também há uma passagem que diz que quando um espírito expulso volta ele traz mais sete com ele.
– Não, eu não estou limpo. Mas com certeza você também não está. – Paulo fala com desprezo e rispidez. Agora é a oportunidade de ir embora. – Obrigado pela consulta. Quanto eu lhe devo?
– Não me deve nada. É uma cortesia para os médiums. Geralmente eu cobro de acordo com a capacidade de pagamento da pessoa. Mas para você não cobrarei nada. Tenho certeza que ainda iremos nos encontrar.
– Não conte com isso, Elisa, mas saiba que não é nada pessoal. – Paulo volta a falar amistosamente. – Só mais uma pergunta, se não for incômodo: como você sabe que um espírito é de luz?
– Eu tenho meus guias que só têm feito coisas boas para mim e para quem os requisita ajuda através de mim. Pelos seus atos, sei das suas intenções.
– Mas você mata galinhas ou outros animais neste rituais ?
– Às vezes, sim. Os hebreus também sacrificavam seus animais para os deuses.
– Os hebreus não tinham deuses, insistiam na idéia do Deus único.
– Que seja...

Paulo se despede de Elisa e sai mais confuso do que quando entrou. Mas uma coisa era certa: não era aquilo o que ele esperava daquela reunião. Ele sabe que não fez a coisa certa, mesmo que tenha sido enganado. Foi enganado sim, mas entrou no jogo daquela mulher, ou quem quer que seja que ela estivesse representando. Ele vai até o carro e vê que o pneu dianteiro está seco, quase completamente seco. Decide entrar e dirigir devagar até um borracheiro, evitando assim a sujeira da troca de pneu. Já é noite. Faz a volta e é informado por um passante de que existe um borracheiro a duas quadras de lá. Dirige com muito cuidado até ver, finalmente, o borracheiro. O rapaz que tira pneus levou cerca de trinta minutos para retirar o seu. “Nunca vi pneu mais duro, doutor”, diz o rapaz quando finalmente consegue. Após o reparo e troca de pneu, Paulo volta a pista lentamente, quando inadvertidamente cai com o mesmo pneu dianteiro em um bueiro aberto. Os rapazes da borracharia o ajudam a tirar o carro do buraco. Paulo então nota que apenas as marchas para frente estão funcionando: a primeira, terceira e quinta. Segunda, quarta e ré não funcionam. Com alguma dificuldade consegue chegar em casa. Na manhã seguinte vai ao mecânico. O diagnóstico é um só, não importa o mecânico consultado, a caixa de marcha está irremediavelmente danificada. Com o prejuízo é possível comprar uma moto usada. Paulo então sabe o que aconteceu e sabe que embora o plano seja para que ele volte, ele jamais voltará a ver aquela mulher na vida.

Monday, January 23, 2006

Psicologia Freudiana Prática (embora barata)


O Gênesis

No início era a Mãe.
A Mãe nutria. A Mãe protegia. A Mãe sonhava os sonhos de um lugar que não existia. E às vezes a Mãe cantava cantigas que ecoavam e expandiam aquele espaço mínimo onde Bebê vivia e Bebê flutuava no mar da Mãe onde Bebê estava completamente entregue e protegido. A Mãe amava Bebê e Bebê sabia. A Mãe e Bebê eram um.

Depois veio a voz do Pai.
E a voz do Pai dizia o nome do Bebê e Bebê sabia que a Mãe amava o Pai e o Bebê. Bebê temia que o Pai não permitisse que Mãe e Bebê fossem um só. Bebê não vê os sonhos do Pai. O Pai não alimenta Bebê. O Pai canta para Bebê, mas Bebê entrega-se ao conforto da Mãe. Somente quando Mãe canta, Bebê sente que o mar da Mãe não tem fim e repousa entregue e protegido.

E Bebê vai a deriva.
O mar da Mãe se esvazia. Bebê sente angústia. Bebê é arrancado da Mãe, mas permanece preso a ela. Bebê chora. Doem os olhos de Bebê. Bebê quer voltar ao mar da Mãe. Bebê é separado da Mãe e bebê sente fome e frio. Mãe, por favor, nutre Bebê. Bebê e Mãe são um.


O Paraíso

E Mãe nutre Bebê.
Bebê dorme. Bebê acorda. Bebê chora e Mamãe vem. Bebê nutre-se de Mãe. Bebê arrota. Bebê suja a fralda. Mamãe enxuga Bebê. Bebê sorri. Bebê ama Mãe. Bebê e Mãe são um só. Mãe canta cantiga para Bebê e Bebê sente-se protegido e entrega-se ao canto da Mãe.

O Inimigo

Pai não quer que Bebê e Mãe sejam um. Pai também quer Mãe. Pai dorme com Mãe e Bebê dorme sozinho. Bebê acorda no meio da noite e não vê Mãe. Bebê chora. Pai não pode descobrir que Bebê ama Mãe. Pai não quer que Mãe e Bebê sejam um.

Pai protege Mãe e protege Bebê. Bebê teme Pai, mas precisa de Pai. Bebê teme Pai e ama Pai. Bebê não quer que Pai saiba que Bebê ama Mãe. Papai, por favor, não separa Bebê de Mãe.


O Id

Bebê quer.
Bebê quer água. Bebê bebe. Bebê quer comer. Bebê come. Bebê quer, Bebê tem. Bebê bate no gato. Mãe briga com Bebê. Bebê ri. Bebê não sente culpa.

O Ego

Bebê não é mais Bebê. Também, Mãe é um, Bebê é outro. Mãe e Bebê não são mais um. Criança não suja mais a fralda. Criança chama Mãe quando quer sujar fralda e Mãe ajuda Criança. Criança gosta de pegar no pipi. Mãe diz que é feio. Pai briga com criança.

Criança tem irmãozinho. Criança tem priminho. Priminho e Irmãozinho brincam com brinquedo de criança. Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Mãe e Pai não deixam. Criança quer fazer. Criança sabe que não pode.

O Superego

Criança não pode pegar no pipi, não pode dizer nome feio, não pode chutar o gato. Criança quer fazer o que tem vontade, mas lembra que Pai e Mãe brigam e não faz.

Criança sonha com rio. Criança faz xixi na cama. Criança sonha batendo no gato. No sonho Criança pode fazer qualquer coisa. Bebê tem pesadelos. Bebê tem medo.

Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Criança sente remorso quando bate em Priminho e Irmãozinho. Pai e Mãe não precisam brigar mais com Criança. Criança sabe que não pode fazer coisa feia. Criança sente vergonha sozinho quando pega no pipi.

A Neurose

Criança sabe o que é certo e o que é errado. Além de Pai e Mãe, criança conhece Pai do Céu. Pai do Céu é um e é três: Pai, Filho e Espírito Santo. Mesmo se Pai e Mãe não vissem o que Criança faz de errado, Pai do Céu veria. Pai do Céu castiga. Pai do Céu castiga na terra e castiga no céu. Pai do Céu ama criança. Criança faz errado, pede perdão e Pai do Céu perdoa. Criança alcança a graça de Pai do Céu. Criança sonha com coisa proibida, mas Pai, Mãe e Pai do Céu não podem brigar por isso.

Criança sente remorso. Criança é mau. Criança quer ser boa, mas Criança acaba fazendo coisa errada. Criança sente culpa. Criança tem remorso. Criança precisa botar pra fora o que incomoda Criança. Criança quer, mas Criança não pode.

O Fim da Inocência

Criança não é mais criança. Adolescente é agora o que era Criança. Adolescente vê que Pai também não sabe tudo. Adolescente sabe que Pai e Mãe mentiram. Adolescente não acredita em cegonha. Adolescente não acredita em Papai Noel. Adolescente não acredita mais no que diz Pai e Mãe. Adolescente sente angústia. Adolescente não é mais um, é meio.

Adolescente quer Adolescente. Adolescente e Adolescente somam um. Que angústia é ser apenas meio. Adolescente quer Adolescente que é de outro Adolescente. Adolescente quer que outro Adolescente morra. Viver é angustiante. Adolescente sabe que deveria ser racional, mas não é.

Pai do Céu diz que veio primeiro Adão e Eva. Darwin diz que veio primeiro o Macaco. A palavra de Pai do Céu não pode ser entendida pela razão. Adolescente escolhe ora a razão, ora Pai do Céu. Adolescente sabe que vai morrer. Pai do Céu cuida dele após a Morte. Darwin, não.


O Mal Estar da Civilização

Homem é o que era Adolescente. Homem precisa vencer a natureza. Homem precisa da civilização. Civilização quer que homem não satisfaça seus desejos. O Homem é o pior inimigo da Civilização, mas sem Civilização não pode mais existir Homem.

A Religião tem as regras da Civilização. A Civilização não é justa. Pai do Céu é. Se Homem for bonzinho pode viver na Civilização e nunca morre. Quando morre, tem outra vida no Céu, que é onde mora Pai do Céu. Se for injustiçado na Civilização, não será no Céu.

Homem não acredita mais em Pai do Céu. Homem precisa de Pai do Céu para viver em Civilização? Quando Homem usa a razão, Homem pode viver na Civilização, mesmo quando não acredita em Pai do Céu. Homem sente angústia. Homem quer e não pode. Se pode tudo que quer não há Civilização. Sem Civilização não há Homem.

Friday, January 20, 2006

O Caso do Brasileiro Preso em Hannover



Baseado em uma estória real durante a feira Cebit em Hannover, Alemanha (ou foi 2000 ou 2001):

Uma das descobertas mais importantes da feira foi a existência de confraternizações após o horário de funcionamento. Não que as festas tivessem alguma graça, mas em compensação transbordavam de comida. Uma refeição comum numa cidade alemã típica com algum suco ou refrigerante não custa menos do que trinta marcos, não incluíndo a sobremesa. No segundo dia de feira descobrimos a boca-livre e passamos a sair do Messe de Hannover, o gigantesco centro de convenções onde acontece o evento, depois das dez da noite, quatro horas após o encerramento. O almoço também foi substituído por um baguete com presunto, que custa caro, se compararmos com o preço no Brasil, mas é suportável. O hábito adquiriu nível tal de especialização que chegamos ao cúmulo de assistir a palestras em alemão na espera do coquetel servido após. Isto aconteceu ontem e entre canapés bem servidos com salmão, queijo, presunto e outros frios refinados, tomávamos vinho tinto Melot ou branco com uva Riesling. Como meu organismo tem um certo preconceito com álcool, enquanto os meus caros amigos tomavam taças e taças eu consegui beber uma completa. Uma etapa concluída, o próximo passo foi procurar outra confraternização para finalizar o jantar. Não foi difícil. Mais cerveja para os meus amigos. Finalmente, depois das dez, conseguimos ir embora. Como em Hannover praticamente não existem hotéis, é prática hospedar-se em quartos de casas de família. E como o procedimento é corriqueiro existe um nível alto de profissionalização.

Fiquei em uma casa com dois quartos para alugar, o outro foi alugado por um brasileiro que veio para o CeBIT, e para manter sua identidade em sigilo, vamos chamá-lo de Sr. X. O Sr. X havia alugado carro em Frankfurt ou Munique, não lembro bem qual das cidades, e veio dirigindo até Hannover. Como estávamos na mesma casa, aproveitava a carona na ida à feira e na volta, mas na Europa o sistema de transportes é tão eficiente que ter um carro é um luxo dispensável. Voltando ao fatídico dia de ontem, eu me ofereci para dirigir naquela noite, primeiro porque o Sr. X estava ligeiramente embriago. Segundo porque, pela infelicidade de uma doença de infância, a maldita pólio, suas pernas não tinham muita força e naquele dia todos andamos muito. O estacionamento era especialmente distante da entrada da feira e eu fui pegar o Ford Focus alugado para poupar o Sr. X de andar toda aquela distância. Ele insistiu em dirigir e por mais argumentos lógicos que eu usasse para dissuadi-lo, ele foi o motorista. O Sr. X é extremamente seguro de si, ou em linguagem menos politicamente correta, teimoso o bastante para se considerar à prova de engano e acreditar que sabia o caminho de volta para nosso hotel-casa naquela cidade estranha. Após mais de uma hora andando em círculos ele decide finalmente aceitar minha sugestão de olhar o mapa. Paramos numa estrada principal, mas muito estreita, próximo ao semáforo. Devia ser por volta das onze da noite. O Sr. X fica observando o mapa e tentando descobrir nossa localização. Um carro pára atrás do nosso e dá sinal de luz. O Sr. X naquele seu jeito debochado fez sinal com a mão como quem diz passe por cima. Ao terminar o sinal, aquele carro ligou a sirene. Era a polícia, provavelmente nos seguindo há algum tempo, afinal o que aquele carro estava fazendo andando em círculos? O policial chega falando palavras duras em alemão que embora fossem incompreensíveis, sabíamos que eram palavas duras. Quando descobriu que não falávamos alemão e tentávamos explicar que estávamos perdidos e que precisávamos de ajuda, tudo em inglês, não quis conversa. Pegou o bafômetro e mandou o Sr. X soprar. O outro policial que o acompanhava fazia o papel de tira bom, tentando apaziguar. De todo modo o tira mal me entrega o seu cartão com o telefone e endereço da delegacia e diz para eu esperar no carro enquanto o Sr. X é levado para averiguação.

A noite estava bastante fria. Embora já fosse março, ainda havia alguns dias de neve, mas não naquele dia. Fui até a estação de metrô que estava do outro lado da rua e liguei para Claus Traeger, o consultor da SOFTEX na Europa, um brasileiro descendente de alemães, que vive em Colônia, na Alemanha. Então ele ligou para Darci Weiss, uma cearense cujo marido é um advogado alemão. Passados uns trinta minutos, o tira bom retorna na sua viatura, pergunta se eu tenho habilitação e faz o teste do bafômetro. Como não bebi o bastante para coisa alguma, ele pede para que acompanhe sua viatura até a delegacia. Eu tinha acabado de fazer uma cirurgia de miopia, que me deixou apenas dois graus dos meus doze graus e eu estava sem óculos ou lentes e ainda via as coisas embaçadas. Consegui segui-lo sem problemas. O Sr. X é advogado e os códigos legais de quase todos os países têm uma forte influência alemã. Ele estava fazendo o jogo de advogado. O bafômetro não é prova e ele insistia na tese de que sua religião não permitia que lhe retirassem sangue. O inglês do Sr. X não era grande coisa e dentro do seu jogo ainda estava bem pior e eu fiz o papel de tradutor. Uma alemã, a que conduzia o interrogatório, falava em inglês comigo e o Sr. X esperava que eu traduzisse para só então se manifestar e eu então traduzia para o inglês. Também no jogo dos policiais eles conversavam entre si em alemão. O Sr. X tem sobrenome alemão e os policiais temiam que ele entendesse alguma coisa e iam cada vez mais testando limites. A delegação era do Rio Grande do Sul e eu era o único cearense da turma. O Sr. X entendia um pouco do que eles falavam e era algo como “que mala! Vamos ter de passar a noite toda aqui”. No jogo de ganhar tempo, eu cada vez me desesperava mais pois tinha uma reunião às oito da manhã com uma empresa interessada em nossos produtos. Os policiais exigiam uma fiança de mil marcos para liberá-lo. Depois de muito ganha-tempo conseguimos baixar a fiança para seiscentos marcos (a relação era de 2,3 marcos por dólar americano a mesma relação do real à época). O Sr. X disse-me onde seu dinheiro estava no nosso hotel-casa. Perguntei aos policiais como chegar em casa a partir da nossa localização e finalmente consegui a informação que tanto queríamos. Estava bem próximo, somente a alguns quilômetros. Fui ao local indicado pelo Sr. X e havia uma grande quantidade de marcos e dólares, cerca de uns três mil dólares no total. Peguei o dinheiro do acordado e voltei para a delegacia. Quando cheguei, encontrei o Sr. X alquebrado como nunca o havia visto em nossa curta convivência.

Aproveitaram minha ausência como testemunha e lhe retiraram sangue à força. Isto mesmo, no primeiro-mundo há também violência policial. Assinei o boletim como testemunha e como tradutor. Ele insistiu em escrever seu próprio testemunho, como manda a lei em muitos países e embora houvesse uma pressão velada para que ele não o fizesse, escreveu no seu inglês tosco a violência que sofreu e o seu relato teve de ser arquivado junto com o boletim. Chegamos em casa e o Sr. X, sujeito forte como é, não ficou remoendo a violência que sofreu enquanto eu estava me remoendo com a injustiça. No outro dia ele compareceu ao forum, o promotor achou uma injustiça o que ele sofreu e a sua multa acabou reduzida para apenas duzentos marcos. A porta também estava aberta para que ele processasse os políciais. O tempo infelizmente era curto e ele teve de voltar com esta injustiça não desfeita para o Brasil e eu com uma péssima impressão da polícia alemã.

Thursday, January 19, 2006

Novidades que não se vêem na TV

iWeb

Steve Jobs apresentou no dia 10 de janeiro, o iWeb que promete revolucionar a criação de páginas web para uso pessoal. Eu assisti a apresentação e o produto realmente é interessante. O que Steve falou, e eu concordo, é que softwares simples fazem páginas feias e softwares complexos são difíceis de usar para o usuário comum. O iWeb também cria páginas de blog, podcasts e estas coisas da moda.

Disney e Pixar

A Pixar foi responsável pelos sucessos que salvaram a Disney de anos de queda de receita, entre os sucessos incluem-se Monsters, Inc.; Nemo; The Incredibles e Toy Story. A Pixar é de Steve Jobs, o homem que criou a Apple. Disney e Pixar não conseguiram renovar o acordo. Parte porque Steve Jobs não se dava muito bem com o antigo CEO da empresa, Michael Eisner. Com a entrada de Robert Iger, as conversas retornaram. O jornal Wall Street dá como certa a compra da Pixar pela Disney. Com isto, Steve Jobs se tornaria um grande acionista da Disney, com direito a participar das decisões e assim um homem mais poderoso do que já é. Ou como disse um comentarista da CNN, se tornaria o próprio Mr. Incredible.

MBAs nos EUA

Cerca de cem mil pessoas completam MBA aqui nos EUA e são recompensados: a média de salário no primeiro ano é de US$ 106 mil por ano. Eu já fui aceito para o MBA em Project Management na Universidade do Texas, agora falta só o dinheiro para pagar as despesas.

A lei Anti-Walmart

O Walmart é conhecido por aqui como destruidor de economias. Onde chega destrói os pequenos negócios ao redor e acaba com o lucro dos fornecedores. Também é conhecido por pagar mal aos funcionários. A coisa boa é que os preços são realmente baixos. Quando os funcionários de alguma loja se juntam a algum sindicato, o Walmart simplesmente fechas as portas desta loja e vai para outro lugar. Walmart way or Highway (ou é do jeito do Walmart, ou adeus). Sofrendo pressões de todo o lado, especialmente da rede regional Giant (que tem um serviço ao cliente excepcional), o governo de Maryland aprovou a lei que é conhecida com anti-Walmart dia 16 de janeiro. Esta lei força que qualquer empresa com mais de 10 mil funcionários tenha de gastar pelo menos 8% do seu faturamento em benefícios para os funcionários. Por lá só outras três empresas possuem mais de 10 mil funcionários, a Giant, Johns Hopkins (universidade e hospital) e um empreiteiro para o serviço de defesa. Todos já gastam mais de 8% com benefícios. O Walmart iria abrir um centro de distribuição em Baltimore, mas depois desta deve mudar-se para Virgínia (MD, VA, PA ficam próximas e são satélites de Washington, DC).

Hemetério, U2, eu e a sina de um dia depois



Continuo acompanhando as notícias no Brasil através da Internet e uma notícia que me chamou a atenção foi a confusão causada pela correria para comprar o ingresso do show do U2. Eu conheci o U2 na casa do meu amigo Valmir Meneses que hoje mora em Portugal. O CD que eu ouvi foi o Achtung Baby! A primeira música que eu ouvi foi o suficiente para perceber que aquele grupo era muito especial. Cada um teu seu gosto musical e este post não é uma ode ao U2, em breve chegarei ao ponto.

Naquela época, eu trabalhava com uma equipe de notáveis. Fazíamos experimentos, escrevíamos feito loucos e ainda ganhávamos dinheiro com isto. Foi aí que eu conheci o Valmir e o Hemetério. O Hemetério é um grande artista plástico, que agora está escrevendo tão bem no seu blog (ver link ao lado) que, para quem o conhece apenas por lá, não imagina o grande ilustrador que ele é (também mantém o blog Genésio, o galalau, com tirinhas semanais). O Hemé é também um grande apreciador do U2.

O U2 tocou no Brasil pela primeira vez (e única por enquanto) em 1998 no Rio e em São Paulo. Hemé e eu compramos os ingressos imediatamente e fizemos reservas para o Rio de Janeiro com bastante antecedência. Acontece que a agência marcou a viagem para um dia depois da única apresentação no Rio e o pior é que só descobrimos isto quando, de malas prontas, tentamos embarcar na data que pensávamos ser a correta. Não lembro bem, mas acredito que recebemos o dinheiro da passagem de volta, mas o prejuízo foi realmente não ter visto o U2 ao vivo. Antes de eu me mudar para cá, acredito que algumas semanas antes, convidei o Hemé para assistir ao show do U2 no projetor da empresa que eu tinha instalado em casa. Comemos caranguejo e tomamos cerveja, assistindo ao show da área mais VIP possível pelas câmeras. Quando eu cheguei aqui, neste mesmo dia houve um show aberto do U2 em Washington, DC, apenas a alguns quilômetros de onde eu estava. Se eu tivesse chegado um dia mais cedo...

Wednesday, January 18, 2006

O Schwa



Um dos fatores que atrapalha qualquer estrangeiro de pronunciar inglês perfeitamente é o Schwa, uma vogal neutra marcada foneticamente como ə que pode estar fantasiada de várias vogais, com o i de animal; o segundo o de oxford; o u de but; o e de character; o i, o a e a vogal entre sm de Puritanism. Esta vogal falsa pode estar em qualquer palavra e se você não ouviu a pronúncia da palavra fica difícil de imaginar onde ela está, ou se não existe schwa. Depois de algum tempo você acaba percebendo os schwas em palavras novas, mas isto requer tempo. Eu conheço pessoas que vivem aqui há anos, são fluentes na língua, mas têm problemas de pronúncia. Abaixo coloco algumas palavras com o link para a pronúncia correta (os links funcionam melhor com o Internet Explorer). Tentem pronunciar antes e só depois usem os links:

Focus, Taurus, Dulles, Animal, Oxford, Characteristic, Puritanism, But, Organization.

Para verificar a escrita fonética de qualquer palavra inglesa visite http://www.m-w.com.

Tuesday, January 17, 2006

Contos do Fim do Mundo: Sociedade dos Céticos (parte I)



Antes eu era cético com a mesma impropriedade apresentada por aquele que crê somente. Hoje sou um cético que possui convicção igual ao do crente que se banhou nas graças do Espírito Santo mas ao contrário deste posso descrever por palavras minha experiência sem que o interlocutor careça de encontrar-se em um determinado estado de espírito para compreender-me. Se há um começo, um marco que aponte de maneira inequívoca a formação do caráter cético em um jovem que ainda carregava as culpas da religião cristã, como era o meu caso, aos meus dezessete anos, esta efeméride coincide com a partida de Ana Luzia, no momento em que eu perdi o amor que me corroía pois justificava minha existência ao mesmo tempo que me enchia de culpa e junto com ele, algo irrecuperável também foi perdido, a minha inocência. Não me lembro ao certo do rosto de Ana Luzia e a menção do nome dela, neste momento que escrevo seu nome, traz-me a imagem de uma moça de cabelos compridos e negros com uma tez pálida e traços tão delicados que causavam comoção em quem a via, não importando quão insensível fosse o observador. A imagem, de tão genérica, não pode ser mais imprecisa. Antes, quando eu escrevia repetidamente Ana Luzia, Ana Luzia, Ana Luzia na folha do caderno da escola para depois disfarçar as letras, transformando A em B, L em E, u em d, antes de riscar completamente as palavras para que se alguém se empenhasse em descobrir o que fora riscado, olhando através dos riscos, deparasse com símbolos ininteligíveis, o sentimento era de prazer e de dor que como já disse me assolavam. Mais estranho acharia o leitor se eu dissesse que o mais próximo que cheguei de consumar este amor, que custou minha inocência e imputou-me novo caráter, foi um beijo de encontro de lábios, cuja falta de malícia foi culpa exclusiva de minha imperícia. Ana Luzia fôra-me apresentada por meu grande amigo de infância, Leonardo, que antes desta formalidade já a tinha tornado uma figura familiar por conta de suas descrições detalhadas.

Se eu agora apresentasse a qualquer um de vocês Ana Luzia depois de precavê-los, talvez de espírito preparado, o leitor não sofresse a tempestade sensorial que sofri ao vê-la pela primeira vez, tão indefeso. Não fosse somente isso, mas também a afinidade que nós descobrimos ter um com o outro e, no crescendo de nossa intimidade, ver surgir alguma coisa que explicava minha existência e, lembrando mais uma vez, tornava minha vida miserável pela culpa de saber que minha felicidade seria a ruína de Leonardo. Não que ele não pudesse sobreviver sem Ana Luzia, tanto que sobrevive até hoje..

No dia em que nos beijamos, eles namoravam há dois anos. Era fim de tarde e estávamos na casa de praia alugada pelo pai de Ana Luzia para as férias do início de ano. Leonardo estava jogando sinuca sem perder uma partida sequer, enquanto Ana Luzia nos chamava insistentemente para andarmos na praia. Em dado momento ela saiu em direção à praia sem falar nada com ninguém, iria ao passeio sozinha. Leonardo por um momento pensou em interromper o jogo, mas preferiu pedir que eu fosse com ela que em breve ele estaria conosco. Enquanto andávamos Ana Luzia queixava-se que Leonardo não lhe dedicava a atenção de outrora. Paramos em uma duna e deitamos lado a lado. Ela então pediu para que eu descrevesse o que eu via quando olhava para o mar. Não lembro as palavras exatas, mas disse algo que a comoveu, pois ela me olhou e disse: "Você é tão diferente do Leonardo". Neste momento, neste segundo que ela me olhou de modo que todo meu corpo entrou em descompasso, eu a beijei. A maneira como ela entregou-se àquele beijo, me fez pensar que o prazer de saciar o desejo supremo valeria qualquer infortúnio que a culpa causasse. Quando o beijo acabou, Ana Luzia tremia o corpo todo. Tentei repetir o beijo e quando a puxei para mim ela evitou a aproximação com o braço estendido, levantou-se e disse que era hora de voltarmos. Não falamos uma só palavra até chegarmos na casa onde Leonardo ainda continuava jogando sinuca. Foi a última vez que eu a vi.