Sábado, Maio 24, 2008

O Circo de Pablo Fanque



Eu finalmente assisti ao musical baseado nas músicas dos Beatles - Across the Universe – que já havia mencionado no blog. Peguei o filme no Netflix que é um serviço que envia filmes pelo correio e permite que você fique com o DVD o tempo que quiser. Normalmente os DVDs para o mercado americano não possuem legendas em português. Este DVD em particular, por ser um filme de arte, tinha legendas em quase todas as línguas incluindo o português do Brasil. Eu passei muito tempo com o filme. Vi repetidas vezes e pelo menos duas vezes com as tais legendas. A versão em português do I am the Walrus, a música mais emblemática escrita por Lennon, é tão imprecisa que vai merecer seu próprio post. O presente post é para falar de Pablo Fanque.


Em 1841, William Darby, um artista de palco de 45 anos de idade com o nome artístico de Pablo Fanque, foi o primeiro negro a montar um circo na Inglaterra. A estória de Darby, ou Pablo Fanque, estaria esquecida se não fosse pelo fato de ele ter feito em 1843 um poster de um dos espetáculos. No começo de 1967, John Lennon viu o tal poster em um antiquário, achou interessante e o comprou. Cerca de um mês depois ele gravou Being For The Benefit of Mr Kite, uma das músicas mais complexas do Sargent Pepper's que é praticamente um novo arranjo do que está escrito no cartaz do circo. Acredita-se que Mr. Kite era William Kite que trabalhou no circo de Pablo Fanque. No início Lennon disse não estar muito orgulhoso da música, mas depois passou a considerá-la "pura como uma pintura de aquarela". Mas como todas as músicas dos Beatles ela também tem as mensagens escondidas dentro das mensagens escondidas. A BBC não tocava a música por causa do trecho que diz Henry the Horse que é a junção de duas palavras que são usadas como gíria para heroína na Inglaterra. No filme Across the Universe, Eddie Izzard (que faz o Mr. Rich no seriado The Riches) no seu discurso-canção inclui a frase: "turn on, tune in, drop out" inventada por Timothy Leary, o escritor que pregava o uso de drogas psicodélicas.

A letra: For the benefit of Mr. Kite / there will be a show tonight on trampoline / The Hendersons will all be there / late of Pablo Fanque's fair, what a scene / Over men and horses hoops and garters / and lastly through a hogshead of real fire / In this way Mr. K will challenge the world / The celebrated Mr. K / performs his feats on Saturday at Bishopsgate / The Hendersons will dance and sing / as Mr. Kite flies through the ring, don't be late / Messers K. and H. assure the public / their production will be second to none / And of course Henry the Horse dances the waltz / The band begins at ten to six / when Mr. K performs his tricks without a sound / And Mr. H will demonstrate / ten somersets he'll undertake on solid ground / Having been some days in preparation / a splendid time is guaranteed for all / And tonight Mr. Kite is topping the bill
Original dos Beatles:

Versão do Eddie Izzard:

Sábado, Outubro 20, 2007

A Pizza de Chocolate

O Cara de Milho me desafiou a escrever um conto que incluísse: Pizza de Chocolate, Van Gogh e Bozo. Isto foi o que deu para fazer ...

. . .

É difícil de acreditar que eu estou aqui maquiado como o palhaço Bozo, com o auto-retrato de Van Gogh estampado em uma camisa de algodão e segurando uma pizza média de chocolate no dia mais frio do ano. Falando assim a situação parece mais estranha do que é. Em tempo vocês vão perceber que há sentido em tudo isto. Para entender a mensagem tanto o emitente quanto o destinatário precisam compreender os símbolos nela contidos.


Tudo começou com a operação Áurea da Polícia Federal na qual cinqüenta e seis pessoas foram presas, três indiciadas e um processo enviado ao Supremo Tribunal Federal. Ultimamente a PF vem utilizando nomes engraçadinhos para as operações de grande porte que incluem outros órgãos como Receita Federal e neste caso o Instituto Nacional de Seguridade Social. O que talvez pouca gente saiba é que muitas destas grandes operações são parcialmente financiadas por dinheiro estrangeiro. Parte do que vou escrever aqui não pode ser verificado nem confirmado. Eu mesmo não sei se é verdade e sugiro ao leitor que entenda as informações a seguir como boato, tal qual eu vejo. Eu ouvi este mesmo relato de um amigo que é delegado da Polícia Federal, embora o relato seja bem detalhado, pode ser somente fruto de mais uma destas mentes que vêm conspirações em tudo, mais um daqueles que acredita que as medicações anti-paranóia estejam conspirando contra ele.


Depois da guerra-fria, a CIA sofreu uma séria crise de identidade. O investimento pesado em sistemas sofisticados de vigilância e em armamentos futurísticos aliados ao desmoronamento da União Soviética levou os Estados Unidos a acreditarem que estavam protegidos de tudo. Em 2001 a realidade veio servir de contra-prova e o rei viu-se nu. A CIA estava impregnada de analistas, funcionários normalmente com doutorado em ciências políticas ou algo do gênero, que passam o dia estudando uma cultura, país ou tendência, enquanto o número de agentes de campo estava no menor nível desde a criação da agência. Exceto na psique de Hollywood, a realidade é que não há mais muitos agentes de campo bem treinados que conseguem falar várias línguas e captarem agentes estrangeiros, termo que significa aliciar cidadãos estrangeiros. Nos consulados americanos, a maioria dos attachés diplomáticos é agente de campo da CIA de acordo com meu amigo. Está na folha de pagamento da CIA, como agentes estrangeiros, um grande número de Policiais Federais incluindo este dito amigo. "Este é a verdadeira Tropa de Elite", diz ele, "somente policiais honestos e para ser agente precisa passar pelo temido polígrafo, perguntam até se você é veado". Os agentes recebem um extra de até dois mil dólares mensais, pagos em dinheiro dentro da própria PF para em troca participar de operações que ajudem aos interesses Americano.


De volta à operação Áurea, as pessoas presas estavam em conexão com várias fazendas que se utilizavam de mão-de-obra escrava. A escravidão moderna funciona assim: o trabalhador desempregado aceita um emprego que paga o salário mínimo, junto com o emprego há a opção de moradia e a possibilidade de se comprar a prazo no comércio montado na própria fazenda e de propriedade do próprio fazendeiro. Não há etiquetas de preços em nada e ele também deve pagar pela moradia. Todo mês o empregado gasta mais do que recebe e o fazendeiro não está realmente preocupado em vender mantimentos e receber aluguel, apenas em ter o empregado amarrado a ele. A única diferença para a escravatura clássica é que os escravos pretos não ficavam devendo ao senhor de engenho pela moradia e comida. Maioria das fazendas de escravos, ainda como no passado, pertencia aos senhores de engenho que apenas incluíram ao portifólio o álcool, além do tradicional açúcar.


Uma das exceções era uma fazenda de cacau que pertencia ao presidente do Senado Nacional. Por determinação da constituição, a mesma que afirma que todos são iguais perante a lei, a PF não pode nem mesmo indiciar um senador sem autorização do STF. Durante algumas semanas os jornais e revistas noticiaram detalhadamente o envolvimento do senador, o relato de várias testemunhas com apresentação de provas que pareciam bastante realistas. Nenhuma comoção se formou até que a televisão passou a explorar o assunto e assim da noite para o dia um sentido de indignação era perceptível. O STF não se movimentou e vários meses depois uma representação por decoro parlamentar apresentada pela oposição foi finalmente levada a plenário e votada em sessão secreta. O Senador conseguiu absolvição por placar apertado, mas conseguiu. Continua insistindo que nada sabia sobre como o administrador da fazenda estava agindo de forma ilegal. Algumas semanas depois, uma revista de extrema direita de grande circulação lançou reportagem com novas denúncias. O mesmo senador havia usado um quadro falso de Van Gogh como garantia da dívida de INSS no passado. A dívida não foi paga e na execução da garantia verificou-se que o quadro não valia nada. O que seria estelionato para o cidadão comum, também está coberto pela manta da impunidade, digo imunidade parlamentar. Os outros fazendeiros de álcool, que não tinham a mesma imunidade, ficaram muito felizes em vender por muito bom preço suas fazendas para o fundo de pensão da Exxon antes que elas fossem hipotecadas para pagar as dívidas de INSS. Nenhum funcionário escravo recebeu o que lhe era devido até agora. É terrível imaginar que a CIA acabou se tornando um braço do departamento de comércio americano.


Hoje é o dia da votação também secreta da segunda representação ao conselho de ética do Senado. E aqui estou, entre a multidão, maquiado de Bozo pelo fato de ser tratado como palhaço, com a camiseta estampada com um quadro de Van Gogh e prevendo uma pizza de chocolate feita a partir do melhor cacau nacional.

Sábado, Setembro 29, 2007

Senador Suplicy recitando MC em Inglês



Este fantasiado de Sargent Peppers é o Senador Eduardo Suplicy durante uma palestra no Woodrow Wilson International Center for Scholars em Washigton, DC, por coincidência próximo ao famigerado Hotel Watergate que derrubou Nixon.

Esta palestra aconteceu em fevereiro de 2005. Na época eu ainda morava em Rockville, MD na zona urbana de Washington. Eu já havia citado esta palestra em um outro post sobre erudição de ornato, termo que só vi na obra de Viana Moog (veja o post para mais detalhes). Estou voltando ao assunto porque o vídeo com o senador citando os Racionais MC no original (em português) estava entre os cotados para o VMB Brasil (infelizmente não levou).

O senador tem um excelente inglês sendo tão prolífico quanto o é em português. E tem a mesma tendência de não respeitar os limites de tempos estabelecidos para as palestras. Abaixo eu desenterro a curiosidade de trecho do seu discurso em que cita a tradução de uma letra dos Racionais.


Links:

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Sofia e o quebra-cabeça



Sofia, minha filha, acredita estar resolvendo o quebra-cabeça cada vez que rola os cubos. Ela diz animada "I did it!, I did it!" (algo como consegui!, consegui!) e bate palmas. Depois no finzinho quer mostrar para o mundo: "I did it! I did it! Look..." (Veja aqui eu consegui!, eu consegui!). Bem que eu disse que ela não deveria ter assistido ao "The Secret". Antes que venham me perguntar: ela fala português e inglês e em casa só falamos e esperamos que ela fale português. Mas, outside is America.

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Sexta-feira, Maio 18, 2007

You call it good weather, I call it global warming.**

Michael Crichton estava no Debate

Na sexta passada eu estava dirigindo para o trabalho num horário um pouco fora do normal e acabei ouvindo na rádio KERA, a subsidiária da NPR (National Public Radio – Radio Pública Nacional), uma discussão sobre a validade da seguinte proposição: Aquecimento Global não é uma Crise. O debate foi dividido em dois grupos, os a favor (que não vêem o aquecimento como crise) e os contra. Este debate vinha sendo anunciado há algum tempo, mas eu nunca tinha me ligado no dia e na hora. Mas eis as coincidências da vida, lá estava eu ouvindo a Kera no momento do debate. Eu já falei em outro post sobre o tornado que quase me pegou. No mês passado ocorreram nada menos que 5 tornados na minha região. Número que não é normal nem mesmo para uma década inteira. O último tornado de vergonha que tinha ocorrido por aqui foi há quase 10 anos. A cidade de Denton, relativamente próxima, inundou completamente e era uma área considerada livre de inundação, o que significa que as seguradoras não permitiam incluir cobertura (isto mudou depois do Katrina, agora você pode incluir inundação em qualquer contrato, mas maioria dos moradores não acreditou que isto pudesse acontecer).

Aquecimento global era um tema tabu por aqui. A maioria do povo americano não estava a par da situação e o governo tentava empurrar o problema para debaixo do tapete. Os Estados Unidos é praticamente um dos únicos países desenvolvidos a não assinarem o tratado de Kioto. Documentário do Al Gore e relatório da ONU depois, o assunto entrou na pauta. Até mesmo o cabeça-oca do presidente está falando no assunto. A visita que ele fez ao Brasil gerou bons resultados e hoje muitas pessoas vêm me perguntar se realmente é verdade que o Brasil é independente em energia e como é este negócio de carro a álcool. Antes vinham me pergunta se o Brazilian Wax (depilação à brasileira) era feito por todas as mulheres do Brasil. Um bom salto na qualidade do interesse (se bem que uma mulher bem depilada .... Ahhh ... vamos focar!). A coisa realmente está séria: Katrina, tornados no Texas, o inverno passado que teve dias com 27 graus centígrados de temperatura, seguidos de nevasca e chuva de gelo. O clima está realmente mudando.

Voltando ao programa do Kera, um dos que não acreditam na crise do aquecimento (mas acredita no aquecimento) é o escritor de ficção científica Michael Crichton, autor que eu gosto muito de ler. Os outros dois: um professor do prestigiado MIT e um professor emérito da Universidade de Londres. No outro córner, dos que acreditam na crise do aquecimento, uma cientista de clima que faz parte do grupo de Cientistas Preocupados, um criador de modelos climáticos da NASA e um professor de Oceonagrafia da Universidade da Califórnia. Parece uma discussão equilibrada, não? Mas esta não foi a minha percepção. Além do fato curioso de a voz do Michael Crichton ser voz de velho, ele foi muito convincente nos seus argumentos, bem como os demais que não acreditam na tal crise. Michael Crichton acredita que o clima da Terra sempre mudou (o que é um fato) e sempre vai mudar, não importa se estejamos aqui ou não. Isto levou à extinção muitas espécies ao longo da existência da Terra e ela com certeza vai estar aqui depois da extinção da raça humana. No livro Jurassic Park ele descreve como a aparição de uma praga no oceano, as algas que liberavam um gás altamente combustível e nocivo, o oxigênio, destruiu muitas formas de vida e permitiu a criação de outras, incluindo a humana. Afinal a floresta Amazônica não está com nada, quem gera o oxigênio necessário ainda são as algas marinhas. Do outro lado, dos que enxergam a crise, os argumentos mais pareciam com aqueles do pessoal do PSTU, usavam muito mais a ideologia do que a ciência, uma verdadeira decepção. Eu acredito que o aquecimento global é realmente uma crise, mas com certeza os argumentos contrários são fortes: o aquecimento está muito mais para os pólos, no equador a temperatura está estável e um pouco mais de calor nas latitudes mais afastadas não faria muito mal aos seres humanos (não seria muito bom para os animais). Para quem quer saber mais sobre o assunto, use o link abaixo. O inglês tem de estar afiado se quiser ouvir o programa (disponível para download).

http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=9082151

** Você chama isso de clima bom, eu chamo de aquecimento global

Quinta-feira, Maio 17, 2007

A Revolta dos Clones

Um amigo meu de infância e parceiro de farra na pré-adolescência, que conheceu o mundo inteiro, de leste ao distante leste, na terra do sol nascente, fez o seu primeiro curta de stop motion com os amigos da faculdade e foi selecionado para o Festival Prêmio Universitário de Curitiba - IV PUTZ. Para quem mora em Curitiba, a mostra será no dia 18 de maio, às 18 horas. O vídeo está aqui embaixo e o making of está logo mais abaixo. O nome dele é Michael Catunda e é muito discreto por isso não quis aparecer no making of. Fosse eu, estaria em primeiro plano. Cada pessoa com o seu estilo.






Domingo, Abril 22, 2007

I was once young and beautiful, now I am only beautiful

Vendo o filme The Holiday com a Kate Winslet, Cameron Diaz, Jack Black e Jude Law (um filme bem interessante por sinal, mesmo sendo um chick movie), deparei com o trailer abaixo. Eu adoro a música Across the Universe dos Beatles e o título homônimo já me ganhou. Não tem ninguém famoso no elenco e parece ser bem alternativo. Eu não vivi aquela época (anos 60), sou de uma geração depois, mas de qualquer maneira, sinto como se pertence àquele momento da história. O filme promete mostrar este processo de passagem dos anos 60 para a realidade crua dos 70. O fim da inocência, o É Proibido Proibir (pichado nos muros de Paris), o fim dos Beatles, o Vietnam. Sem mais palavras a acrescentar, o filme vai ser lançado por aqui ainda este ano. Se você se identificar com o trailer, vai se identificar com o título.



Sábado, Abril 14, 2007

A Tempestade e o Tornado

Tornado
“Uma coluna de ar violentamente em rotação, em contato com o solo, projetada de cima ou de baixo de uma nuvem cumuliforme e frequentemente (mas não sempre) visível como uma nuvem afunilada” - American Meteorological Society glossary of terms.


Uma das coisas que eu passei a observar quando me mudei para os Estados Unidos foi a previsão do tempo. O meu primeiro destino foi Rockville, MD, uma cidade satélite de Washington, DC, onde o inverno é rigoroso e as demais estações agradáveis. Eu inclusive já falei sobre o assunto em outros dois posts: um sobre Sofia, outro sobre o desabrochar das cerejeiras.

Quando eu mudei para o Texas, continuei o meu hábito de observar a previsão antes de sair de casa a ponto de ter um plugin instalado no meu navegador de Internet. Este utilitário mostra uma exclamação vermelha quando há algum alerta. Saí de casa com a tal exclamação, a mensagem que parece com texto de telex (é, sou dos velhos tempos), informava o risco de tornado em vários condados da região. Mas tanto Las Colinas onde eu trabalho e Plano, onde moro, não estavam no tal alerta. Minha mulher me ligou perto das duas da tarde no momento em que eu estava discutindo o meu bônus com meu gerente e por isso não atendi. Depois vi no recado que ela pedia para eu ir logo para casa por causa do perigo de tornado. Verifiquei a previsão do tempo novamente e vi que havia sim um alerta, mas não para nossa região. De qualquer maneira um alerta de tempestade de trovões estava prevista para Plano e Frisco para às 6h50min. Um alerta tem esta forma maluca:


National Weather Service Zone - TXZ104

FWDNPWFWD
WWUS74 KFWD 142255
NPWFWD

URGENT - WEATHER MESSAGE
NATIONAL WEATHER SERVICE FORT WORTH TX
555 PM CDT FRY APR 13 2007

TORNADO ALERT

DAMAGING WINDS OF 60 MILES/HOUR EXPECTED TO MEET ADVISORY CRITERIA AFTER 6 PM ON FOLLOWING COUNTIES:

TXZ091>095-100>107-115>123-129>135-141>148-156>162-174-175-150000-
/O.EXP.KFWD.WI.Y.0006.000000T0000Z-070414T2300Z/
MONTAGUE-COOKE-GRAYSON-FANNIN-LAMAR-YOUNG-JACK-WISE-DENTON…

THUNDERSTORM ALERT

THUNDERSTORM WITH CHANCE OF BECOMING TORNADO ON SHORT NOTICE ALERT EFFECTIVE ON FOLLOWING LOCALITIES:

PLANO 6:50PM/FRICO 6:55PM/….


Tinha um alerta de tempestade, mas não de tornado. Eu não li a letrinha miúda que dizia que poderia se transformar em tornado de uma hora para outra. Liguei para minha mulher e a tranqüilizei, dizendo que ela poderia ficar no trabalho até às 5h da tarde que não haveria problema. Acabei me ocupando e só voltei para casa às 6h. Os 40Km que separam meu trabalho de minha casa levam normalmente 30min, neste horário e em um dia de sexta-feira. Volto na highway que cobra pedágio (e por isso tem menos carros) pisando no acelerador (entre 100 e 140 km/h). Senti que meu carro era puxado para a direita. Também não vi na letrinha miúda que haveria ventos de 40 km/h na minha região. Diminui a velocidade para evitar riscos e quando deu as tais 6h50 eu ainda estava a alguns quilômetros de casa. E exatamente no horário marcado começaram a cair gotas de chuva. Na esquina de casa, a chuva já caia como uma parede de água e os raios e trovões davam o tom tenebroso. Parei para abastecer no mesmo momento que a minha esposa ligou.



Cheguei em casa e a mulher já estava apavorada. Eu estava tranquilíssimo. Dormimos enquanto chovia, mas nada de vento forte ou mesmo muitos trovões. Um casal amigo nos liga de manhã e perguntam onde estávamos durante o tornado. Que tornado? O que aconteceu é que o tornado atingiu o norte de Dallas e este casal resolveu ir para o Walmart exatamente na hora do alerta. No momento que entraram no supermercado viram as nuvens se afunilarem e irem para o solo. A primeira reação que tiveram foi saírem correndo para o estacionamento, bem perto do centro do tornado. Por sorte, o segurança os impediu de fazer esta bobagem (estavam ainda com os dois filhos pequenos) e os mandou para o fundo da loja. No final ninguém ficou ferido. Outro casal de amigos que moram no Norte de Dallas disse que o tornado chegou próximo à casa deles. Enquanto isto, nossa família dormia tranqüila sob o barulho da chuva.

Quinta-feira, Março 29, 2007

Santoro "morre" em Lost

O capítulo desta quarta-feira foi todo sobre o Paulo (Rodrigo Santoro) e a Nikki. E começa de trás para frente. E no início eles são encontrados mortos. No desenrolar da estória conta-se a vida dos dois, com direito a flash-back e tudo. O título já é meio spoiler, mas vou tentar não estragar muito. O fim foi inconclusivo e acredito que o Santoro continue. E agora ele vai ganhar mais dimensão. Vejam abaixo os primeiros minutos editados do episódio com as legendas que eu coloquei.

Domingo, Março 25, 2007

Será que os "tratamentos" contra homossexualidade funcionam

Necessita alguma fluência em inglês. Vejam até o fim que vale a pena:







Sábado, Março 10, 2007

Engrossando o pescoço

O Santoro nem aparece nos créditos dos filmes entre os primeiros. No site do Yahoo! Vídeos ele nem aparece a não ser que você peça para ver todo o elenco (clique aqui). Quando iniciaram-se as gravações do filme ele era um ilustre desconhecido. Quando o filme foi lançado, porém, ele já fazia parte do elenco do Lost (e foi lançado como nova sensação da temporada), embora ainda não tenha tido muitas falas. Acontece que no lançamento do filme, em uma reportagem da CNN, apenas três pessoas aparecem: o ator principal, Gerard Butler (que faz Leônidas), o diretor Zack Snyder e adivinhe quem mais: Rodrigo Santoro. Veja a íntegra abaixo com várias cenas que não estão no trailer:


Lost – Mensagem subliminar

O capítulo 8 da terceira temporada do Lost trouxe uma cena esquisita em que o Sawyer fica meio que hipnotizado vendo um vídeo de lavagem cerebral. O pessoal da SciFi2U colocou ao contrário e assim dá para ver a mensagem subliminar que em português significa “Apenas os tolos são escravizados pelo tempo e espaço”. No original é: “Only fools are enslaved by time and space”.

Veja cena como foi ao ar aqui:



Veja cena ao contrário aqui (cuidado, crianças pequenas se assustam):

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Gisele ensina português para Conan O'Brien

Assistindo a um dos meus programas de entrevistas favoritos, do genial e engraçadíssimo Conan O’Brien que passou na quinta-feira passada (na verdade era uma reprise de 2006), vi uma entrevista muito legal com a Gisele Bündchen, que é muito fluente em inglês, embora com um charmoso sotaque brasileiro. Eu coloquei para vocês o trecho em que ela ensina português para o Conan. Ele escolheu uma frase de duplo sentido, que complica qualquer tradução, mas a Gisele até que conseguiu um bom equivalente. Eu sinceramente não sei se conseguiria uma frase melhor, assim na bucha. A pergunta: I must have you. A tradução que ela escolheu vocês vão ver no vídeo. É muito engraçado ver o esforço do Conan para falar a palavra “ter”. A Gisele é uma simpatia em qualquer língua.


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300 - Rodrigo Santoro como Ney Matogrosso





Hoje assisti ao filme 300, baseado na graphic novel de Frank Miller, o mesmo de Sin City e Batman (a graphic novel). O Santoro estava no elenco como o poderoso rei persa Xerxes (pronunciado em inglês Zérzes), fantasiado como Ney Matogrosso e com a voz grossa do Cauby Peixoto. Não quero estragar nada do filme, vou só citar alguns fatos históricos, da batalha de Termópilas (portões de fogo em português) que aconteceu em 480 AC, citados por Heródoto, o pai da História.

Os Espartanos eram conhecidos como os grandes guerreiros. Eram preparados desde criança para serem soldados. As mulheres também tinham uma forte preparação física para gerar filhos saudáveis e eram consideradas as mais lindas de toda a Antigüidade. A perfeição física era tão importante, que crianças defeituosas eram mortas logo após o nascimento. As mulheres eram tão valentes que se juntavam em grupos para encher de porrada os solteiros (procriação era uma das prioridades dos espartanos). Também é famosa a frase que diziam para os filhos e maridos que iam para a guerra e que é repetida no filme: “volte com seu escudo ou sobre ele”, isto é, ou volte vitorioso ou morto, nem pense em se render.

O Grande Império Persa era separado da Grécia pelo mar Egeu. Xerxes, o rei persa, lançou uma ofensiva e logo tomou algumas cidades gregas. Ele mandou mensageiros para várias cidades pedindo rendição, na verdade usando de uma metáfora, “queremos apenas um pouco de água e terra para mostrar a submissão”. Muitas cidades se renderam de cara. Atenas e Esparta mataram os mensageiros. Os espartanos os jogaram num poço dizendo: vão pegar a terra e água vocês mesmos. Atenas e Esparta fizeram uma aliança e mandaram 7.000 homens sob o comando do rei espartano Leônidas que tinha um exército pessoal de 300 homens. O número de homens no exército de Xerxes estava na casa das centenas de milhares (de acordo com Heródoto, um cara meio exagerado). Xerxes mandou um grupo de reconhecimento dizendo para eles entregarem as armas e serem poupados, que o exército persa era tão numeroso que as flechas cobririam o sol. Um engraçadinho espartano foi longo dizendo: ótimo, lutaremos à sombra. A resposta de Leônidas foi: se querem as armas que venham buscar. O Xerxes foi (na verdade mandou buscar, como todo bom senhor da guerra).

A estratégia de Leônidas foi genial. Manteve o exército no desfiladeiro estreito de Termópilas, que não permitia a passagem de muitos soldados por vez, o que aniquilava a vantagem persa, que também não tinha um exército tão preparado e disciplinado como o grego. O exército persa era formado por escravos e mercenários de várias nacionalidades, mal comandados, mal treinados e ainda por cima com uma vestimenta pesada que atrapalhava a mobilidade. Durante quatro dias, o exército persa foi praticamente extinto. Um traidor grego falou para Xerxes de uma passagem que permitia cercar os gregos. Leônidas soube da traição e mandou o exército de volta, enquanto ele e os 300 do exército pessoal lutaram até a morte. Xerxes ficou impressionado com a garra de Leônidas, mas mesmo assim decapitou-o (depois de morto) e crucificou seu corpo sem cabeça para dar uma lição aos gregos. Esta lição gerou mais ódio e pouco depois o exército grego expulsou os persas de vez de tal maneira que eles nunca mais se meteram com eles. No filme o exército iniciou com os 300 (daí o nome) e depois é que recebeu reforço.

De qualquer maneira o filme é muito interessante, os cenários são surrealistas, bem fieis aos quadrinhos. O Santoro faz muito bem o rei persa, tem um papel importante e várias falas, mas parece o Ney Matogrosso. Aconselho a todos meus amigos Nerds e não Nerds.

Página original do quadrinho de Frank Miller de onde saiu a roupa de Ney Matogrosso do Xerxes:

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

20 anos de Windows



Windows 1.0

A edição de 25 de fevereiro de 1986 da PC Magazine traz a análise de um software que acabava de ser lançado pela Microsoft. O tal Microsoft Windows. O ponto a favor era: “Você pode iniciar uma aplicação sem saber como é que ela se escreve” (quem trabalhou com o DOS sabe o que é isso). O ponto contra é: “Você precisa de uma máquina de última geração. Isto significa um PC de 8-MHz.” (o PC aqui não é um Pentium, nem mesmo um PC AT). Os requerimentos de hardware: 256KB de RAM (1MB que não guarda nem uma música MP3 inteira é quatro vezes isto) sendo recomendado 640KB; 2 discos flexíveis de 5 ¼” (360KB de capacidade) sendo um HD recomendado. Requer o DOS 2.0 como software e custava a bagatela de US$ 99. A Microsoft apostava tanto nisto que até o Steve Balmer, hoje o CEO da Microsoft, fez um infocomercial (que até hoje o assombra), que você pode ver aqui embaixo.





Este sujeito é o CEO da Microsoft hoje




Windows Vista

Após anos sem lançar versão nova, finalmente chega ao consumidor final o Windows Vista. O upgrade para Windows Vista mais básico custa os mesmos US$ 99 e o upgrade para a versão mais séria custa US$ 299. Os requerimentos de hardware também mudaram bastante (você pode checar aqui). E os comerciais também, quanta diferença:




Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Lagosta Viva



Há umas poucas semanas inauguraram um supermercado asiático gigantesco. Minha esposa e eu acompanhamos a construção e estávamos na espera. Quando eu passei em frente no sábado de manhã a caminho do lava à jato (deu uma nevada de última hora só para sujar carro) vi que já estava cheio de carros e em pleno funcionamento. Assim que a Sofia, nossa filhinha de dois anos dormiu, fomos conhecer o local. Eu estava procurando uma fruta chinesa que o meu amigo Edge tinha recomendado [a não comprar], a Durian. Não encontrei a danada, mas já que estava lá comprei uma porção de coisas que nem sabia o que era e outras que sabia.

O que me chamou a atenção foi um tanque cheio de lagostas vivas e Dungeness Crab (um caranguejão daqui). Eu pedi uma lagosta e escolhi do tanque, apenas US$ 7.95 pela libra. O cara simplesmente tirou a lagosta com uma rede colocou num saco de papel e este dentro de um saco de plástico, pesou e somou os US$ 12.27. Eu continuei comprando, mas não tirava da cabeça o sofrimento que a lagosta estava passando. Cada vez que olhava para o carrinho de compras e via o saco, pensava no desconforto da lagosta. Minha mulher falou para eu deixar destas coisas. E depois ela pergunta porque nunca me viu chorando...

Eu cheguei em casa e tirei as fotos (uma delas é a que vocês vêem) e filmei um pouquinho também. A lagosta tava tão fraquinha que mal podia mover as patas. Eu a coloquei numa grande panela com água e ela ameaçou se animar. Quebrei uns biscoitos Cream Crackers estilo brasileiro (que você só encontra nos melhores supermecados asiáticos) e coloquei na panela como alimento. Sai com a família para o Shopping Stonebriar para a Sofia brincar no playground [gratuito] que tem por lá, já que está impossível ir para o parquinho aberto aqui perto de casa com a temperatura atual.

No Shopping já imaginava como eu ia adotar a lagosta. Ia ensiná-la a apanhar bola de beisebol, rolar, fingir de morta, meu Deus, e se ela tiver morrido? Se tivesse morrido o jeito seria ir para a panela. Mas quando sai ela estava respirando, ganhando forças e ainda tinha os farelos do biscoito para se alimentar...

Cheguei em casa e corri para a panela. Lá estava a Camille (já tinha ganhado nome) morta. Minha mulher zombou de mim, como era de se esperar. Camille não morreria em vão, pensei. Quinze minutos depois, já no fogo e com os ingredientes certos já estava pronto para o seu sacrifício. Sua carne, embebida em manteiga derretida (hmmmm) aplacou minha dor e minha fome. Semana que vem tem mais.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Criando o Personagem

Também não foi na sua segunda aparição em Lost que Rodrigo Santoro teve muitas falas. Entretanto há de se notar que o seu personagem, que não teve o nome mencionado desta vez, está sendo construído. Na verdade há a promessa de que com este episódio e os próximos dois, muitas respostas serão dadas. Não quero estragar a alegria de ninguém contanto o que só vai passar no Brasil em 2007, mas este episódio já esclareceu algumas coisas.

Eu coloquei o primeiro episódio em que Rodrigo Santoro aparece no Youtube e o vídeo ficou entre os 100 mais vistos sobre entretenimento no mundo (número 73). Vamos ver o rank deste outro.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

O Onipresente Jack Black

Jack Black agora é o queridinho do cinema alternativo. Depois do grande sucesso de Nacho Libre que apurou US$ 80 milhões só nos Estados Unidos, ele está prestes a lançar Tenacious D in: The Pick of Destiny. É o filme tela grande da série criada pelo próprio Jack Black e Kile Glass em 1999 para o canal de assinatura HBO.

Pelo que eu saiba, esta série não é conhecida no Brasil, mas o que eu ouço dos meus amigos americanos é que o programa era o queridinho dos universitários. A série acabou sendo curta porque os executivos da HBO queriam ficar com os direitos criativos na renovação do contrato. Os Tenacious D mandaram os executivos enfiarem o contrato em um lugar que não recebe a luz do sol (e não foi no lado escuro da Lua).

Mas há males que vem para o bem, depois de muitos anos finalmente os Tenacious D chegam à tela grande no dia 17 de novembro (aqui nos EUA). Acabaram vazando uma cena que é muito interessante e que eu coloco abaixo (imagine colocar letra em música clássica). Eu não sei a razão, mas este clip me faz lembrar o meu amigo Hemetério. Agradeço ao Arley, de Portugal, pela dica do clip.





Sábado, Outubro 21, 2006

Rodrigo Santoro no Lost

Esta temporada do Lost está aquém das expectativas. Não que não esteja ainda interessante, mas o fato é que os autores criaram tantos parênteses que está ficando cada vez mais complicado darem um desfecho crível. Não vejo possibilidades de haver um final que não seja Deus ex machina (ironicamente o nome de um dos episódios). De qualquer maneira, não me entendam errado, a série ainda continua interessante.

O Rodrigo Santoro fez uma aparição curta no terceiro episódio que se passou em 18 de outubro. Curta, mas importante. Dá para notar que o personagem, Paulo, veio para ficar e que vai crescer ao longo da série. O inglês que ele ensaiou está bem legal, ele é um ator muito determinado e com certeza vai resolver as deficiências que ele tem com a língua rapidamente. No episódio, o inglês estava afiado, mas em uma entrevista para um programa ele cometeu um erro bem sutil, difícil para um estrangeiro perceber, mas perceptível para um nativo. Ele pronunciou steroids quase como se pronuncia asteroids. A entrevistadora foi de certo modo grosseira, porque certamente ela entendeu o que ele queria dizer. Mas isto é um bom sinal, aqui só se costuma corrigir um estrangeiro quando ele fala muito bem inglês. Veja o vídeo aqui (em 00:39). Ele também apareceu no Good Morning America da própria ABC. Dá para notá-lo um pouco apreensivo, mas o inglês saiu bem, mas dava para notar a concentração. Veja o vídeo aqui (em 03:01).

Como eu passei muito tempo sem postar, fiz um esforço maior e separei a cena do Santoro que eu gravei no meu Windows Media Center que funciona como um TiVo. Além disso eu tive o trabalho de colocar legendas em português uma vez que todas as cenas no YouTube não tinham legendas. Divirtam-se:




Pronúncia de steroid:


Pronúncia de asteroid:


Post Anterior sobre a filosofia de Lost:

Lost

Domingo, Julho 23, 2006

Crítica Musical

Qual a sua opinião sobre este vídeo musical?


Sexta-feira, Maio 12, 2006

Erudição de Ornato



No Brasil colonial, homem de bem, termo vago como todas as coisas brasileiras, era aquele que não trabalhava com as mãos. Com esta definição tosca, separavam-se aqueles que podiam participar das decisões locais daqueles que não podiam. Já aqui nos Estados Unidos, na mesma época, o homem que não trabalhava com as próprias mãos era visto com desconfiança. E ainda hoje, chamar um americano de intelectual, antes de ser um elogio, é visto como insulto. Lembro-me bem de que quando David Lynch deu entrevista a Ana Maria Bahiana em Los Angeles sobre o seu excelente filme Mulholland Drive em 2003 e foi chamado de intelectual pela entrevistadora (na verdade foi chamado de intelectual e artista), logo se defendeu: “intelectual não, artista pode ser..”. Qualquer um diretor brasileiro (ou europeu) se sentiria à vontade e linsonjeado quando chamado de intelectual. E David Lynch é intelectual e artista.

Os portugueses que eram mandados para o Brasil eram proibidos de trabalhar enquanto não encontrassem ouro. O medo português era de que com todas oportunidades de enriquecer no Novo Mundo, a busca por riquezas mais facilmente negociáveis como ouro ficasse em último plano. E olhe que o ouro só foi encontrado séculos depois, quando já se tinha perdido as esperanças. Nesta busca ao ouro foi que se tomou quase toda as terras dos Espanhóis delimitadas pelo tratado de Tordesilhas.

Quem criou São Paulo foram praticamente os Jesuítas. Terras longe do mar, idéia meio maluca deste tal Anchieta, que ninguém sabe ao certo se era português, espanhol ou inglês. Provavelmente um pouco de tudo. O sonho do Anchieta era criar uma civilização perfeita, um novo Éden, com os índios puros de coração que existiam por alí. Esta sociedade alternativa até que funcionava bem até a chegada das bandeiras e a formação dos exércitos de índios. Esta fase da história brasileira é muito bem contada no livro sobre São Paulo escrito pelo Roberto Pompeu de Toledo.

Enquanto isto, aqui no Hemisfério Norte, a colonização era feita pelo pioneiro. O pioneiro vinha com a família com o objetivo de obter seu sustento com o próprio trabalho. Quase todos sabiam ler, pois a maioria era formada por Quakers, forma de protestatismo, coisa nova na época. Estes protestantes aprendiam a ler desde pequenos, porque a grande afirmação era poder ler a Bíblia diretamente sem a mediação do Papa e da Igreja Católica, espécie de Lula e PT da época. E no Brasil, no mundo dos intelectuais, ler era coisa de maricas ou de subversivo, ou de uma mistura dos dois.

Dom Casmuro, de Machado de Assis, ilustra bem o tipo do erudito de ornato. O embromador de conversa bonita, caracterizado pelo picareta José Dias. Fala, fala (e fala bonito), mas não diz nada. Quem já assistiu a qualquer sessão de CPI? Eu tive o (des)prazer de ouvir por quase duas horas (o limite era apenas uma hora), o querido senador Suplicy no Woodrow Wilson International Center, em Washington, DC. Erudito, mesmo em inglês, não conseguia dizer nada objetivamente. E além de mal estar, não conseguiu deixar mais nada. Nenhuma mensagem.

Os Estados Unidos fizeram questão de esquecer o passado europeu, para o bem e para o mal. O resto da américa se agarrou a este passado como se fosse uma herança bendita. E ainda há uma sensação de superioridade no resto da América com relação a falta de refino intelectual nos Estados Unidos, como se a erudição de ornato enchesse barriga. E antes que eu esqueça São Paulo foi uma das poucas coisas que deu certo no Brasil porque no final do século XIX recebeu cerca de cem mil imigrantes que tinham como mentalidade ganhar o sustento com o trabalho duro. Eram os poucos sofisticados europeus que só queriam uma chance justa de ganhar a vida.

Sobre o filme Mulholland Dr

Trailer
http://youtube.com/watch?v=GF70PTD6KTc&search=mulholland

Cantando "Llorando"
http://youtube.com/watch?v=oddg6dCB7FE&search=mulholland

Entrevista com o David Lynch (Não sou intelectual)
http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=382

Sugestão de Leitura (além de Dom Casmurro e do livro do Pompeu de Toledo)
Bandeirantes e Pioneiros – Paralelo entre duas culturas – Viana Moog


Terça-feira, Abril 11, 2006

O Retorno do Zarastrutas

Caros leitores, minha empresa lançou vários produtos este ano e está lançando um outro tanto. Eu estou trabalhando cerca de 10 horas por dia para tentar ficar atualizado (e ainda enfrento o trânsito da High Five). Eu estou adorando o ritmo, mas o blog acabou ficando meio abandonado. De qualquer maneira eu estou preparando (ainda na cabeça) vários posts interessantes:

  • Crônica sobre o contrato social e os Estados Unidos;
  • Conto sobre o homem que ganhou milhões em Las Vegas utilizando estatística;
  • A Loteria do DNA: como o delta 32 livrou uma população da peste negra e um piloto da AIDS;

Só mais um pouco de paciência...

Terça-feira, Março 21, 2006

Volta ao mundo em três semanas

Este é um texto antigo de uma viagem de três semanas que incluiu Alemanha (Frankfurt am Main), Portugal (Lisboa) e Estados Unidos (Las Vegas). Eu ainda morava no Brasil. O Big Brother ainda não tinha sido exibido no Brasil. É engraçado como o mundo NÃO muda:

Os únicos canais de televisão de alguma utilidade no hotel Rhein Main na Alemanha eram CNN e BBC, graças à minha completa ignorância na língua alemã, pois as opções na língua pareciam infinitas o que é um fato considerável, dado ao ao tamanho da Alemanha. Entre as expectativas de eleição do presidente americano que, à época, prometia ser uma questão de fácil resolução e não a maratona de recursos legais para a recontagem manual de votos na Flórida, como acabou acontecendo, surgiu um fato jornalístico de igual importância, ou pelo menos de maior urgência: o acidente com o avião da Air Singapore, em Taipé, na ilha de Formosa, mais conhecida por nós como Taiwan, por força dos componentes de computadores Made in Taiwan. Dividia-me entre BBC e CNN inicialmente, mas a maneira como a mesma notícia foi tratada por ambos os canais levou-me a ignorar a CNN deste ponto em diante. O ponto forte da CNN, como canal específico de notícia, é a cobertura ao vivo da notícia e aí encontra-se a armadilha. A maneira americana de crer que encontrar um culpado pode equiparar-se a resolver o problema, traço religioso que norteia aquela sociedade, levou o repórter a insistir em apontar como culpado o aeroporto de Taipé, já que a Air Singapure foi premiada como uma das empresas mais seguras do mundo. Ao tentar agir como advogado do diabo, como defensor das pobres vítimas do acidente, os ricos executivos ocidentais e orientais que fazem o comércio internacional dos componentes eletrônicos, o repórter beirou à irresponsabilidade ao tentar colocar palavras na boca do ministro dos transportes daquele país. O ministro, experiente, não adiantou informação alguma e se recusou a seguir a linha especulativa do repórter. Mais tarde, provou-se que o ministro estava certo e que, embora a visibilidade não estivesse boa, estava nos padrões aceitos internacionalmente e que o erro foi do piloto que se precipitou em uma pista interditada, batendo em material da obra durante a decolagem, para cair logo depois. A BBC, ao contrário, mostrou fatos e estava aberta a qualquer possibilidade, inclusive à possibilidade que se mostrou correta. E a escolha pela BBC mostrou-se acertada logo depois.

O programa Louis Theroux's Weird Weekends, ou em português algo como "os fins de semana esquisitos de Louis Theroux", como diz o título trata de assuntos bastante controversos, como pessoas que acreditam em extraterrestres, vivendo em função disto, e grupos de extrema direita. Ele é filho do escritor americano de livros de viagem e também novelista Paul Theroux. Mesmo com esta ascendência de novo mundo, Louis faz o estilo britânico, isto é, ele é BBC e não CNN. O programa que me chamou a atenção tinha como título "right-winged patriots", o que corresponde em português a algo como: "patriotas de extrema direita". O programa tem um certo estilo de Brasil Legal, que era apresentado pela Rede Globo por Regina Casé, não bem pelo modelo, mas pela maneira digna pela qual os entrevistados são tratados.

No episódio em questão, Louis encontrou um ativista que acreditava em uma conspiração global para destruir o homem comum, de proporções apocalípticas, que passava pela globalização. É certo que a globalização não é boa para o homem comum, ela privilegia apenas o capital (em especial o capital monetário e não os meios de produção do início do século) e a mão de obra que tenha um nível alto de especialização em áreas do conhecimento que estejam em evidência, como informática, nos dias de hoje. Partem também do princípio que a vida moderna não é boa para o homem. Dado ao alto número de pessoas que sofrem com doenças como síndrome do pânico e stress, é uma opinião a considerar. Este ativista lutou na guerra do golfo e era assustador, um Rambo, como veio a ser referido por Theroux que se assustou com o entrevistado. O homem era visivelmente desequilibrado. Por indicação deste Rambo, Louis chegou a pessoas que tinham trocado o mundo moderno por uma vida monástica, longe das facilidades da tecnologia. Louis foi dormir na casa de um deles. A casa não possuía calefação e estava nevando. No meio da noite, o seu anfitrião o acorda para fazer a ronda, no frio, em uma pickup. Durante a entrevista, descobre-se que o homem foi um próspero empresário da construção civil que morava em Nevada, mas em certo momento de sua vida sentiu-se ameaçado pelo governo e por isso agora vivia recluso, com a família. Os filhos estão fora da escola, recebendo educação em casa, o que é legal nos Estados Unidos. Eles não pagam mais impostos, o que é ilegal, mas também não recebem as benesses do governo. Este senhor mostrou-se ser uma pessoa bastante equilibrada, um pouco sectário em sua crença apocalíptica, mas equilibrado. Afinal o que leva um homem a isolar-se do conforto de uma sociedade? A banir-se quando tem chance de uma vida com conforto? Estas são questões sem respostas e talvez absurdas para maioria de nós que temos outra idéia do que vem a ser felicidade. Mas, para este cidadão, viver desta maneira é viver corretamente. O próximo ativista deste episódio era um Nazista americano. Sem comentários. O programa terminou com o sincero agradecimento de Theroux ao senhor que o acolheu em sua casa e abriu a sua intimidade e Louis pediu-lhe para que não fizesse nenhuma bobagem, afinal eles formavam um grupo paramilitar que poderia abrir fogo contra a polícia se sentirem-se ameaçados e há muitos casos assim que não terminam bem. Certamente o governo americano não está preocupado com um grupo de ativistas que não pagam impostos. Como dito, as vantagens da sociedade são maiores que a contribuição individual de seus membros para com ela. Não há mais espaço para chacinas como Canudos.

Em Portugal, a surpresa veio por meio do programa Big Brother. O observador talvez veja semelhança entre este programa e o global NO LIMITE. Há sim, mas este tipo de programa, com pessoas comuns sendo bisbilhotada não nasceu no Brasil ou em Portugal. NO LIMITE é cria do programa americano Survival. BIG BROTHER vem do seu homônimo holandês. O termo Big Brother vem do livro 1984 de Orson Welles que trata de uma sociedade totalitária e desumana que vigia seus cidadãos. O livro tornou-se filme, com Richard Burton e Susanna Hamilton, tendo sua versão cinematográfica sido escrita por Michael Radford, que também a dirigiu. O livro é interessante, mas não percam tempo assistindo ao filme, ou o assistam somente após lerem o livro. Voltando ao nosso programa de TV, o Big Brother português mostra o dia-a-dia de pessoas comuns que são confinadas em uma casa. Há um casal que faz sexo no beliche da moça. As câmaras para escuro não perdem o momento. O sexo praticado é tão sem graça, tão sem furor, sem emoção, sem sentimentos que chama atenção apenas pela curiosidade. Não é a toa que a moça está sempre de mau humor no dia seguinte.

Na TV dos Estados Unidos, as manhãs são invadidas pelo grotesco. Ratinho é apenas um aprendiz quando comparado com programas como o de Jerry. Esposa que perde o marido para um rapaz adolescente. Isto mesmo, a mulher descobriu que o marido era homossexual quando ele a trocou por um rapaz. Irmão encontra outro por acaso, o traz para casa e perde a mulher para ele. É tão irresistível o grotesco que é difícil desviar a atenção. Como o mundo das pessoas comuns é hipnotizante.

Segunda-feira, Março 20, 2006

Lost


Eu acompanhava (e ainda acompanho) o seriado Invasion que passa na rede ABC. Eu utilizava o DVR (digital video recorder) para gravar o seriado e assistia depois, com mais calma e paciência. Antes deste seriado, passava um outro, Lost. Sempre dava para assistir aos últimos momento deste tal de Lost. O que eu via era um bando de pessoas em uma ilha depois de um acidente aéreo. Que seriado estúpido. Como alguém vai assistir a um seriado com esta idéia tão sem originalidade, que não deixa muita margem para o desenvolvimento de muitas tramas, até pelo número reduzido de personagens. Até Michael Eisner, o antigo todo poderoso da Disney, que é dona do grupo ABC, não acreditou no projeto: “Quem se importa com estas pessoas numa ilha deserta?”. O custo do piloto da série, que tem duas horas de duração, também não ajudou: os US$ 10 milhões foi o projeto mais caro da televisão. Eisner e eu estávamos errado.

Quando o Netflix (empresa de aluguel de DVDs por correio) me sugeriu a série, eu aluguei o primeiro DVD da primeira temporada. Neste momento, a segunda temporada já tinha começado e estava interrompida pelas festas de fim de ano. A minha reação à série foi simplesmente ficar de queixo caído. Nunca tinha assistido a uma série de TV tão inovadora (o Arquivo X que me desculpe) em toda a minha vida. Vi todo o primeiro ano em tempo recorde, como se nada mais importasse. Agora não suporto mais assistir à série Invasion, que passa depois do Lost. Li na UOL que a série vai passar na Globo. Espero que a dublagem não destrua a estória.

A estória de Lost é recheada de mistério, referências literárias e filosóficas. As maiores influências, entretanto, vêm de dois livros que nem mesmo têm tradução para o português ainda (e como são livros não muito atuais, talvez nunca tenham): Watership Down e The Third Policeman.

***** Não leia adiante se você não quiser estragar a novidade, não vou contar a estória do Lost, mas vou falar de alguns aspectos que vão antecipar assuntos da primeira e segunda temporada *****

Lost é uma série sobre um grupo de sobreviventes de um acidente de avião em uma deserta ilha tropical. A idéia da série foi iniciamente levada para a ABC no começo de 2004 por Jeffrey Lieber. O primeiro script não foi muito legal. Então Lloyd Braun contactou J.J. Abrams, o cara que criou Alias, uma outra série muito interessante e original (a estória de Alias é completamente sem pé na realidade, muito irreal mesmo, mas não se consegue parar de assistir). O roteiro foi reescrito e as filmagens começaram ainda no final de 2004, com os prazos bastante apertados, mas que permitiram bastante margem de manobra para equipe criativa que criou e recriou situações de acordo com o elenco que se queria na série. Lost recebeu o Emmy de série dramática excepcional em setembro de 2005.

A série começou em setembro de 2004, quando eu ainda estava no Brasil, mas de malas prontas para vir para cá. A série inicia com um episódio de uma hora de duração que conta o momento em que o vôo 815 da companhia aérea fictícia Oceanic que fazia o vôo Sydney (Austrália) para Los Angeles cai em uma ilha tropical aparentemente deserta. A série começa com Jack, um médico, levantando-se de paletó no meio de uma floresta tropical e com o desnvolvimento, nota-se que ele foi um dos sobreviventes. O avião se partiu em duas partes. Os primeiros momentos são tensos, mas bastante críveis. Não quero estragar surpresas...

Neste mesmo episódio longo, aparece algo misterioso (tão misterioso que não se sabe se é máquina ou ser vivo), que derruba grandes árvores. Este mistério permanece por grande parte da série (e ainda não está explicado). Mais tarde uma espécie de fumaça preta aparece associada ao fenômeno. E aí vamos fazer o primeiro contra-ponto. No The Third Policeman, um livro que foi somente publicado postumamente porque ninguém quis publicá-lo durante a vida do escritor, Flann O’Brien, um fictício filósofo e cientista irlandês, De Selby, que aparece apenas nas notas de rodapé (chega a tomar oito páginas de rodapé em uma ocasião), fala que a noite é a acumulação de ar negro. Esta fumaça preta tem algo a ver com as teorias de De Selby? Graig Wright, um dos co-autores, um uma entrevista ao Chicago Tribune, disse que quem leu o livro tem uma boa munição para teorizar sobre a série. Não é preciso dizer que depois disso as vendas do livro deram um salto e já está nos 100 mais vendidos da Amazon. O livro também aparece em um dos episódios. Este livro é bem esquisito e fala de coisas como a transferência de átomos entre as bicicletas e as pessoas e sobre uma cidade cheia de homens meio bicicletas e bicicletas meio homem. O protagonista do livro não tem nome e ele inicia sua saga assassinando e roubando um homem à procura de uma caixa-preta, que acredita ter um tesouro suficiente para financiar o estudo definitivo sobre a obra de De Selby. O livro termina onde começou e mesmo as leis da natureza, como gravidade, não são respeitadas. Em Lost as búsolas não apontam para o norte. Também não quero estragar o livro, mas vou utilizar uma frase do próprio O’Brien para vocês saberem o que esperar: “o inferno anda em círculo, sua forma é circular e por natureza é interminável e quase insuportável”.

O outro que merece atenção é o Watership Down, de Richard Adams, que é um livro infantil. O livro é sobre coelhos, mas ao contrário de outros livros infantis, estes coelhos não usam roupas e têm organização social, mitologia e linguagem própria. É um Senhor dos Anéis de coelhos. Fala da estória de um grupo de coelhos que deixa o seu coelheiro (não sei se coelheiro é o nome em português para curral de coelho, mas no inglês é warren) por que acreditam que o coelho chefe é meio autoritário. A moral do livro é bastante interessante para os dias de hoje: as organizações sociais acuadas pelo medo estão mais dispostas a aceitar lideranças que ofereçam proteção mesmo que isto implique em perda de liberdade. Em Lost existe uma luta implicita. Jack, Locke e Sawyer. Locke é democrático, Jack é autoritário e Sawyer é anarquista.

Eu queria escrever um post curtinho, mas vejo que não tem jeito. Vou agora fazer apenas um sumário daqui para frente:

Referencias Filosóficas:

Locke e Russeau são os filósofos do contrato social, os que falaram sobre a relação entre a natureza e a civilização: o microcosmo da série. Temos os personagens John Locke (um dos líderes) e Danielle Russeau (uma exploradora francesa que está na ilha 16 anos antes deste grupo). Tabula Rasa faz parte de uma teoria do filósofo John Locke e é o título do segundo episódio da série.

O protegido de Locke é o jovem Boone Carlyle. Na vida real, Thomas Carlyle foi um ensaista do século XIX que falou sobre a estrutura da liderança na sociedade.

Dharma é o caminho das verdades superiores de acordo como o Hinduísmo, Budismo e Daoísmo. Em breve vocês ouvirão falar da Iniciativa Dharma.


Referências Literárias:

Watership Down e The Third Policemen já foram comentados. Alice no País das Maravilhas (referência ao coelho branco por Locke quando Jack acha que viu o pai na ilha e a famosa frase de Locke: “tudo que acontece nesta ilha acontece por uma razão”). A Bíblia (em algum ponto surgirá o Mr. Eko e com ele mais citações, especialmemte sobre o livro dos Reis e o salmo 23). O Senhor das Moscas (Lord of the Flies) e o Mágico de Oz.


Teorias já derrubadas:

Os sobreviventes estão mortos ou no purgatório – J. J. Abrams desmentiu.

Eles estão presos em um armadilha de tempo – desmentida por Damon Lidelof.

Tudo não passa de uma realidade fictícia acontecendo nas cabeças de um ou mais sobreviventes – desmentida por Damon Lindelof.

Espaçonaves ou alieníginas influenciam os eventos na ilha – desmentida por Damon Lindelof.

A ilha é uma experiência de reality TV – desementida por Carlson Cuse.

A fumaça preta é uma núvem de nanorobôs como no livro Presa (Prey) do Michael Crichton – desmentida por Damon Lindelof

Sábado, Março 18, 2006

A Série sobre a Catedral



Este é um detalhe de uma das pinturas do Hemetério sobre a Catedral de Fortaleza. Sou eu quem está neste detalhe, alguns anos mais moço e bem diferente. Espero que um dia ele publique estes quadros no blog...

Hope of Deliverance


No final de semana fui com a família para um churrasco, à moda brasileira, preparado por um americano. O tal amigo é o Ron, apresentado no post sobre o carnaval de Pflugerville. O churrasco era próximo de Fort Worth, na região de Dallas, na casa do chefe do Ron, uma figura importante no ramo de transportes.

A casa do Sr. X, como vou chamá-lo aqui, é impressionante, bem como o condomínio. Este local é um afluente subúrbio da região. Não se deixe enganar pelo palavra subúrbio, que tem conotação negativa no Brasil. Subúrbio é a designação da área mais afastada da cidade grande (neste caso Dallas). No Brasil, estar longe da cidade é mal, aqui é o contrário. Somente mora na cidade quem não tem outro jeito (exceto por Manhattan, onde morar na cidade é o que há de bom). Mas quem conhece Alphaville, em São Paulo, também entende o que é isto.

Eu tive a oportunidade de conversar bastante com o Sr. X. Uma pessoa notável: muito culto, educado e agradável. Também uma pessoa triste, de tristeza complexa. A tristeza de quem não se espanta com mais com nada, de quem não acredita em mais nada. E isto tudo porque ele é um daqueles que descobriu o sentido da vida: que a vida não tem sentido. Ah! maldito Sartre!

Ron (e Elza) são os arautos da esperança, pessoas que ainda procuram o sentido da vida e, nesta busca, acabam criando o sentido em si. Yuri e Alê também são pessoas desta linha, mas já não tenho a distância necessária para incluí-los sem bias. Uma expressão em inglês que é muito usada, principalmente em círculos religiosos, é o título deste post, Hope of Deliverance, que significa algo como fé em que as coisas irão dar certo. E esta fé não é para todo mundo. Quem perdeu a inocência, perdeu a fé. A religiosidade alija a humanidade e esta, a religiosidade. Este país foi fundado e é mantido pela Hope of Deliverance. O Sr. X não se enquadra. Parece mais europeu neste sentido.

Paulo era judeu, mas cidadão romano, que de tanta formação humanística perdeu a tal fé. Então algo aconteceu (fala-se da queda do cavalo e da famosa pergunta:”por que me persegues?”) que o fez perceber que algo nele havia quebrado (e não era nenhum osso). Ele escreveu uma das obras mais bonitas de todos os tempos, as famosas carta aos coríntios e é tido por muitos como o homem que criou o cristianismo universal, tirando-lhe o caratér de seita judáica, ainda ligada ao templo. Já Nietzsche percorreu o caminho contrário. De protestante convicto, de estudar bíblia no grego, passou a filósofo humanista, que desafiou os dogmas cristãos. Dois grandes homens, cada um a seu modo.

* O figura deste post é um detalhe de pintura do Hemetério

* Todos os comentários depois do post do Contos do Fim do Mundo foram apagados por um problema no índice do blogspot.com. Desculpe qualquer incômodo. Meu advogado já estrá tratando do assunto.

A Confusão da High Five




Desde primeiro de fevereiro que eu estou em um emprego novo. O emprego é em Las Colinas, no condado de Irving, TX. Acontece que desde de junho do ano passado eu me mudei de Rockville, MD, na área metropolitana de Washington, DC, para Plano, na área metropolitana de Dallas, TX. A mudança foi tão grande que eu levei dois dias dirigindo para chegar por aqui. Minha esposa logo conseguiu um emprego que paga até razoavelmente bem e por um tempo estava mantendo a casa enquanto eu procurava projetos de informática (e malhava para me manter um bom escravo sexual e compensá-la pelo esforço). A sorte mudou em janeiro deste ano, quando eu fui selecionado para trabalhar na empresa do sonho de todo desenvolvedor. Quem me conhece sabe onde estou hoje e quem não me conhece pode imaginar sem muito esforço.

A distância entre minha casa e o trabalho é de 25 milhas, ou 40 km. A estrada é maravilhosa e nada se parece com as estradas brasileiras. Plano é ao norte de Dallas, mais próximo do estado de Oklahoma do que de Austin, a capital do estado. O meu caminho inclui dez milhas sul na US 75 em direção a Dallas. Na saída 21, pego a saída para US 635 (também conhecida Lyndon B Johnson Freeway) oeste. Este entrocamento entre as rodovias é chamado pelo nome pomposo de Texas High Five e é uma confusão de vias (como pode-se observar na foto). Depois são mais 15 milhas até o meu destino. A High Five ainda está em construção, mas o principal já está pronto.

Meu horário inicial era de 9 às 6 com uma hora para almoço. Exatamente no horário de rush na ida. Eu levava entre uma hora e uma hora e meia para ir e cerca de 40 minutos para voltar. Um inferno. Para ver a situação da rodovia agora clique aqui e escolha “US 75 @ IH635-SE1”. Para efeito mais dramático veja a situação às 11h30 da manhã de Brasília (exatamente 8h30 aqui). Eu mudei o horário para 7h30 a 4h30, embora nunca consiga sair antes de 5h30 (normalmente só às 6h). Com isto, passo menos tempo preso no trânsito e mais tempo produzindo. Esta mudança faz com que eu passe entre 1 e 1,5 hora no transito todo dia. Por que eu não me mudo? Por que o trabalho da esposa é a apenas 10 minutos de distância e ela é quem leva e traz a Sofia da escolinha de bebês. Depois que você tem filhos sua vida não lhe pertence mais.

* Todos os comentários depois do post do Contos do Fim do Mundo foram apagados por um problema no índice do blogspot.com. Desculpe qualquer incômodo.

Grêmio Unidos de Pflugerville


Pflugerville (lê-se Flúguervil) é uma cidade pequena e próspera, próxima a Austin, TX e a apenas quinze milhas do Rio Colorado. A cidade, bem como a região próxima, deve muito de sua prosperidade a estar próxima do quartel-general da fabricante de computadores Dell e também da proximidade com a Universidade do Texas, campus central, conhecido como Longhorn. A cidade foi fundada oficialmente por William Bohls em 1860, quando este teimou em montar um armazém e uma loja de correios na sua casa. Bohls deu à cidade o nome do pioneiro, um alemão fugido da guerra prussiana, Henry Pfluger, que chegara àquelas bandas em 1849.

Se não fosse pelo Yuri, que era funcionário da Dell e tem uma casa em Pflugerville, nem você nem eu saberiamos da existência da cidade. Yuri foi contratado pela Microsoft, em Las Colinas, no dia primeiro de fevereiro. Acabou se mudando para Irving, TX (próximo de Dallas) e está morando na casa de amigos. Como o ano escolar aqui termina em junho, a mulher e filha ficaram por lá. Todo fim-de-semana o Yuri faz um trajeto de três horas e meia para chegar em Pflugerville e matar a saudade da família. Embora nós tenhamos nascido e morado na mesma cidade no Brasil, só conheci o Yuri (e vice-versa), graças a intervenção de outro amigo em comum, que mora na Califórnia e é funcionário Microsoft há mais tempo. Eu visitei o Yuri e a família pela primeira vez na casa dos tais amigos, quando a sua esposa, Alé, foi visitá-lo. Elza é uma artista carioca apaixonada pela vida, por carnaval e pelo marido, Ron, mas não necessariamente nesta ordem. Nesta visita, concordamos em passar o fim-de-semana do carnaval em Pflugerville. Lembro que carnaval não é feriado em canto algum, exceto no Brasil (Veneza e New Orleans não contam).

Nunca me senti mais no Brasil desde que mudei para cá do que neste fim-de-semana. Até TV por assinatura com a Globo e a Record eles tinham e minha esposa assistiu a um capítulo de Belíssima. O bom é que ela disse que estava curada de novela e não via mais necessidade de assistir. Um outro amigo brasileiro do Yuri, o Daniel, foi o anfitrião. No final das contas, a inventiva Elza preparou uma faixa do Grêmio Unidos de Pflugerville e preparou fantasias para todos. Foi divertido, teve gente que levou bem a sério e se fantasiou mesmo (como a palhaça e o xeque árabe da foto acima). Ano que vem tem mais. Abaixo a nossa família:

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

Contos do Fim do Mundo: A Culpa tem Cor Cinza (Completo)



Patrícia entrou apressada, estava atrasada mais de meia hora. Mas nada saiu como planejado desde a hora em que saiu da cama. E ainda chovia. A chuva que não parava desde a madrugada tornou tudo mais difícil. Era a segunda semana que estava morando sozinha em toda a sua vida. E numa cidade estranha, ainda hostil. Sentia-se uma criança abandonada, engolida pelo barulho intimidante da chuva que caia. A noite não foi tranqüila, mal iniciava a sonhar e logo era interrompida por pesadelos bobos que enganavam a mente adormecida o bastante para fazê-la acordar assustada. A situação era insólita, estúpida. O pavor era real, mesmo sendo infundado. De qualquer modo decidiu não reagir, apenas esperar a chegada da manhã. A luta era entre a razão e o temor infantil e a razão não teve a menor chance neste entrave. Não bastasse a noite mal dormida, levou mais tempo do que o esperado para chegar até a clínica. A cidade estava um caos, até mesmo para o motorista do táxi que a levou. O barulho da cidade batia em seus ouvidos como martelo. A chuva ainda a assustava. O sentimento de desproteção não a abandonava, logo a ela.

Era seu primeiro trabalho externo como repórter na nova editora. Patrícia não esperava encontrar de imediato o mesmo ambiente de trabalho de seu outro emprego, no qual havia trabalhado seis anos. Afinal era agora uma estranha em meio a estranhos. Duas semanas não são suficientes para entrosamento. As pessoas desta cidade eram tão diferentes de seus pares e não faziam o mínimo esforço para que ela se sentisse à vontade.

O tempo passa tão rápido. Seis anos parecem ontem. Há pouco, Patrícia ainda era uma estagiária mal saindo da adolescência, esforçando-se ao máximo para sobressair-se da leva de estudantes de comunicação social que também sonhava com a vaga permanente no jornal. Ousadia e uma certa medida de coincidência lhe asseguraram a vaga. O médico que a acompanhou na infância foi acusado de pedofilia por uma mãe indignada que alegava que seu filho havia sofrido abuso durante os anos em que vinha sendo acompanhado pelo médico. O delegado encarregado do caso, ainda jovem e muito ambicioso, após constatar em exame no IML que a criança poderia ter sofrido abuso, tornou público e a impressa transformou o caso em escândalo nacional, condenando o médico antes de ele ir a julgamento. As mães não deixavam seus filhos sozinhos com os pediatras e houve um aumento na procura de médicas mulheres. O assunto foi discutido em rede nacional.

Era o início da abertura política. O país discutia a possibilidade de eleições diretas. A imprensa experimentava a liberdade em doses tão enormes que a levaram a embriagar-se, tornando-a, por vezes, irresponsável. Quase todos os programas em rede nacional discutiam o caso do médico, os sérios e os nem tanto. E o médico via sua vida privada tornar-se pública. Seus atos da adolescência, completamente típicos dos adolescentes eram então mostrados como manual de comportamento dos psicopatas. Sua casa foi apedrejada noite após noite, seu muro pichado com inscrições impublicáveis até o ponto em que o velho médico viu-se forçado a mudar-se de cidade, indo morar em sua chácara na serra. Patrícia conseguiu convencer o seu supervisor, Marcão, ou formalmente Marcus Vinícius Pereira Domito, a deixá-la entrevistar o médico.

Marcão alimentava interesses além dos profissionais por ela. Conseguia enxergar charme por trás do seu estilo desalinhado de vestir-se, não diferente de muitas adolescentes da época. Nem mesmo o aparelho dental que ela usava o demovia de uma visão particular de Patrícia. Cada um ao seu modo, mas todos os homens que se aproximavam de Patrícia eram alterados, encantados, tocados por sua beleza que a transcendia. Por isso era normal vê-la sempre rodeada de rapazes nos corredores da faculdade. E ela não podia negar que gostava da atenção que recebia.

Na outra ponta da popularidade havia Marcão – sempre alvo de discussões suspirantes das estagiárias, tanto nos corredores do jornal quanto no campus da universidade, onde lecionava no sétimo semestre. Mesmo com a reputação de conquistador barato, sempre arrematava alguma beldade adolescente da faculdade ou do jornal. Algumas delas sabiam em que tipo de relação estavam se metendo, outras achavam-se muito especiais e por isso acreditavam que acabariam controlando a situação. Patrícia simplesmente o ignorou, ou melhor, tinha-o como mais um dos membros do seu séquito.

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da chuva que castigava a sacada do prédio da clínica. O medo infantil havia retornado. Ela apressou o passo até a recepção. O rapaz por trás balcão iniciou, como quem recita a própria a fala – “Em que posso ajudá-la?”
– Eu tenho hora marcada com o Dr. Da Silva.
– Qual o seu nome? – Perguntou o rapaz abrindo o livro de protocolo.
– Patrícia Domito... – disse Patrícia, assustando-se com o ato falho. – Desculpe, Patrícia Lins.
O rapaz pediu para que ela o acompanhasse enquanto dirigia-se ao fim do corredor. No caminho pôde ver uma sala gradeada e trancada onde havia um homem por volta de seus sessenta anos, barba cheia, ainda não completamente branca. O corredor terminava em uma porta na qual ostentava uma placa de metal com a inscrição: “Dr. Hernane Alves da Silva. Diretor”. O rapaz bate à porta e antes de qualquer resposta, abre-a. Dr. Da Silva a recebe com um sorriso.
– Desculpe meu atraso, doutor...
– Não há problema. – Falou com sinceridade. – Ou pelo menos espero que não. Já que passou o horário de visitas, não foi possível manter os pacientes na sala, assim tomamos a liberdade de escolher um paciente para sua entrevista. Isto é problema para a senhora?
– Bem, na verdade seria importante para a integridade da reportagem que eu mesma escolhesse o entrevistado.
– Neste caso, poderíamos marcar novamente para amanhã, no mesmo horário.
– Amanhã seria complicado. O fechamento da semana na revista é amanhã e eu ainda preciso compilar outras informações. – E já considerando a situação, pergunta – O entrevistado é, por algum acaso, o senhor de barba na sala gradeada?
– Este mesmo. O nome dele é ... – e lendo o nome no borrão, disse – João Filomeno Coelho. – Patrícia tomou nota. De alguma maneira ela havia gostado do semblante daquele senhor de barba e talvez não fosse má idéia entrevistá-lo, afinal de contas.
– Ele está lúcido?
– Se estivesse completamente lúcido, não estaria aqui. Mas posso lhe garantir que é possível extrair sentido no que ele fala, foi ele mesmo quem insistiu em ficar quando soube da entrevista.
– Ele está aqui por quê?
– Infelizmente não tenho esta informação no momento. – Disse olhando para o borrão. – Mas eu posso providenciar.
– Pode ser depois da entrevista, assim eu recuperaria algum tempo.
– A senhora quer começar a entrevista agora? – Como a resposta foi afirmativa, Dr. Da Silva pediu pelo interfone que alguém a conduzisse até a sala de visitas.

Patrícia observava as paredes recentemente pintadas enquanto lembrava a primeira vez em que esteve naquela clínica, logo após a denúncia em rede nacional de que os pacientes estavam sendo maltratados e que o ambiente era impróprio para abrigar seres humanos, tamanha falta de higiene observada em todas as dependências. Era-lhe irônico o fato de que uma denúncia na televisão tivesse força superior a qualquer outra providência legal que se aplicasse ao caso. Não importava qual o instrumento, mas Patrícia sentia-se melhor ao ver que a situação havia melhorado para os doentes. Embora o Dr. Da Silva, em sua opinião, fosse um sujeito metódico, pragmático, incapaz de rompantes metafísicos, um médico típico, totalmente contrário à formação liberal que ela tivera, era um sujeito honesto, franco e detentor de um senso de humanidade formidável. Talvez pela suas limitações, ou por seu caráter, era incapaz de ironias, o que é um alívio em um mundo permeado por elas. Certamente ele era o homem certo para a situação. A reportagem já estava praticamente pronta. Se o caso fosse outro, isto é, se não fossem pessoas mentalmente debilitadas envolvidas, bastaria um telefonema para levantar as informações. Pelas paredes novas, a atmosfera respirável, o aspecto daquele senhor de barba por trás das grades, era visível a melhora.

O enfermeiro abriu-lhe o cadeado e a fechadura que isolava a sala onde, naquele momento, estava o homem de barba e em outros momentos servia de sala de visitas para os familiares de outros pacientes. Ele observou Patrícia durante todo o seu percurso até a mesa ao redor da qual ele estava sentado. Ela pediu permissão para sentar-se à mesa com um gesto. Foi respondida também com um gesto. Patrícia pediu para o enfermeiro retirar-se. As normas impediam que ele estivesse ausente, então, resignado ele foi ao ponto extremo da enorme sala, de onde nada poderia ouvir, mas estaria à disposição para alguma eventualidade. Ao sentar-se, colocou o minigravador sobre a mesa e novamente sem falarem, apenas através de gestos, fora pedida e concedida a permissão para a gravação da conversa.
– Eu ouvi dizer que o senhor havia se oferecido para falar comigo. Existe algum motivo especial? – Iniciou Patrícia, sondando a sanidade do interlocutor.
– Existe. E os motivos são dois: um deles é a sua entrevista.
– Qual seria o outro? – A resposta a esta pergunta certamente exporia a sanidade do homem.
– O outro não é seu motivo, logo não interessa no momento. – O tom com que foi falado não revelou agressividade.
– Está certo. – Sorriu quando falou. O homem havia-lhe acendido uma fagulha de curiosidade. Não se fala assim com um repórter quando se quer manter segredo sobre alguma coisa. Mas o medo de uma resposta estapafúrdia que invalidasse o entrevistado era tudo que ela não desejava. – Meu nome é Patrícia Lins e gostaria de lhe fazer algumas perguntas, tudo bem? Primeiro, qual o seu nome?
– Meus pais me batizaram de João. João Filomeno Coelho. Mas sou Caipé. Assim me batizou Uripurá a quem devo tudo, do meu apogeu a minha desgraça. Mas minha desgraça como homem é o meu apogeu e no meu apogeu como homem, meu espírito era lixo. Caipé de Uripurá, este sou eu. – Patrícia tentou entender esta afirmação como algo poético. Pelas circunstâncias, entretanto, era mais provável estar diante de delírios de um louco.
– O senhor sentiu alguma melhora nas condições de viver da clínica? – Foi objetiva, numa tentativa desesperada de ouvir a única resposta que lhe interessava.
– Claro. Somente um tolo não vê. Agora temos nossa dignidade. Uripurá falou que meu aprendizado havia acabado. Agora eu era novamente íntegro e, por isso, poderia ter de volta o esplendor humano. A situação agora vai melhorar cada vez mais enquanto eu estiver aqui. Uripurá abençoou minha casa e todos que nela moram. – A resposta que ela queria estava no meio do delírio e era clara. Fim do serviço.
– Muito obrigada, seu João...
– Você não quer saber o outro motivo de eu estar aqui?
– O senhor não falou que não era meu motivo?
– Quando eu falar será.
– Tudo bem. Qual é?
– Acho que a pergunta certa é quem é.
– Como assim?
– Márcio pediu a Uripurá para lhe dar um recado. Uripurá agora me pede para dar o recado de Márcio para você.
– Quem é Márcio?
– Uripurá diz que não é Marcio. O nome é Marco. – Patrícia foi tomada por um choque. Perdeu visivelmente o equilíbrio.
– O que Marcus quer dizer para mim?
– Que sente sua falta, mas que está bem. Diz que te ama e espera que você possa voltar a ser feliz.
– Pergunte para ele o que aconteceu naquela noite. – Seus olhos encheram de lágrimas.
– Uripurá diz que sabe porque você tem medo de chuva.
– Por quê?
– Homem velho fazia brincadeira com a menininha. Homem velho revirava os olhos quando brincava com menininha. Tava chovendo no dia e menininha tinha nojo de homem velho. Menininha fechava os olhos. Marco diz que homem velho era pai de menininha.
– Seu porco! Seu mentiroso! Dobre a língua quando falar do meu pai! – Disparou enquanto chorava compulsivamente.
– Moça tá certa, Uripurá diz que homem velho não era o pai de menininha. Homem velho era médico de menininha. – Patrícia permaneceu chorando. Quando olhou para o lado viu o enfermeiro se aproximando.
– A senhora está bem? – Perguntou o rapaz.
– Vamos embora – pediu-lhe enquanto tentava se recompor.
O homem de barba iniciou uma gargalhada tão estridente quanto medonha e acrescentou: “Moça está rodeada por Incubus” e acrescentou a isso um gesto lascivo com a língua, tal qual uma cobra.
Quando Patrícia tomou-se novamente por si, já estava na sala do Dr. Da Silva. Ele havia-lhe providenciado um comprimido tranqüilizante e um copo com água. Ela tomou a medicação instintivamente. Dr. Da Silva esperou silenciosamente a sua recuperação, deu-lhe o tempo necessário para que saísse do estado de choque em que se encontrava. Patrícia não precisou o tempo exato que se passou e a medicação trouxe-lhe uma certa paz a qual ela se entregou irrestritamente – a morte deveria ser algo tão sublime quanto aquilo. Adormeceu sentindo-se segura enquanto Dr. Da Silva, silenciosamente, a observava, velando-lhe o sono. Teve então sonhos lindos. Nos sonhos Marcus estava vivo e eles se beijavam...

Patrícia acordou e viu-se numa maca, numa sala que parecia um ambulatório desativado. Olhou o relógio e viu que passava das três da tarde. Estava um pouco atordoada, mas sentia-se revitalizada. Quem a colocou na maca teve o cuidado de tirar-lhe o sapato. Espreguiçou-se sorrindo, lembrando dos sonhos bons. Subitamente veio-lhe o sentido de urgência, o fechamento da revista e junto a isso também voltou-lhe a lembrança do homem asqueroso de barba e das parvoíces pronunciadas. Levantou-se, calçou os sapatos e saiu do ambulatório. Achou o caminho por entre o labirinto de corredores até a sala do Dr. Da Silva. Hesitou por um momento em entrar, estava profundamente embaraçada por toda a situação, pelo seu descontrole, quando sentiu uma presença. Olhou para trás e viu Dr. Da Silva.
– A senhora dormiu bem? – Saudou-a com um sorriso.
– Dr. Da Silva, me desculpe o incômodo, estou tão envergonhada.
– Não há nada do que se envergonhar, estas coisas acontecem. Vamos entrar? – Disse enquanto abria-lhe a porta. Os dois entraram e Dr. Da Silva dirigiu-se a sua mesa e apontou-lhe uma cadeira. Abriu uma gaveta de sua mesa e retirou o minigravador. – A senhora esqueceu isto na sala de visitas. – Ela recebeu o gravador e acenou com a cabeça. – A senhora quer conversar comigo sobre o que aconteceu?
– Quero, mas somente se o senhor parar de me chamar de senhora.
– Então estou pronto para ouvir você.
Patrícia rebobinou a fita no minigravador e reproduziu a entrevista. Dr. Da Silva ouvia compenetrado.
– Que sentido isto faz para você?
– Todo o sentido do mundo. Marcus é meu falecido marido. O médico que ele fala foi meu pediatra e foi acusado de abuso sexual pela mãe de um menino, o caso saiu na impressa durante um bom tempo.
– E que lembrança a senhora, digo, você tem do médico.
– Pelo que eu recordo, nunca chegou a me tocar com outras intenções. Era um senhor, bem velhinho, uma simpatia. Inclusive minha primeira reportagem foi uma entrevista que fiz com ele quando ele havia se mudado de sua casa para a casa de campo. O jornal ficou meio receoso de publicar a reportagem, pois o assunto era polêmico, ele já tinha sido julgado culpado por unanimidade pela opinião pública e ninguém queria humanizá-lo, o que a entrevista acabou por fazer. Logo depois da publicação a mãe da criança retirou as acusações, mas o caso já estava no controle do Ministério Público e a mulher não quis explicar porque mudara de idéia, mas foi categórica ao afirmar que o médico era inocente. O coitado morreu de desgosto poucos meses depois.
– E o seu pai?
– O melhor pai do mundo.
– O que especificamente a incomodou?
– Como o quê? Como ele sabia o nome do meu marido? Como ele sabia da existência do médico?
– Mas você não falou que o médico era inocente?
– Falei. Mas por um tempo, durante o período em que o caso estava nos jornais, eu ficava me questionando se não havia sofrido, de alguma maneira abuso. A histeria de massa, acaba, de alguma maneira nos afetando e eu ficava, às vezes, imaginando que de alguma maneira ele agia com malícia quando pedia um beijinho na bochecha ao fim da consulta e me dava uma bala. Depois eu percebia como estava sendo idiota, pois minha mãe sempre estava comigo.
– Quanto ao nome do seu marido, que ele chama de Marco e você de Marcus, não poderia ter sido coincidência, afinal de contas é um nome bem comum?
– Isso é verdade e agora revendo a fita dá pra ver que ele não revela nada específico sobre o Marcus. Mas o que realmente me impressionou foi ele falar do meu medo da chuva. Hoje eu não tinha conseguido dormir por medo da chuva.
– E nos outros dias? Você tem dormido bem?
– Não durmo bem faz muito tempo.
– Há quanto tempo o seu marido faleceu?
– Vai fazer um ano agora em junho.
– Como ele morreu?
– Acidente de carro. Eu estava com ele, estávamos voltando do litoral.
– Deve ter sido terrível. Você se machucou no acidente?
– Me machuquei muito. O carro virou sucata. Mas eu não lembro nada do que aconteceu dias antes e depois do acidente. Mas o que mais me incomoda é não saber como aconteceu o acidente.
– Não ocorreu perícia para determinar a causa?
– Falha humana.
– Quem estava dirigindo?
– Pelo que tudo indica era ele. Por todas as evidências, concluiu-se que era ele. E este é meu grande problema, saber ao certo o que aconteceu naquela noite. Eu não ando bem desde o acidente e não consigo melhorar o que não pode ser, em nenhuma hipótese, normal. Eu acredito que se eu soubesse ao certo o que aconteceu naquela noite eu poderia voltar a ter uma vida normal.
– Eu lhe indicaria uma terapia. Se você quiser posso lhe indicar um ótimo clínico...
– Terapia demora demais e eu não agüento mais viver assim.
– Eu vou lhe receitar um antidepressivo e assim você vai poder voltar a viver uma vida normal e com o acompanhamento da psicoterapia em pouco tempo você superará estes problemas.
– Eu ouvi falar que o tratamento com hipnose gera resultados rápidos.
– Tão rápidos quanto imprecisos. Hipnose para recuperação de memória é uma coisa perigosa. Estudos sérios têm demonstrado que a hipnose não é muito indicada para este fim, muitas vezes o paciente cria fantasias, cria um passado que não existiu e a mente é criadora tão poderosa, tão rica em detalhes, torna tudo tão verossímil que o paciente passa a acreditar que o que ele fantasiou realmente aconteceu. A hipnose é mais indicada para sugestionar pacientes, fazendo com que um fumante, por exemplo, controle seu impulso de fumar até livrar-se da dependência física.
– Eu gostaria de tentar.
– Posso lhe indicar alguém, mas depois não reclame se descobrir que o seu medo de chuva é fruto de um trauma na vida passada...
– O senhor não acredita em vidas passadas?
– As minhas crenças não importam. É que como médico, como cientista, não vejo fundamentação científica nestas terapias. Existem pessoas sérias trabalhando com isso, pessoas que estão preocupadas com os resultados, que têm sido consideráveis, mas que não afirmam que a experiência é autêntica e preferem imaginar o fenômeno como alguma alegoria mental para a compreensão do inconsciente.
– Que visão materialista das coisas. Quer bem me dizer que o que aquele homem falou para mim não tinha nenhum componente sobrenatural?
– Certamente paranormal, não sobrenatural. Eu requisitei a ficha do homem como havíamos combinado. Ele é o que as pessoas chamam de médium. Veio para a clínica por vontade própria e não sai porque não quer. Ele possui uma disfunção, ou talvez uma capacidade mental de interpretar o pensamento das pessoas, mas como você pôde observar esta capacidade é imprecisa. Criou mais confusão na sua cabeça do que ajudou. Nos tempos de hoje não devíamos mais dar lugar a este tipo de coisas.
– Mas nem em milagres o senhor acredita?
– Se o objetivo é saber se eu acredito em Deus, a resposta é sim. Como pessoa, como Hernane, acredito em Deus e nos milagres. Estes sim são sobrenaturais. Mas esta é uma questão de fé e uma questão pessoal. Para o médico, para o Dr. Da Silva, a existência ou não de Deus é irrelevante e assim a pessoa e o médico podem conviver em paz.
– Me chame de teimosa, me chame do que quiser, mas eu realmente gostaria de tentar o hipnotismo. É muito importante para mim saber o que aconteceu na noite do acidente.
– Tudo bem. Posso lhe indicar um amigo que trabalha com isso.
– Eu gostaria de fazer a hipnose com o senhor.
– Eu não estou mais clinicando, agora tenho um cargo burocrático aqui no hospital e coordeno o curso de mestrado da Universidade Federal.
– O senhor está se saindo muito bem nesta consulta não marcada, antes de chegar aqui eu não tinha muita esperança, queria nem mesmo ter nascido...
– Como eu falei, nem mesmo acredito na eficácia do método.
– Mas sabe como proceder.
– É. Sei. Mas realmente não gostaria de fazer. O que tenho em comum com Freud é ser péssimo hipnotizador. Quando é que você pretende ser submetida...
– Que tal agora?
– Agora não posso. – Disse olhando para o relógio, – vamos marcar para Sexta-feira próxima. Depois das seis.
– Fechado.
– Enquanto isso, tome este comprimido uma vez por dia, antes de dormir, durante seis dias. – Disse enquanto aviava a receita.

Naquele mesmo dia Patrícia terminou a compilação de sua matéria. Tomou a medicação e dormiu tranqüilamente, mesmo com a chuva que persistia. A Quinta-feira foi tranqüila apesar da ansiedade pela chegada da Sexta-feira e do dia estressante na revista, normal em fechamentos de edição. O repórter, além de preparar a matéria, deve requisitar as ilustrações que deseja com antecedência ao departamento gráfico. Em matérias que envolvem algum tipo de especialidade científica como a matéria sobre a clínica é obrigatório a revisão de um profissional da área. A editora age em conformidade com o padrão ISO 9000, o que obriga um conjunto de ações padrões, às vezes cansativas, mas que também trazem seus benefícios como, principalmente, forçar que o time trabalhe de forma profissional, com normas bem estabelecidas, que sempre funcionam, mesmo quando poderiam ser agilizadas por atalhos no processo.

Naquela mesma noite de Quinta-feira, Patrícia aceitou o convite das pessoas de seu núcleo de trabalho para o happy hour. Achou por bem nada beber por conta do medicamento, embora não tenha sido instruída a este respeito. As pessoas afinal de contas não eram bairristas, admitiu, ela sim vinha se comportando de maneira estranha. Enveredou em conversas divertidas, esquisitas, sérias, assuntos de toda sorte. Estava se divertindo. Estava se permitindo, quando subitamente um conjunto de preocupações infundadas, um sentido de urgência a incomodou. Retraiu-se, taciturna. Os outros tentaram levantar-lhe o ânimo, em vão. A felicidade acabou novamente.

Patrícia chegou em casa confusa, não sabendo ao certo se deveria se matar ou tomar a medicação. Esse pensamento a assustou, mesmo sabendo que jamais se mataria, ou pelo menos não naquela noite. Capitulou e percebeu a incoerência dos seus sentimentos. Nada de concreto poderia tê-la levado a este estado de desespero. Nenhum motivo haveria para que ela deixasse de viver, ou melhor, para que não sentisse prazer em viver. Os pensamentos eram confusos e Patrícia evitava considerá-los. Tratou logo de tomar o medicamento. Em pouco tempo as idéias foram clareando e as sandices anuviaram-se. Agora via tudo claramente, mais acuradamente, mas estava com sono, precisava dormir. Tomou um banho quente. O toque da água deu-lhe a noção do seu corpo. Ainda que torpe sentia-se bem mais sensível. Tocava seu corpo como que se redescobrindo. Imaginou que Marcus estava lá junto a ela, tocando-a como ele aprendeu a tocá-la. Tocava os seios, olhos fechados e imaginando a cena como se estivesse assistindo aos dois fazendo amor. Tocou o sexo com a outra mão e engendrou um movimento em ritmo lento. “Faz assim, amor, come tua putinha”, sussurrou para um imaginário Marcus. Aumentou o ritmo, como Marcus fazia quando ela lhe falava obscenidades. Explodiu num clímax delicioso. Torpe e sensível era como estava. A respiração pesada. Passou ainda alguns minutos sob o chuveiro, recompondo-se, sentindo as pernas vacilarem. Os olhos fechados. Estava em paz naquele exato momento. Desligou o chuveiro e colocou o roupão. Dirigiu-se ao quarto, vestiu uma calcinha e uma camiseta e deitou-se, dormindo imediatamente. Sonhou que estava com Marcus na casa de praia, que se beijavam, e quando olhou novamente para Marcus não era mais ele, era um dos seus amigos do trabalho que estava no happy hour naquela noite. Antes que ela dissesse alguma coisa ele a beijou novamente e ela estava gostando. Quando ela olha novamente, o rapaz havia dado lugar ao seu pediatra, o velho sorri e pergunta: “quer uma balinha?”. Ela acorda assustada. Olha o relógio, duas da manhã. Estava com muito sono e dormiu de novo.

O dia de sexta-feira transcorreu sem muitos imprevistos. Nenhuma notícia de última hora teve de ser encaixada. Ao final da tarde a revista já estava completamente editorada no computador, os anúncios em seus devidos lugares. Com a nova impressora importada da Alemanha era possível começar a imprimir a revista até mesmo no sábado, no caso de uma eventualidade. Não era mais necessário fazer a separação de cores, imprimir fotolitos e criar chapas. A separação de cores era automática, rápida. Anos de estudos em matemática e física, que permitem transformar as cores primárias aditivas RGB em cores primárias subtrativas CMYK eram aplicados de modo transparente na nova parafernália tecnológica da editora. A impressão dos exemplares tornou-se tão simples como a impressão doméstica de um documento do computador pessoal.

Às seis horas, Dr. Da Silva recebeu Patrícia em seu escritório. Apresentou-lhe um amigo, Dr. José Padilha, um homem na casa dos cinqüenta anos como maior especialista em hipnose e principalmente como um homem sério. Eram amigos da Universidade Federal. Antes que Patrícia esboçasse alguma reação, Dr. Da Silva afirmou que para uma sessão de hipnose ela estaria mais bem atendida com o Dr. Padilha. Ela cumprimentou o médico e sinceramente não se incomodou com a idéia, ao contrário, sentiu mais segurança. Dr. Da Silva disse então que esperaria o final da sessão fora do escritório. Mas por insistência de Patrícia acabou por ficar.
– Tem alguma pergunta que a senhora gostaria de fazer antes de começarmos?
– Na verdade tenho algumas dúvidas...
– Quais são?
– Eu não acredito que vá conseguir ser hipnotizada...
– Por quê?
– Eu ouvi dizer que pessoas de personalidade forte não conseguem ser hipnotizadas.
– Vamos então derrubar o primeiro mito: hipnose é um estado mental que exige concentração aguçada, um estado no qual a mente foca em um determinado assunto, as pessoas de personalidade forte são as que conseguem melhor concentração e o melhor resultado.
– Eu vou lembrar de tudo que aconteceu durante a hipnose?
– Certamente. Sua mente estará mais aguçada do que nunca.
– Ah! Doutor, a mais importante: será que vou dizer alguma coisa íntima que eu não gostaria de dizer?
– Se você quiser mentir vai conseguir fazer isso com uma destreza maior do que quando não hipnotizada.
– Podemos começar, então.
O médico fechou a luz do consultório. Para evitar a escuridão completa, ligou um abajur que emitia uma luz ínfima. Colocou um pêndulo sobre a mesa e ao contrário do que ela imaginara o deixou imóvel.
“Em poucos minutos vamos iniciar uma das fases do processo. Antes, eu gostaria de explicar o que está para acontecer. Primeiro, você estará consciente toda a sessão, e ouvirá tudo que eu disser. Você sentirá alguma coisa diferente, uma sensação de maior lucidez. Isto é muito bom, pois o mais importante ponto a lembrar é que se você abrir a sua mente para o que eu vou dizer, aceitar as idéias sem questioná-las, deixar acontecer o que acontecer, você estará indo no caminho certo. Apenas ouça o que eu digo e deixe as coisas acontecer sem interferência. Pode ser diferente do que você imagina agora. Não tem problema. Não force nada. Mas se algo acontecer, deixe acontecer...”, pausa.
“Eu quero que você relaxe o corpo na cadeira. Coloque seus pés confortavelmente no chão. Se quiser tirar os sapatos, ótimo. Repouse as mão sobre as coxas, sem pressioná-las”, pausa.
“Você vai observar a esfera do pêndulo sem jamais tirar os olhos dela. Olhe-a fixamente enquanto eu falo. Ouça com atenção as minhas palavras. Evite qualquer outro pensamento. Ignore o resto do mundo. Apenas preste atenção ao que digo e olhe atentamente a esfera. Se seus olhos quiserem fugir da esfera, não se preocupe, simplesmente volte seus olhos novamente para ela. Você pode ver cores emanando da esfera, ela pode parecer crescer ou diminuir, pode parecer mover-se, pode parecer ter uma aura, pode ficar embaçada ou sumir. O que acontecer, deixe acontecer.", os olhos de Patrícia lacrimejavam e boa parte dos efeitos de ótica realmente aconteciam.
“Devo lembrá-la que em qualquer momento seus olhos podem sentir-se cansados a ponto de fecharem. Vá em frente. Você não precisa me dizer. Você pode fechá-los quando quiser", pausa.
"Agora mesmo enquanto você observa a esfera, você nota que seu corpo está relaxando. Quanto mais você se concentra, mais seu corpo relaxa, cada um dos seus músculo está se libertando do stress. Os músculos da barriga também. Seus ombros estão livre do peso. Você está se sentido bem..."
Neste momento Patrícia sente-se flutuando. Entrou no estado hipnótico. Dr. Padilha continuou ainda falando por alguns minutos até notar o transe.
“Você está agora segura, nada pode te ferir”, pausa.
“Você agora vai direcionar suas lembranças para o dia do acidente”. As imagens vieram à mente de Patrícia de forma bastante clara. Ela não estava dormindo, estava consciente, mas relaxada. Jamais imaginara que a hipnose era daquele modo.
“Estou no carro com Marcus. Está chovendo muito. Estamos discutindo ... não lembro o que é, mas é alguma bobagem. Agora estou lembrando, eu ficava dizendo que o Spock, da série Jornada das Estrelas, era mais jovem que o capitão Kirk e ele dizia o contrário. Nenhum dos dois sabia quem era realmente mais jovem, mais continuávamos discutindo. Está chovendo muito. Marcus leva muito a sério as discussões e eu queria irritá-lo só de pirraça. Eu estava usando um blusão ... e mostrei minhas pernas, como que casualmente para ele parar de ser tão sério...”. Patrícia na verdade havia lembrado que levantara a saia e deixara à mostra a calcinha. Marcus parou de falar e em novo tom perguntou: “você tá com aquela a calcinha de rendinha?”. Patrícia lembrou como gostava de provocá-lo, irritá-lo ao extremo para depois fazê-lo se derreter. Marcus era passional e parecia não perceber o jogo que ela fazia, ou então era um excelente jogador. “Eu então cobri novamente minhas pernas e ele pediu para ver de novo”, continuou a falar em voz alta. “Eu então perguntei: quem é mais jovem? Ele respondeu que era o Spock. Eu levantei de novo a saia e mostrei as pernas. NÃO! Umas luzes no sentido contrário, acho que é o caminhão, não vai dar tempo de desviar”, Patrícia começou a chorar neste instante.
“Nada pode te machucar agora”, tranqüilizou o médico.
“O carro bateu, capotou várias vezes, eu bati a cabeça, não vi mais nada”.
“Eu vou contar até três e no três você vai despertar e sentir-se muito bem. Um, dois, três”.

Três meses se passaram. Patrícia continuava fazendo terapia como Dr. Da Silva havia recomendado inicialmente. Pela terapia, acreditou ter descoberto que se sentia culpada pela morte do marido e por isso não havia conseguido superar este episódio de sua vida. Como Dr. Da Silva advertiu, Patrícia não podia afirmar ao certo se o que lembrou na hipnose realmente aconteceu, já que a cena descrita ocorria com certa regularidade enquanto viveu com Marcus. O fato confirmado por sua mãe de que não choveu no dia do acidente, também a intrigava. Mas era indubitável que se sentia responsável pela morte do marido e quando passou a tratar este problema, em terapia convencional, sentiu-se melhor e ensaiava uma vida normal. De qualquer modo, Patrícia sentia-se grata ao homem de barba.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Escolhas


Ainda faltava uma hora para o grande encontro e a imagem não lhe saia da cabeça, sentado na calçada daquele café, naquele dia cinza. A imagem, uma lembrança que demorou anos até que descobrisse era de algo que nunca aconteceu. Era o dorso nu de uma mulher que nunca conhecera, mas que na lembrança lhe era tão familiar quanto ele próprio. Tinha-a desde a adolescência quando podia imaginar um dorso nu feminino com concupiscência, mas aquela imagem lhe era pura, o dorso da mulher que amava, o corpo que era com o dele uma só carne e formavam juntos um só espírito. Desde a adolescência tinha aquela lembrança, e era o que entendia por felicidade. Aquele momento era de felicidade, embora também de expectativa, só uma lembrança era apropriada – a lembrança da felicidade. Será que ela virá?

A sua vida retomara o fluxo normal. Pulara dos vinte e um anos para os trinta e oito. Daquele buraco negro de dezessete anos, apenas Juliana pode fazer parte de sua nova vida. O tempo não foi perdido por causa dela. Todo o sofrimento que passaram juntos os tinha aproximado e Juliana com certeza o apoiará. Sua filha há de entender. O sorriso lhe vem aos lábios quando lembra que ela lhe trazia o travesseiro quando ele deitava no chão para ver televisão e muito delicadamente levantava sua cabeça e encaixava a peça sem nada dizer. Naquele momento é como se ela dissesse que ele era um bom pai e que ela o amava. Por ela, os dezessete anos não foram em vão.

Luciano lembra como se fosse hoje o dia que retornou ao Brasil. Até seu pai estava no aeroporto. Passara seis meses fotografando os países da América do Sul e seis meses fotografando os países europeus tendo como motor uma bicicleta e como hotel uma barraca de camping. Seu pai não gostou nenhum pouco quando ele surgiu com esta idéia de desocupado e não fossem os patrocinadores não teria o dinheiro para a aventura. A idéia pode parecer comum nos dias de hoje, mas nos idos dos anos 70 era absurda. Largar a faculdade de engenharia por um ano era uma idéia que não combinava com a cabeça de seu pai. Não fossem a fabricante de bicicletas, a revista Cruzeiro e o governo da Bélgica, Luciano não teria dinheiro para a empreita. Mas seu pai estava lá no aeroporto, orgulhoso. Junto a sua família estava Carmem. E naquele exato momento ela estava maravilhosa, como convém a uma armadilha.

O garçom lhe traz o pedido. Luciano adora aquela torta de maçã e a perfeição daquele café. Qualquer dia que escolhesse, o café e a torta teriam o mesmo gosto. E provar aquela delícia deveria ser declarado pecado por todas as religiões. Nada tão sublime pode ficar impune de culpa. Agora ele lembra a primeira vez que trouxe Marília para conhecer seu pequeno segredo, para torná-la cúmplice daquele pecado. A mudança em seu rosto quando provou da sua torta preferida. Pena que ela não goste de café. A hora passou, seguiu-se outra hora, outra, outra, até que o Café fechou. Bobagem dele acreditar que aquela felicidade poderia ser recuperada, depois que ele escolheu a vida que escolheu.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

O ideal ascético




A ciência é uma oficina que exige muito dos que nela se aventuram. A exigência é tanta que suga a humanidade, transmigra o indivíduo em uma espécie de zumbi, uma criatura irreconhecível para os não iniciados. O que difere o homem da ciência em particular e o homem do conhecimento em geral dos seus pares humanos é o ideal ascético. Ele é tão necessário para o homem do conhecimento quanto o é para o homem religioso. É preciso alienar-se dos pormenores da vida comum tanto quanto o religioso precisa alienar-se dos prazeres do mundo terreno. Não pense o menos religioso ou o menos afeito ao conhecimento que esta alienação é algo pesaroso, forçado. Não, o ideal ascético é um modo de vida, ou modo de não vida para quem tem valores mais padronizados, mas o ascético não se sentiria bem levando outro tipo de vida, não pode se imaginar como pai ou mãe de família presente, do tipo que tem bom relacionamento com os filhos, que é amado pelos vizinhos e amigos. O ascético, entretanto, após sua fase de produção, tende a tornar-se um bom pai, mãe, amigo ou amiga, melhor, por vezes, do que os que cultuaram a humanidade durante toda a vida.

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Contos do Fim do Mundo: A Mulher do Hotel (completo)






“15 Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. Por acaso colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos cardos? 17 Do mesmo modo, toda árvore boa dá bom fruto, mas a arvore má dá frutos ruins. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos. 19 Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 20 É pelos seus frutos, portanto que os reconhecereis.” – Mateus 7.


Quando Paulo encontra um espaço livre e finalmente estaciona o carro, o seu relógio marca cinco horas. A técnica de adiantar a hora, em cinco minutos, parece sempre funcionar – por mais que saiba que o relógio está adiantado, os seus mecanismos de alerta o incomodam como se a hora do relógio fosse a hora oficial, não são espertos o suficiente para efetuar uma simples operação matemática, uma estúpida subtração – e assim, esse procedimento tão simples tem lhe ajudado a mudar toda a filosofia de vida – a de estar sempre atrasado cinco minutos.

Antes de entrar no hotel, olha para o mar a dez metros dali, e imagina como seria o pôr-do-sol daqui a poucos minutos. E, nesse exato momento, Paulo acha estranho o pensamento. Não o pensamento em si, mas o fato de, morando perto do mar há anos, nunca antes haver se preocupado em ver o pôr-do-sol ou qualquer outra dessas coisas que tanto falam os admiradores, entusiastas e os fanáticos. Já vira, mas não porque quisera vê-lo – era apenas um homem no local e hora em que algo acontecia. De qualquer modo, hoje não é o dia, tem um compromisso. Além do mais, a visão que tinha era apenas do norte. O espetáculo está no sol já morno e passível de observação direta, mergulhando lentamente na linha que divide o mar e o céu, segundo ouvira. O ângulo não estava propício de qualquer maneira – o sol não se põe a norte.

Na época em que éramos colônia de Portugal, a escola arquitetônica Européia era majoritariamente barroca. Era isso que Paulo esperava encontrar na arquitetura do hotel Colonial. Mas não, em lugar disso, o que ele vê é uma arquitetura criativa que reproduz o rústico com conforto. Esse é o hotel Colonial – quartos como choupanas e uma grande área livre no centro, onde fica a piscina, rodeada por cadeiras de madeira e hóspedes que aproveitam os últimos raios de sol daquele dia – contrastando-se com os inúmeros hotéis que povoam aquela mesma costa, grandes monólitos que crescem para cima e nunca para os lados, na região de metro quadrado mais caro da cidade de Fortaleza.

A moça sorridente da recepção aponta para a sala de reunião, respondendo a Paulo. Faltam três minutos para às cinco, de acordo com o relógio do hotel, com certeza a hora oficial. Ele desce um lance de escadas, anda pelo corredor que passa ao largo de alguns dos quartos e desemboca na tal sala. Bate à porta e anuncia seu nome. Uma voz feminina o convida a entrar. Ele abre a porta e cumprimenta a senhora de pouco mais de quarenta anos que o convida a sentar-se na ante-sala. Ela tem cabelos loiros que devem ser muito bem pintados, pois parecem naturais, mas não combinam com a sua tés morena. O seu vestir e o perfume apuradíssimo denunciam a sua vaidade e bom gosto. Também falam muito de sua boa condição financeira – uma mulher com aquela presença não se faz com pouco dinheiro – horas de bons cabeleireiros, pedicuros, consultores de belezas e afins – com certeza aquela visão final que agrada Paulo não se é construída ao acaso, ele já viu muitas mulheres maravilhosas que murcharam quando o manto de proteção da juventude foi-se embora. Ela entra na sala principal de onde Paulo não tem fresta alguma de visão e o pede para esperar enquanto ela se prepara.

O tempo passa lentamente. Os minutos levam horas. E aquela espera soa insólita. Por que ela não o recebe logo? Não se ouve vozes. Ela não está falando com ninguém. Ela não tem porque trocar de roupa. Ele então imagina o que deve estar sendo preparado, mas não consegue chegar a uma conclusão, imagina coisas absurdas, caricatas, com o intuito de se entreter e ajudar a passar o tempo e não de encontrar sentido. Ela fôra muito bem recomendada por alguém em quem ele confia – o Macedo – e essa era a razão da submissão àquela situação.

Macedo tem uma filha que sofre de síndrome de down. Essa diferença genética da filha afetou de sobremaneira as crenças, ou mais precisamente, a incredulidade do pobre homem. “Não há ninguém ou nada neste mundo ou em quantos outros houverem ou venham a existir que eu ame mais do que aquela criança”, para usar as suas mesmas palavras. E na sua busca, não pela cura, mas por uma forma de comunicação com a sua filha Clara, ele experimenta de tudo.

Macedo foi hippie na época de faculdade, quando ainda tinha cabelo, nos anos iniciais da década de setenta. E quem diria que aquele cabeludo iria se tornar calvo ainda aos trinta anos. Da filosofia hippie, se é que existiu tal coisa, gostava do amor livre e das drogas. Experimentou todas não injetáveis – lícitas, ilícitas, fracas, fortes – mas não se tornou viciado em nenhuma delas, nem o álcool deixou saudades. Hoje bebe muito raramente. Entre elas, experimentou o ácido, os Lindos Sonhos Dourados, ou Lucy no Céu de Diamantes, como diziam Os Beatles em Lucy in the Sky with Diamonds, todos anagramas para o LSD, ou ácido lisérgico, um alucinógeno que causou certa curiosidade na época, por parte dos adoradores da natureza, dos espiritualistas, dos gnósticos. O ácido entra na corrente sangüínea através da pele, não é necessário cheirá-lo, aplicá-lo na veia ou mesmo bebê-lo. Essa facilidade de profilaxia permitia formas criativas e inusitadas de comercialização. Macedo conseguia a droga no jornaleiro, comprando figuras de álbum juvenil. Naquela figura colorida, ao se tocar em uma determinada região, como o olho do super-herói da ilustração, o ácido penetrava na corrente sangüínea e em poucos segundos estava nos lóbulos temporais, causando uma tremenda confusão mental.

Visões, estado alterado da consciência e fala obsessiva – todos esses efeitos foram sentidos por Macedo. Muitos afirmam ter uma experiência espiritual, outros arrancam os olhos, ferem-se ou matam-se durante a experiência. Mas o pior de tudo é que sem menos esperar, alguns poucos, que já experimentaram a droga e não a usam há décadas, apresentam os sintomas de como se tivessem feito-lhe uso. Isso pode acontecer ao se estar dirigindo de volta para casa com a família. O fato é que Macedo suspeita que a filha é diferente graças ao seu envolvimento com as drogas, mesmo ele tendo parado com o hábito anos antes de concebê-la. A ciência não confirma a sua suspeita, nem desmente. E isso o afeta. Mais do que se fosse, comprovadamente, o responsável. Queria a certeza e gostaria de poder encontrar um culpado. Na falta de um culpado de carne e osso, gostaria de uma razão, mesmo que fosse ela absurda aos olhos da ciência moderna a quem não deve nenhum respeito.

A necessidade de respostas, levou Macedo a experimentar um sem número de religiões e um outro tanto de tratamentos tão esquisitos quanto inócuos. Ao passar do tempo, ele desenvolveu um senso crítico mais racional e passou a fugir dos embusteiros e sentir-lhes o cheiro a distância, pelo menos gabava-se disso. Uma indicação de Macedo valia o esforço de conferir. O profissional indicado poderia ter todos os defeitos morais, intelectuais e éticos, mas era coisa genuína. Paulo está pacientemente esperando ser atendido por esta mulher, que ele esquecera o nome, porque Macedo a tinha indicado. E ele a indicara como profissional científica – uma psicóloga e parapsicóloga que não está no patamar dos pajés, curandeiros e sacerdotes – uma pessoa das ciências, do jeito que Paulo esperava que fosse. Os pensamentos de Paulo são interrompidos pelo chamado da mulher. Já não era sem tempo.

Ao se levantar Paulo sente suas pernas pesadas. Aquela sensação ele conhece bem. Não é dormência pela má circulação de sangue por ter estado sentado. É o estado de alerta de perigo invisível. Paulo sente isso em alguns locais onde pessoas depois lhe contam que é mal-assombrado. Perto de pessoas que não são muito agradáveis, ou muito violentas, mesmo antes de conhecê-las ou ouvi-las. Sabe que existem coisas que não pode descrever, mas pode sentir. Se mais pessoas tivessem estes sentidos, haveriam termos na língua para descrevê-los e uma só palavra seria suficiente e não um parágrafo inteiro. O perigo existia e, naquele momento, ele já estava arrependido de ter vindo. Mas a mulher o chamara novamente. Iria ao menos ouvi-la, desculpar-se e ir embora.

Aquela mulher elegante agora usava um vestido enorme de sacerdotisa do candomblé, rodeada de pedras semipreciosas, cordões e bijuterias de toda a sorte. Paulo entendeu que viera parar no lugar errado, mas não quis ser indelicado. Sabia, entretanto, que por mais que fizesse daquele momento em diante, entrara em uma região perigosa, imprecisa. Sentou-se à mesa coberta por uma colcha bordada e com detalhes feitos, cuidadosamente, à mão. No seu centro havia uma peneira de palhas de palmeira já maduras. Na peneira, repousava em jogo de búzios.

– Qual o seu nome mesmo, meu filho? – Pergunta a mulher.
– Paulo – responde-a e acrescenta – Qual o seu nome, novamente?
– Elisa. O que te trouxe aqui?
– Você lembra do Macedo, que trouxe a filha Clara, para uma consulta com você nesta semana?
– Lembro, sim. Como ele está?
– Está bem. Ele falou muito bem de você, disse que era psicóloga e parapsicóloga. Eu realmente não esperava uma mãe de santo parametrizada. – Fala com um certo sorriso irônico, mas mantém-se cordial.
– Espere um momento – Elisa sorri e junta todos os búzios com as duas mão, e antes que Paulo fale alguma coisa, os balança, fecha os olhos, balbucia algo ininteligível e atira todo o conteúdo de volta para a peneira. Os búzios se acomodam em forma de U com todas as aberturas voltadas para cima. – Você tem uma grande mediunidade, criou um campo tão forte que todos os búzios se abriram para você, mas precisa desenvolvê-la.
– Senão?
– Caso contrário sua vida vai ficar muito complicada. Não é verdade que tudo que você vai fazer sempre aparece uma complicação?
– Sim. Mas assim é a vida. Quando faço um estudo minucioso do que pode ter dado errado chego a conclusão que deixei de observar algum pormenor que acabou estourando mais a frente. – Paulo responde ainda meio em dúvida, pois há um pouco de razão nisso tudo, mas a confusão é uma das armas da ignorância e desinformação e esta era uma guerra, suas pernas não mentem. – Eu vim aqui por causa de alguns sonhos que venho tendo.
– Shhh!!! Vou ouvi-los daqui a pouco. – Diz isso enquanto repete todo o ritual, e joga novamente os búzios na peneira. – Aqui diz que um momento muito atribulado está querendo se formar na sua vida. Saia daí!!!. – Disse apontando para o lado de Paulo. E como resposta a um olhar atônito, complementa. – Existe um negrinho que o belisca de tempos em tempos. Você não sente um beliscão, vê alguns vultos?
– Sinto, mas com certeza é alguma pontada de um órgão interno. E quanto a ver vultos todos nós vemos, principalmente quando nos viramos rapidamente e a retina nos prega uma peça.
– Puxa, como você é incrédulo! Você sabia que foi um Português na outra encarnação. – Ao ouvir esta última frase Paulo é tomado por um choque. Estas palavras fazem todo o sentido do mundo. Isso o assusta, mas deve manter a serenidade.
– E você é muito crédula, pelo seu lado. Mas que estória é essa de eu ser Português? – Paulo perguntou, meio ríspido, com autoridade.
– Conte-me o seu sonho, mais tarde voltaremos a discutir tudo isso novamente. – Diz Elisa. Neste momento, Paulo arrepende-se de ter mencionado o fato. Se não o tivesse feito era a hora certa de ir embora. Mas rende-se. – “Era uma cidade de praia e era noite. Havia uma atmosfera carregada onde eu estava, eu podia senti-la como quem sente o vento da noite e a maresia. Eu estava em frente a uma casa bem simples, pintada de verde, com a pintura quebrada. Entro nesta casa e vejo na sala de visitas um sofá de madeira também em ruínas com o seu centro lascado. A forma da casa é a de um corredor, só que da porta de entrada vê-se mais largura que comprimento, ou seja, a casa é atravessada e não tem muita profundidade. Ao lado esquerdo e acima do sofá existe uma prateleira de madeira bem pequena, sobre a qual repousa um prato com comida. Eu entro na casa e como do prato. Ao terminar vejo que o fundo do prato é um espelho. Eu então sinto que fiz algo muito errado e que as pessoas dariam conta. Na manhã seguinte, o solo acusa chuva recente. Estou com a minha namorada e uma amiga comum. Peço para minha namorada trazer-me algo. Neste tempo, embora não tenha visto as imagens no sonho, seduzi a nossa amiga e mantive relações sexuais com ela. O sonho então dá um pulo e me vejo andando com uma outra amiga e um conhecido em uma estrada limitada por cercas de madeira, muito bem cuidadas, dos dois lados. Este conhecido segura um aparelho de som portátil que tem duas caixas de som pretas. Converso com a minha amiga enquanto o aparelho começa a pegar fogo. Ela se vira para o lado e diz: “Eles levaram três anos para fazer este aparelho, não pode ser destruído”. “Isso se faz em poucos minutos”, pensei. Ela correu para o aparelho que o rapaz soltara e acaba morrendo no acidente. Eu e este conhecido não comentamos, mas sabíamos que ela morrera para salvar aparelho. Ao final da estrada chegamos a um tipo de grêmio de cidade do interior. Entramos e conhecemos algumas pessoas. Conversei com um homem que falava castelhano, não poderia precisar, mas era quase certo que ele não era latino-americano. Ele então convidou-me a sentar no bar e tomar uma cerveja. Não havia cadeira para mim, ele então foi à piscina e pegou uma cadeira de madeira branca. Havia uma criança sentada nesta cadeira e ele levantou a cadeira mesmo assim, só com uma mão, demonstrando grande força física. A criança pulou e a cadeira foi trazida ao bar. “Por que você não teve medo?”, perguntou-me o forasteiro, referindo-se ao incidente com a minha amiga. “Porque sou protegido por Deus”, respondi e me surpreendi e lembro de ter pensado: “Mesmo Deus tem seus preferidos”. “Por que você se acha protegido por Deus?”, continuou, como se lesse meus pensamentos. “Talvez não por algo que eu tenha feito, mas provavelmente por algo que eu vá fazer”, novamente me surpreendi com a resposta. “Você sabe o que matou a sua amiga, não?”, perguntou ele. “Estava relacionado àquela presença, ela atraía”, novamente outra surpresa na minha resposta. Ele disse então que não me entendera. Falei em portuñol. Ele continuou sem entender. Falei-lhe em inglês e ele pareceu entender. Foi então que me disse: “Você tem olhos fundos como o de um Português”.” – Elisa anotava enquanto Paulo descrevia o seu sonho. Mudava sua fisionomia a medida que algumas partes eram reveladas.
– Este seu sonho tem caráter espiritual. Como você sabe eu também sou psicóloga e é muito raro um sonho ser ao mesmo tempo extenso e ter uma linha única de pensamento.
– O que é o sonho para a psicóloga Elisa? – Pergunta Paulo com real interesse.
– Os sonhos, em geral, fazem parte do processo de organização da memória. Se você observar bem, quando passamos uma noite em claro temos dificuldade de organizar a cronologia dos eventos. Coisas que aconteceram há horas parecem ter acontecido há minutos e vice-versa. Somente após o sono, e os sonhos, podemos fechar a contabilidade do dia. – Elisa fala em tom professoral. – Os sonhos também trazem coisas do inconsciente à tona, isto é, para o consciente. Eles têm sentido simbólico, mas não apresentam, em geral enredo simbólico. E o seu sonho apresenta enredo simbólico, conteúdo simbólico e significado simbólico. – Responda-me só uma pergunta: este seu amigo castelhano usa alguma coisa na cabeça?
– Não nesse sonho. – Novamente a mulher tocara em outro ponto delicado. Paulo tem uma teoria já formada sobre os seus sonhos e experiências, e principalmente uma idéia sobre quem seja o tal castelhano que é figura recorrente. Procura alguém para ratificar suas crenças. Mas ele não quer que essa mulher traga nenhuma resposta. O terreno é perigoso, ela é o inimigo. Na França de Vichy, a arma era a desinformação e a desinformação era recheada de fatos verdadeiros costurados em sofismas. Esta mulher acha que sabe verdades, mas Paulo sabe que só ouvirá mentiras verossímeis: distorções da verdade.
– Acho que você não precisa que eu interprete o seu sonho, você sabe exatamente o que ele significa. Você tem um problema muito mais sério. Você tem algum inimigo? Alguém metido com magia negra?
– Na verdade tenho. Uma senhora que tem uma fábrica de velas de umbanda certa vez me comprou um carro e pagou com dois cheques. O primeiro compensou. O segundo retornou porque tinha sido sustado. Liguei para saber o que tinha acontecido e ela disse que o carro sofrera um acidente e tinha virado sucata e estava dividindo o prejuízo comigo. Ganhei na justiça o valor devido e dizem que ela me jogou uma maldição. Não levei muito a sério, mesmo quando um carro que eu tinha capotou, com apenas um mês de uso, em uma reta.
– Eu sei que você tem preconceito quanto a minha crença. Eu até respeito isso. Mas é melhor você se precaver. Eu posso fazer um trabalho para amarrar o mal que tenta atacá-lo. Se você trabalha com o Macedo, você trabalho no Estado. Pode pedir referências minhas ao Governador. Ou, se você quiser ao Secretário de Estado. Meus clientes são pessoas instruídas. Isto não é magia negra. Meu trabalho é somente com espíritos superiores. E não se preocupe que eu não vou lhe cobrar nada
– Eu não posso me livrar do mal por mim mesmo? Por orações? Sem a necessidade de trabalhos?
– Não. Este tipo de trabalho só pode ser cortado com outro trabalho.
– Mas a Bíblia não tem uma passagem que fala que qualquer pessoa pode expulsar demônios.
– Claro, mas a pessoa para fazer este tipo de coisa deve estar com a vida bem equilibrada, em comunhão com Deus. Senão não terá autoridade sobre os espíritos. Você acha que está preparado? Na Bíblia também há uma passagem que diz que quando um espírito expulso volta ele traz mais sete com ele.
– Não, eu não estou limpo. Mas com certeza você também não está. – Paulo fala com desprezo e rispidez. Agora é a oportunidade de ir embora. – Obrigado pela consulta. Quanto eu lhe devo?
– Não me deve nada. É uma cortesia para os médiums. Geralmente eu cobro de acordo com a capacidade de pagamento da pessoa. Mas para você não cobrarei nada. Tenho certeza que ainda iremos nos encontrar.
– Não conte com isso, Elisa, mas saiba que não é nada pessoal. – Paulo volta a falar amistosamente. – Só mais uma pergunta, se não for incômodo: como você sabe que um espírito é de luz?
– Eu tenho meus guias que só têm feito coisas boas para mim e para quem os requisita ajuda através de mim. Pelos seus atos, sei das suas intenções.
– Mas você mata galinhas ou outros animais neste rituais ?
– Às vezes, sim. Os hebreus também sacrificavam seus animais para os deuses.
– Os hebreus não tinham deuses, insistiam na idéia do Deus único.
– Que seja...

Paulo se despede de Elisa e sai mais confuso do que quando entrou. Mas uma coisa era certa: não era aquilo o que ele esperava daquela reunião. Ele sabe que não fez a coisa certa, mesmo que tenha sido enganado. Foi enganado sim, mas entrou no jogo daquela mulher, ou quem quer que seja que ela estivesse representando. Ele vai até o carro e vê que o pneu dianteiro está seco, quase completamente seco. Decide entrar e dirigir devagar até um borracheiro, evitando assim a sujeira da troca de pneu. Já é noite. Faz a volta e é informado por um passante de que existe um borracheiro a duas quadras de lá. Dirige com muito cuidado até ver, finalmente, o borracheiro. O rapaz que tira pneus levou cerca de trinta minutos para retirar o seu. “Nunca vi pneu mais duro, doutor”, diz o rapaz quando finalmente consegue. Após o reparo e troca de pneu, Paulo volta a pista lentamente, quando inadvertidamente cai com o mesmo pneu dianteiro em um bueiro aberto. Os rapazes da borracharia o ajudam a tirar o carro do buraco. Paulo então nota que apenas as marchas para frente estão funcionando: a primeira, terceira e quinta. Segunda, quarta e ré não funcionam. Com alguma dificuldade consegue chegar em casa. Na manhã seguinte vai ao mecânico. O diagnóstico é um só, não importa o mecânico consultado, a caixa de marcha está irremediavelmente danificada. Com o prejuízo é possível comprar uma moto usada. Paulo então sabe o que aconteceu e sabe que embora o plano seja para que ele volte, ele jamais voltará a ver aquela mulher na vida.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Psicologia Freudiana Prática (embora barata)


O Gênesis

No início era a Mãe.
A Mãe nutria. A Mãe protegia. A Mãe sonhava os sonhos de um lugar que não existia. E às vezes a Mãe cantava cantigas que ecoavam e expandiam aquele espaço mínimo onde Bebê vivia e Bebê flutuava no mar da Mãe onde Bebê estava completamente entregue e protegido. A Mãe amava Bebê e Bebê sabia. A Mãe e Bebê eram um.

Depois veio a voz do Pai.
E a voz do Pai dizia o nome do Bebê e Bebê sabia que a Mãe amava o Pai e o Bebê. Bebê temia que o Pai não permitisse que Mãe e Bebê fossem um só. Bebê não vê os sonhos do Pai. O Pai não alimenta Bebê. O Pai canta para Bebê, mas Bebê entrega-se ao conforto da Mãe. Somente quando Mãe canta, Bebê sente que o mar da Mãe não tem fim e repousa entregue e protegido.

E Bebê vai a deriva.
O mar da Mãe se esvazia. Bebê sente angústia. Bebê é arrancado da Mãe, mas permanece preso a ela. Bebê chora. Doem os olhos de Bebê. Bebê quer voltar ao mar da Mãe. Bebê é separado da Mãe e bebê sente fome e frio. Mãe, por favor, nutre Bebê. Bebê e Mãe são um.


O Paraíso

E Mãe nutre Bebê.
Bebê dorme. Bebê acorda. Bebê chora e Mamãe vem. Bebê nutre-se de Mãe. Bebê arrota. Bebê suja a fralda. Mamãe enxuga Bebê. Bebê sorri. Bebê ama Mãe. Bebê e Mãe são um só. Mãe canta cantiga para Bebê e Bebê sente-se protegido e entrega-se ao canto da Mãe.

O Inimigo

Pai não quer que Bebê e Mãe sejam um. Pai também quer Mãe. Pai dorme com Mãe e Bebê dorme sozinho. Bebê acorda no meio da noite e não vê Mãe. Bebê chora. Pai não pode descobrir que Bebê ama Mãe. Pai não quer que Mãe e Bebê sejam um.

Pai protege Mãe e protege Bebê. Bebê teme Pai, mas precisa de Pai. Bebê teme Pai e ama Pai. Bebê não quer que Pai saiba que Bebê ama Mãe. Papai, por favor, não separa Bebê de Mãe.


O Id

Bebê quer.
Bebê quer água. Bebê bebe. Bebê quer comer. Bebê come. Bebê quer, Bebê tem. Bebê bate no gato. Mãe briga com Bebê. Bebê ri. Bebê não sente culpa.

O Ego

Bebê não é mais Bebê. Também, Mãe é um, Bebê é outro. Mãe e Bebê não são mais um. Criança não suja mais a fralda. Criança chama Mãe quando quer sujar fralda e Mãe ajuda Criança. Criança gosta de pegar no pipi. Mãe diz que é feio. Pai briga com criança.

Criança tem irmãozinho. Criança tem priminho. Priminho e Irmãozinho brincam com brinquedo de criança. Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Mãe e Pai não deixam. Criança quer fazer. Criança sabe que não pode.

O Superego

Criança não pode pegar no pipi, não pode dizer nome feio, não pode chutar o gato. Criança quer fazer o que tem vontade, mas lembra que Pai e Mãe brigam e não faz.

Criança sonha com rio. Criança faz xixi na cama. Criança sonha batendo no gato. No sonho Criança pode fazer qualquer coisa. Bebê tem pesadelos. Bebê tem medo.

Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Criança sente remorso quando bate em Priminho e Irmãozinho. Pai e Mãe não precisam brigar mais com Criança. Criança sabe que não pode fazer coisa feia. Criança sente vergonha sozinho quando pega no pipi.

A Neurose

Criança sabe o que é certo e o que é errado. Além de Pai e Mãe, criança conhece Pai do Céu. Pai do Céu é um e é três: Pai, Filho e Espírito Santo. Mesmo se Pai e Mãe não vissem o que Criança faz de errado, Pai do Céu veria. Pai do Céu castiga. Pai do Céu castiga na terra e castiga no céu. Pai do Céu ama criança. Criança faz errado, pede perdão e Pai do Céu perdoa. Criança alcança a graça de Pai do Céu. Criança sonha com coisa proibida, mas Pai, Mãe e Pai do Céu não podem brigar por isso.

Criança sente remorso. Criança é mau. Criança quer ser boa, mas Criança acaba fazendo coisa errada. Criança sente culpa. Criança tem remorso. Criança precisa botar pra fora o que incomoda Criança. Criança quer, mas Criança não pode.

O Fim da Inocência

Criança não é mais criança. Adolescente é agora o que era Criança. Adolescente vê que Pai também não sabe tudo. Adolescente sabe que Pai e Mãe mentiram. Adolescente não acredita em cegonha. Adolescente não acredita em Papai Noel. Adolescente não acredita mais no que diz Pai e Mãe. Adolescente sente angústia. Adolescente não é mais um, é meio.

Adolescente quer Adolescente. Adolescente e Adolescente somam um. Que angústia é ser apenas meio. Adolescente quer Adolescente que é de outro Adolescente. Adolescente quer que outro Adolescente morra. Viver é angustiante. Adolescente sabe que deveria ser racional, mas não é.

Pai do Céu diz que veio primeiro Adão e Eva. Darwin diz que veio primeiro o Macaco. A palavra de Pai do Céu não pode ser entendida pela razão. Adolescente escolhe ora a razão, ora Pai do Céu. Adolescente sabe que vai morrer. Pai do Céu cuida dele após a Morte. Darwin, não.


O Mal Estar da Civilização

Homem é o que era Adolescente. Homem precisa vencer a natureza. Homem precisa da civilização. Civilização quer que homem não satisfaça seus desejos. O Homem é o pior inimigo da Civilização, mas sem Civilização não pode mais existir Homem.

A Religião tem as regras da Civilização. A Civilização não é justa. Pai do Céu é. Se Homem for bonzinho pode viver na Civilização e nunca morre. Quando morre, tem outra vida no Céu, que é onde mora Pai do Céu. Se for injustiçado na Civilização, não será no Céu.

Homem não acredita mais em Pai do Céu. Homem precisa de Pai do Céu para viver em Civilização? Quando Homem usa a razão, Homem pode viver na Civilização, mesmo quando não acredita em Pai do Céu. Homem sente angústia. Homem quer e não pode. Se pode tudo que quer não há Civilização. Sem Civilização não há Homem.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

O Caso do Brasileiro Preso em Hannover



Baseado em uma estória real durante a feira Cebit em Hannover, Alemanha (ou foi 2000 ou 2001):

Uma das descobertas mais importantes da feira foi a existência de confraternizações após o horário de funcionamento. Não que as festas tivessem alguma graça, mas em compensação transbordavam de comida. Uma refeição comum numa cidade alemã típica com algum suco ou refrigerante não custa menos do que trinta marcos, não incluíndo a sobremesa. No segundo dia de feira descobrimos a boca-livre e passamos a sair do Messe de Hannover, o gigantesco centro de convenções onde acontece o evento, depois das dez da noite, quatro horas após o encerramento. O almoço também foi substituído por um baguete com presunto, que custa caro, se compararmos com o preço no Brasil, mas é suportável. O hábito adquiriu nível tal de especialização que chegamos ao cúmulo de assistir a palestras em alemão na espera do coquetel servido após. Isto aconteceu ontem e entre canapés bem servidos com salmão, queijo, presunto e outros frios refinados, tomávamos vinho tinto Melot ou branco com uva Riesling. Como meu organismo tem um certo preconceito com álcool, enquanto os meus caros amigos tomavam taças e taças eu consegui beber uma completa. Uma etapa concluída, o próximo passo foi procurar outra confraternização para finalizar o jantar. Não foi difícil. Mais cerveja para os meus amigos. Finalmente, depois das dez, conseguimos ir embora. Como em Hannover praticamente não existem hotéis, é prática hospedar-se em quartos de casas de família. E como o procedimento é corriqueiro existe um nível alto de profissionalização.

Fiquei em uma casa com dois quartos para alugar, o outro foi alugado por um brasileiro que veio para o CeBIT, e para manter sua identidade em sigilo, vamos chamá-lo de Sr. X. O Sr. X havia alugado carro em Frankfurt ou Munique, não lembro bem qual das cidades, e veio dirigindo até Hannover. Como estávamos na mesma casa, aproveitava a carona na ida à feira e na volta, mas na Europa o sistema de transportes é tão eficiente que ter um carro é um luxo dispensável. Voltando ao fatídico dia de ontem, eu me ofereci para dirigir naquela noite, primeiro porque o Sr. X estava ligeiramente embriago. Segundo porque, pela infelicidade de uma doença de infância, a maldita pólio, suas pernas não tinham muita força e naquele dia todos andamos muito. O estacionamento era especialmente distante da entrada da feira e eu fui pegar o Ford Focus alugado para poupar o Sr. X de andar toda aquela distância. Ele insistiu em dirigir e por mais argumentos lógicos que eu usasse para dissuadi-lo, ele foi o motorista. O Sr. X é extremamente seguro de si, ou em linguagem menos politicamente correta, teimoso o bastante para se considerar à prova de engano e acreditar que sabia o caminho de volta para nosso hotel-casa naquela cidade estranha. Após mais de uma hora andando em círculos ele decide finalmente aceitar minha sugestão de olhar o mapa. Paramos numa estrada principal, mas muito estreita, próximo ao semáforo. Devia ser por volta das onze da noite. O Sr. X fica observando o mapa e tentando descobrir nossa localização. Um carro pára atrás do nosso e dá sinal de luz. O Sr. X naquele seu jeito debochado fez sinal com a mão como quem diz passe por cima. Ao terminar o sinal, aquele carro ligou a sirene. Era a polícia, provavelmente nos seguindo há algum tempo, afinal o que aquele carro estava fazendo andando em círculos? O policial chega falando palavras duras em alemão que embora fossem incompreensíveis, sabíamos que eram palavas duras. Quando descobriu que não falávamos alemão e tentávamos explicar que estávamos perdidos e que precisávamos de ajuda, tudo em inglês, não quis conversa. Pegou o bafômetro e mandou o Sr. X soprar. O outro policial que o acompanhava fazia o papel de tira bom, tentando apaziguar. De todo modo o tira mal me entrega o seu cartão com o telefone e endereço da delegacia e diz para eu esperar no carro enquanto o Sr. X é levado para averiguação.

A noite estava bastante fria. Embora já fosse março, ainda havia alguns dias de neve, mas não naquele dia. Fui até a estação de metrô que estava do outro lado da rua e liguei para Claus Traeger, o consultor da SOFTEX na Europa, um brasileiro descendente de alemães, que vive em Colônia, na Alemanha. Então ele ligou para Darci Weiss, uma cearense cujo marido é um advogado alemão. Passados uns trinta minutos, o tira bom retorna na sua viatura, pergunta se eu tenho habilitação e faz o teste do bafômetro. Como não bebi o bastante para coisa alguma, ele pede para que acompanhe sua viatura até a delegacia. Eu tinha acabado de fazer uma cirurgia de miopia, que me deixou apenas dois graus dos meus doze graus e eu estava sem óculos ou lentes e ainda via as coisas embaçadas. Consegui segui-lo sem problemas. O Sr. X é advogado e os códigos legais de quase todos os países têm uma forte influência alemã. Ele estava fazendo o jogo de advogado. O bafômetro não é prova e ele insistia na tese de que sua religião não permitia que lhe retirassem sangue. O inglês do Sr. X não era grande coisa e dentro do seu jogo ainda estava bem pior e eu fiz o papel de tradutor. Uma alemã, a que conduzia o interrogatório, falava em inglês comigo e o Sr. X esperava que eu traduzisse para só então se manifestar e eu então traduzia para o inglês. Também no jogo dos policiais eles conversavam entre si em alemão. O Sr. X tem sobrenome alemão e os policiais temiam que ele entendesse alguma coisa e iam cada vez mais testando limites. A delegação era do Rio Grande do Sul e eu era o único cearense da turma. O Sr. X entendia um pouco do que eles falavam e era algo como “que mala! Vamos ter de passar a noite toda aqui”. No jogo de ganhar tempo, eu cada vez me desesperava mais pois tinha uma reunião às oito da manhã com uma empresa interessada em nossos produtos. Os policiais exigiam uma fiança de mil marcos para liberá-lo. Depois de muito ganha-tempo conseguimos baixar a fiança para seiscentos marcos (a relação era de 2,3 marcos por dólar americano a mesma relação do real à época). O Sr. X disse-me onde seu dinheiro estava no nosso hotel-casa. Perguntei aos policiais como chegar em casa a partir da nossa localização e finalmente consegui a informação que tanto queríamos. Estava bem próximo, somente a alguns quilômetros. Fui ao local indicado pelo Sr. X e havia uma grande quantidade de marcos e dólares, cerca de uns três mil dólares no total. Peguei o dinheiro do acordado e voltei para a delegacia. Quando cheguei, encontrei o Sr. X alquebrado como nunca o havia visto em nossa curta convivência.

Aproveitaram minha ausência como testemunha e lhe retiraram sangue à força. Isto mesmo, no primeiro-mundo há também violência policial. Assinei o boletim como testemunha e como tradutor. Ele insistiu em escrever seu próprio testemunho, como manda a lei em muitos países e embora houvesse uma pressão velada para que ele não o fizesse, escreveu no seu inglês tosco a violência que sofreu e o seu relato teve de ser arquivado junto com o boletim. Chegamos em casa e o Sr. X, sujeito forte como é, não ficou remoendo a violência que sofreu enquanto eu estava me remoendo com a injustiça. No outro dia ele compareceu ao forum, o promotor achou uma injustiça o que ele sofreu e a sua multa acabou reduzida para apenas duzentos marcos. A porta também estava aberta para que ele processasse os políciais. O tempo infelizmente era curto e ele teve de voltar com esta injustiça não desfeita para o Brasil e eu com uma péssima impressão da polícia alemã.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

Novidades que não se vêem na TV

iWeb

Steve Jobs apresentou no dia 10 de janeiro, o iWeb que promete revolucionar a criação de páginas web para uso pessoal. Eu assisti a apresentação e o produto realmente é interessante. O que Steve falou, e eu concordo, é que softwares simples fazem páginas feias e softwares complexos são difíceis de usar para o usuário comum. O iWeb também cria páginas de blog, podcasts e estas coisas da moda.

Disney e Pixar

A Pixar foi responsável pelos sucessos que salvaram a Disney de anos de queda de receita, entre os sucessos incluem-se Monsters, Inc.; Nemo; The Incredibles e Toy Story. A Pixar é de Steve Jobs, o homem que criou a Apple. Disney e Pixar não conseguiram renovar o acordo. Parte porque Steve Jobs não se dava muito bem com o antigo CEO da empresa, Michael Eisner. Com a entrada de Robert Iger, as conversas retornaram. O jornal Wall Street dá como certa a compra da Pixar pela Disney. Com isto, Steve Jobs se tornaria um grande acionista da Disney, com direito a participar das decisões e assim um homem mais poderoso do que já é. Ou como disse um comentarista da CNN, se tornaria o próprio Mr. Incredible.

MBAs nos EUA

Cerca de cem mil pessoas completam MBA aqui nos EUA e são recompensados: a média de salário no primeiro ano é de US$ 106 mil por ano. Eu já fui aceito para o MBA em Project Management na Universidade do Texas, agora falta só o dinheiro para pagar as despesas.

A lei Anti-Walmart

O Walmart é conhecido por aqui como destruidor de economias. Onde chega destrói os pequenos negócios ao redor e acaba com o lucro dos fornecedores. Também é conhecido por pagar mal aos funcionários. A coisa boa é que os preços são realmente baixos. Quando os funcionários de alguma loja se juntam a algum sindicato, o Walmart simplesmente fechas as portas desta loja e vai para outro lugar. Walmart way or Highway (ou é do jeito do Walmart, ou adeus). Sofrendo pressões de todo o lado, especialmente da rede regional Giant (que tem um serviço ao cliente excepcional), o governo de Maryland aprovou a lei que é conhecida com anti-Walmart dia 16 de janeiro. Esta lei força que qualquer empresa com mais de 10 mil funcionários tenha de gastar pelo menos 8% do seu faturamento em benefícios para os funcionários. Por lá só outras três empresas possuem mais de 10 mil funcionários, a Giant, Johns Hopkins (universidade e hospital) e um empreiteiro para o serviço de defesa. Todos já gastam mais de 8% com benefícios. O Walmart iria abrir um centro de distribuição em Baltimore, mas depois desta deve mudar-se para Virgínia (MD, VA, PA ficam próximas e são satélites de Washington, DC).

Hemetério, U2, eu e a sina de um dia depois



Continuo acompanhando as notícias no Brasil através da Internet e uma notícia que me chamou a atenção foi a confusão causada pela correria para comprar o ingresso do show do U2. Eu conheci o U2 na casa do meu amigo Valmir Meneses que hoje mora em Portugal. O CD que eu ouvi foi o Achtung Baby! A primeira música que eu ouvi foi o suficiente para perceber que aquele grupo era muito especial. Cada um teu seu gosto musical e este post não é uma ode ao U2, em breve chegarei ao ponto.

Naquela época, eu trabalhava com uma equipe de notáveis. Fazíamos experimentos, escrevíamos feito loucos e ainda ganhávamos dinheiro com isto. Foi aí que eu conheci o Valmir e o Hemetério. O Hemetério é um grande artista plástico, que agora está escrevendo tão bem no seu blog (ver link ao lado) que, para quem o conhece apenas por lá, não imagina o grande ilustrador que ele é (também mantém o blog Genésio, o galalau, com tirinhas semanais). O Hemé é também um grande apreciador do U2.

O U2 tocou no Brasil pela primeira vez (e única por enquanto) em 1998 no Rio e em São Paulo. Hemé e eu compramos os ingressos imediatamente e fizemos reservas para o Rio de Janeiro com bastante antecedência. Acontece que a agência marcou a viagem para um dia depois da única apresentação no Rio e o pior é que só descobrimos isto quando, de malas prontas, tentamos embarcar na data que pensávamos ser a correta. Não lembro bem, mas acredito que recebemos o dinheiro da passagem de volta, mas o prejuízo foi realmente não ter visto o U2 ao vivo. Antes de eu me mudar para cá, acredito que algumas semanas antes, convidei o Hemé para assistir ao show do U2 no projetor da empresa que eu tinha instalado em casa. Comemos caranguejo e tomamos cerveja, assistindo ao show da área mais VIP possível pelas câmeras. Quando eu cheguei aqui, neste mesmo dia houve um show aberto do U2 em Washington, DC, apenas a alguns quilômetros de onde eu estava. Se eu tivesse chegado um dia mais cedo...

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

O Schwa



Um dos fatores que atrapalha qualquer estrangeiro de pronunciar inglês perfeitamente é o Schwa, uma vogal neutra marcada foneticamente como ə que pode estar fantasiada de várias vogais, com o i de animal; o segundo o de oxford; o u de but; o e de character; o i, o a e a vogal entre sm de Puritanism. Esta vogal falsa pode estar em qualquer palavra e se você não ouviu a pronúncia da palavra fica difícil de imaginar onde ela está, ou se não existe schwa. Depois de algum tempo você acaba percebendo os schwas em palavras novas, mas isto requer tempo. Eu conheço pessoas que vivem aqui há anos, são fluentes na língua, mas têm problemas de pronúncia. Abaixo coloco algumas palavras com o link para a pronúncia correta (os links funcionam melhor com o Internet Explorer). Tentem pronunciar antes e só depois usem os links:

Focus, Taurus, Dulles, Animal, Oxford, Characteristic, Puritanism, But, Organization.

Para verificar a escrita fonética de qualquer palavra inglesa visite http://www.m-w.com.

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Contos do Fim do Mundo: Sociedade dos Céticos (parte I)



Antes eu era cético com a mesma impropriedade apresentada por aquele que crê somente. Hoje sou um cético que possui convicção igual ao do crente que se banhou nas graças do Espírito Santo mas ao contrário deste posso descrever por palavras minha experiência sem que o interlocutor careça de encontrar-se em um determinado estado de espírito para compreender-me. Se há um começo, um marco que aponte de maneira inequívoca a formação do caráter cético em um jovem que ainda carregava as culpas da religião cristã, como era o meu caso, aos meus dezessete anos, esta efeméride coincide com a partida de Ana Luzia, no momento em que eu perdi o amor que me corroía pois justificava minha existência ao mesmo tempo que me enchia de culpa e junto com ele, algo irrecuperável também foi perdido, a minha inocência. Não me lembro ao certo do rosto de Ana Luzia e a menção do nome dela, neste momento que escrevo seu nome, traz-me a imagem de uma moça de cabelos compridos e negros com uma tez pálida e traços tão delicados que causavam comoção em quem a via, não importando quão insensível fosse o observador. A imagem, de tão genérica, não pode ser mais imprecisa. Antes, quando eu escrevia repetidamente Ana Luzia, Ana Luzia, Ana Luzia na folha do caderno da escola para depois disfarçar as letras, transformando A em B, L em E, u em d, antes de riscar completamente as palavras para que se alguém se empenhasse em descobrir o que fora riscado, olhando através dos riscos, deparasse com símbolos ininteligíveis, o sentimento era de prazer e de dor que como já disse me assolavam. Mais estranho acharia o leitor se eu dissesse que o mais próximo que cheguei de consumar este amor, que custou minha inocência e imputou-me novo caráter, foi um beijo de encontro de lábios, cuja falta de malícia foi culpa exclusiva de minha imperícia. Ana Luzia fôra-me apresentada por meu grande amigo de infância, Leonardo, que antes desta formalidade já a tinha tornado uma figura familiar por conta de suas descrições detalhadas.

Se eu agora apresentasse a qualquer um de vocês Ana Luzia depois de precavê-los, talvez de espírito preparado, o leitor não sofresse a tempestade sensorial que sofri ao vê-la pela primeira vez, tão indefeso. Não fosse somente isso, mas também a afinidade que nós descobrimos ter um com o outro e, no crescendo de nossa intimidade, ver surgir alguma coisa que explicava minha existência e, lembrando mais uma vez, tornava minha vida miserável pela culpa de saber que minha felicidade seria a ruína de Leonardo. Não que ele não pudesse sobreviver sem Ana Luzia, tanto que sobrevive até hoje..

No dia em que nos beijamos, eles namoravam há dois anos. Era fim de tarde e estávamos na casa de praia alugada pelo pai de Ana Luzia para as férias do início de ano. Leonardo estava jogando sinuca sem perder uma partida sequer, enquanto Ana Luzia nos chamava insistentemente para andarmos na praia. Em dado momento ela saiu em direção à praia sem falar nada com ninguém, iria ao passeio sozinha. Leonardo por um momento pensou em interromper o jogo, mas preferiu pedir que eu fosse com ela que em breve ele estaria conosco. Enquanto andávamos Ana Luzia queixava-se que Leonardo não lhe dedicava a atenção de outrora. Paramos em uma duna e deitamos lado a lado. Ela então pediu para que eu descrevesse o que eu via quando olhava para o mar. Não lembro as palavras exatas, mas disse algo que a comoveu, pois ela me olhou e disse: "Você é tão diferente do Leonardo". Neste momento, neste segundo que ela me olhou de modo que todo meu corpo entrou em descompasso, eu a beijei. A maneira como ela entregou-se àquele beijo, me fez pensar que o prazer de saciar o desejo supremo valeria qualquer infortúnio que a culpa causasse. Quando o beijo acabou, Ana Luzia tremia o corpo todo. Tentei repetir o beijo e quando a puxei para mim ela evitou a aproximação com o braço estendido, levantou-se e disse que era hora de voltarmos. Não falamos uma só palavra até chegarmos na casa onde Leonardo ainda continuava jogando sinuca. Foi a última vez que eu a vi.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

Cherry Blossom


Com a chegada da primavera, os ânimos melhoram e não foi diferente para a nossa família. A primavera na região de Washington, DC é um acontecimento. Um dos eventos importantes é o festival do Cherry Blossom (desabrochar das cerejeiras). Em 1912, o prefeito de Tokio, Yukio Ozaki, presenteou a cidade de Washington com três mil cerejeiras para comemorar o bom relacionamento entre os dois povos. Resta lembrar que décadas mais tarde o Japão quase destruiu Pearl Harbor e os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas no Japão (o status atual é de amizade, como todos sabemos). Em 27 de março de 1912, a primeira dama Helen Taft junto com Viscountess Chinda, a esposa do embaixador japonês, plantaram as duas primeiras árvores em West Potomac Park (próximo de onde eu morava). Estas árvores e outras cerejeiras são protegidas por lei e todo ano, na primavera, desabrocham em flores. O espetáculo atrai muitos locais e turistas. Acredito que este foi o momento em que minha esposa passou a gostar de morar aqui.



Sofia




Minha mulher e eu temos uma filhinha de 13 meses, a Sofia, que é um amor de bebê e é também a neta distante dos quatro avós saudosos. Eu me mudei para os Estados Unidos quando ela tinha pouco mais de 10 dias de nascida. Ela poderia ter nascido aqui e assim ter dupla cidadania, já que o visto de trabalho saiu bem antes do nascimento. A escolha por nascer no Brasil foi devido a vários fatores. Um deles é que nenhum plano de saúde daqui (e do Brasil também) cobre parto de mãe já grávida durante a adesão. O nosso plano de saúde no Brasil já estava cuidando da gravidez muito bem e Sofia teimava em permanecer sentada, situação em que o parto Cesariano é o mais indicado. O custo de uma C-Section, como este tipo de parto é chamado por aqui, custa cerca de US$ 9.000 se tudo correr bem.

Embora a parte financeira tenha tido um papel importante, a escolha do nascimento no Brasil foi principalmente pela proximidade com a família. Nós éramos (e ainda somos) marinheiros de primeira viagem no assunto de paternidade. Estar perto da família foi fundamental. Nestes 10 dias em que eu passei com a Sofia antes da mudança, também tive de cuidar da retirada do seu passaporte, compra da passagem para dois meses e meio depois (época que o médico considerou prudente) e pedido de visto. Dois meses e meio depois e após montar apartamento, preparar plano de saúde, comprar carro e outras providências fui buscá-las. Na época morávamos em Rockville, Maryland, na região da grande Washington, DC. Elas chegaram um dia depois de uma grande nevasca. Nem é preciso dizer qual o estado de espírito da minha mulher: longe dos país, em um país novo, diante de uma língua nova que ela não tinha muito domínio, recém mãe e ainda recuperando da cirurgia e com a filhinha pequena. Depois eu conto mais.


As boas vidas de Maryland para minha esposa e Sofia

Sábado, Novembro 19, 2005

A versão de Crazy (do Seal) por Alanis Morissette

Estava eu hoje assistindo ao Conan O'Brien quando ouvi a versão de Crazy pela Alanis Morissette. Eu conhecia a música pelo Seal, mas só agora eu prestei atenção à letra. Que loucura. É a descrição mais assustadora que eu vi de uma bad trip. Só ouvi coisa similar de pessoas que esperimentaram o Santo Daime, LSD ou Chá de Cogumelos. A musica pode ser ouvida aqui (escolha a música Crazy na lista à esquerda). E a letra (não exatamente como ela canta) está aqui. A versão em vídeo pode ser vista aqui (tem de instalar um ActiveX da AOL).

Quarta-feira, Novembro 09, 2005

Sobre a confusão na Europa

Com todos estes acontecimentos de tensão social na França e uma discussão acalorada no site do CHONGAS, onde assino como Lasher, acabei encontrando um texto que escrevi quando estava em Portugal, logo após ter chegado da feira Eurobanking em Frankfurt na Alemanha. Na Alemanha estive com um grupo de brasileiros representando o país pela SOFTEX. Como é normal na Alemanha, tanto eu quanto outros brasileiros nos hospedamos em casas de pessoas normais que ganham dinheiro extra com isso. Existem agências que cuidam especificamente deste tipo de hospedagem e foi assim que nos arranjamos. Eu e outro brasileiro ficamos na casa de uma senhora muito simpática em um bairro de classe média alta. Um outro brasileiro ficou em um bairro de trabalhadores manuais. Este brasileiro, muito simpático, o típico animador de festas, foi a um bar da região e quase entrou em uma grande enrascada por conta de um sujeito neo-nazista que ficou incomodado com o seu brilho. Foi salvo pelos amigos alemães que fez no bar. Talvez eu ainda conte esta história neste blog. Mas o que me interessa é mostrar a impressão que eu tive de Portugal nesta mesma viagem de três semanas que ainda incluiu uma passagem pela COMDEX Las Vegas aqui nos EUA em uma de suas últimas edições. Este post vai em homenagem ao blog O Vizinho:

Visões sobre Portugal (Escrito em 7/11/2000)

Estando em Cascais, um balneário da grande Lisboa, onde mora meu irmão e tendo compromissos sérios e não tão sérios na capital sou obrigado a uma grande jornada para chegar aos meus destinos. Um trem, ou combôio como aqui se chama, que vai de Cascais ao Cais de Sodré seguido de inúmeras trocas no metrô, ou metro como falam os portugueses. A viagem é agradável, nada a comparar com o transporte público do Brasil. Tão agradável que aproveito para observar enquanto viajo. Observar o povo e os lugares. No primeiro trem para Lisboa, vejo um ato de vandalismo, alguém riscou nas costas da cadeira, alguém que provavelmente estava sentado onde ora eu sentava. Dizia, "CARLOS SOUSA AMO-TE LOUCAMENTE, ROSA SOUSA". Vi vandalismo mais bem elaborado, em tintas, em Frankfurt, na Alemanha, como uma bela suástica pintada em um portão de ferro. O vandalismo em Portugal pelo menos tratava de amor, amor louco, mas amor. No mesmo dia, no carro de metrô, no meu caminho de volta, vejo um ataque, agora em giz, de Daniela e Xena. Em um canto, "DANIELA & XENA 100% AMIGAS", em outro: "DANIELA AMA LUIS" e mais adiante, "XENA AMA CARECA". Que amor tem para oferecer as duas, provavelmente adolescentes, são amigas em seu grau mais elevado, que se medido em percentagem soma cem porcento e ainda assim possuem espaço para amarem Luis e Careca. E que amor tem Rosa, por seu esposo, pelo que parece por possuírem mesmo sobrenome, que chega a ser louco. Camões, um também Português, mais famoso que Xena, Daniela e Rosa, acredita em um amor menos consumidor, que "é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer."

Entretanto, exageros à parte, o vandalismo do amor é menos ofensivo e mais divertido de se ver.

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Teu corpo é o templo

Templo de Jerusalém
Acredito que um dos maiores mal-entendidos dos ensinamentos cristãos é a interpretação popular do sentido de que o templo está em nós. Os evangélicos costumam ler e discutir a Bíblia bem mais que os católicos. Nós, católicos, somos reconhecidamente não leitores da Bíblia, exceto por uns poucos. Infelizmente os cristãos que conhecem alguma coisa sobre a Bíblia, o fazem de maneira superficial, não importando a sua denominação. A superficialidade provém da falta de compreensão do contexto histórico e religioso. Vamos, como muitos citadores de Bíblia, colocar duas passagens importantes do Novo Testamento que tratam do santuário (Templo) sem a contextualização:


I Coríntios 3:16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? 17 Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é sagrado.

João 2:13 Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. 14 E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; 15 tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas 16 e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio. 17 Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá. 18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? 19 Jesus lhes respondeu: Destruí este templo, e em três dias o reconstruirei. 20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu, em três dias, o levantarás? 21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.


- Pronto! Tá vendo? Meu corpo é o templo e é sagrado. Só quando casarmos – diz a moça extremamente religiosa
- Mas ... – diz você enquanto fica imaginando como quer depedrar e vilipêndiar este monumento de templo que é a moça. Ao mesmo tempo imagina se isto está na Bíblia ou é invenção do Pastor ou Padre para frear os hormônios em embulição daquele pedacinho de paraíso.

Com tal barreira, o melhor é pesquisar e tentar descobrir que mensagem é esta. Quem se prestar a pesquisar vai descobrir exatamente o que eu vou escrever aqui, já mastigadinho. Os judeus de Jerusalém eram xenófobos e racistas, ao contrário da diáspora que era cosmopolita e tolerante. A diáspora (nome bonito para os judeus que vivem fora da Terra Santa) conseguiu carregar a ética judaíca para outros centros mais desenvolvidos como Roma e Egito e influenciar a classe-média alta destes centros. Muitos gentios (não judeus) viviam sob o ensinamento judáico, que bem ou mal permitiu que os judeus sobrevivessem como unidade por cinco mil anos até agora, enquanto civilizações mais ricas e bem armadas não duraram muito. Esta conversão nunca poderia ser completa, infelizmente, porque havia o fator geográfico da religião: o Templo de Jerusalém. No início, o cristianismo era mais uma das centenas de seitas judáicas que existiam na época. Se não fosse por Paulo, a mensagem não teria se tornado tão universal como se tornou. Paulo era da diáspora e teve a sensibilidade de compreender que aquilo era muito maior do que uma seita judáica poderia se transformar. Aquela mensagem era uma quebra de paradigma. Os Essênios, outra seita judáica da mesma época, quase tinham chegado lá. Eles se afastaram do centro corrupto do Templo e já começaram a ventilar a idéia de que o Templo estaria onde está a . Jesus de Nazaré, mais incisivo, fez como alicerce principal o desligamento do Templo com Deus. Os Essênios (parecido com os monges modernos) não conseguiam imagina Deus sem os judeus. O homem de Nazaré retirou o fator geográfico (o Templo somos nós) e o fator racista (pregava para cobrador romano, prostitutas e quem mais quisesse ouvir).

Em suma, o Templo está em nós significa que para estar perto de Deus a pessoa não precisa estar no Templo de Jerusalém. A mensagem é simples, a compreensão é sofisticada. Paul Johnson, um grande historiador, escreveu um livro sobre a história do Cristianismo e do Judaísmo. Vale a pena a leitura.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005

Ainda falando de seriado de TV


Eu acabei me associando ao Netflix pouco depois de chegar por aqui. Pago US$ 15.00 por mês e posso ter até dois filmes em casa por vez. O interessante é que recebo recomendações de acordo com a nota que dou a cada filme que assisto. Não sou muito fã de cinema de arte, confesso que acho maioria muito chato, mas adoro filme esquisito do tipo Donnie Darko. Também adoro séries legais de TV como já falei anteriormente.

Graças a estas recomendações aluguei Freaks and Geeks (algo como Galera da Geral e CDFs), uma série que foi bem vista pela crítica, foi indicada a vários prêmios, tem ainda hoje um fã-clube como o do arquivo X, mas que não foi um grande sucesso comercial e por isso só teve uma temporada. Minha esposa e eu assistimos este seriado feito loucos, todos os 18 episódios disponíveis em cerca de um mês. Neste seriado, não vemos os tipos artificiais e glamorosos de outros seriados do gênero. O interessante desta série são as pessoas realmente normais, tais como encontramos durante o colégio. Gente de carne e osso e insegurança de adolescente.


A trama inclui claro, os Freaks e os Geeks:

Geeks
Sam Weir – é o nosso herói. O mais popular dos geeks e o líder. É apaixonado pela Cindy Sanders, uma cheerleader que é um doce de menina. Cindy, é claro, prefere um atleta.

Lindsay Weir – irmã do Sam. É uma geek que é aceita pelos freaks. Acaba namorando o freak Nick, que se mostra o maior grudador. A intenção dela era namorar o Daniel, o freak garanhão.

Os outros Geeks: Neal Schweiber, o engraçadíssimo judeu que um dia deixará de ser Geek e Bill Haverchuck, um quase gigante, completamente desengonçado.

Freaks
Daniel Desario – é o líder dos freaks. Tem um jeito especial para as mulheres e ganha a atenção da Lindsay e da Kim, a namora encrenqueira.

Kim Kelly – uma moça à beira de um ataque de nervo. É a amiga pesadelo da Lindsay e namorada do Daniel: eles se entendem.

Os outros Freaks: Nick, grudento com as mulheres, inseguro, maconheiro e péssimo baterista e Ken Miller, um cínico, com excelente timing para humor.

. . .

E o impagável Sr. Rosso, um ex-hippie que agora é conselheiro escolar.

Para mais sobre a série:
http://www.freaksandgeeks.com

Deadwood e São Paulo



A grande sensação do momento na TV por aqui é Desperate Housewives que é a mistura de comédia (humor-negro) com drama. Eu pessoalmente sou fã de carteirinha do The Sopranos da HBO que vai voltar em nova temporada e fiquei fascinado com o Deadwood também da HBO.

The Sopranos: O personagem Tony Soprano, o chefão de New Jersey é uma lição de liderança melhor do que The Apprentice. O personagem não é em momento algum caricato e com certeza é possível identificá-lo com várias personalidades de nossa tão querida sociedade, mesmo que para isso seja preciso subtrair o fator ilícito, ou seja, neste caso se trata mais de liderança e poder do que do crime. Ele poderia ser um político, um advogado, um executivo poderoso, qualquer coisa nesta linha de poder e liderança.

O seriado Deadwood fala da cidade homônima na região da hoje Dakota do Sul no período anterior à anexação aos Estados Unidos da América. A cidade que possuía um grande filão de ouro atraiu o tipo errado de imigrante, a verdadeira escória, em contraposto ao típico imigrante do Mayflower que veio ao país fugindo da perseguição religiosa da rainha Elizabeth e assim criou um Estado baseado na ideologia da liberdade religiosa e de pensamento. Neste intuito tais imigrantes escreveram um contrato social ainda durante a viagem que funcionou como lei. Ao contrário do contrato social da França ou de outros países, este foi escrito do zero, para uma sociedade inexistente, sem privilêgios.

Deadwood atraiu o mesmo tipo de aventureiro que o Eldorado brasileiro atraiu, a mesma qualidade de escória. E neste ponto é que o seriado é interessante, mais interessante ainda porque eu estava lendo São Paulo: 100 anos de solidão, de Roberto Pompeu de Toledo, que traça um retrato de como uma cidade que tinha tudo para dar errado, acabou dando mais certo que o resto do país. Tanto em Deadwood (que existiu realmente) quanto na história de São Paulo, inicialmente houve o povoamento pela escória, mas depois passou a atrair a lei e as pessoas de bem.

A série se passa neste momento de transição em que a cidade começa a se preocupar em estabelecer a lei para anexar-se aos Estados Unidos. E este choque leva o coronel do local, dono do único bar e prostíbulo, Swearengen, a tanto odiar quanto precisar da nova ordem que se estabelece. Se fosse nos dias de hoje, Swearengen seria considerado um milionário pelo que possuia. A lei vem através do Bullock, um homem de bem. Deadwood era um território indígena demarcado pelos EUA, como São Paulo também era, com a proteção do Anchieta, que como Bullock, trouxe a civilização para a cidade e embora os dois fossem homens íntegros fizeram concessões para o bem da paz.

E agora chegamos finalmente ao ponto que eu queria: será que não seria possível algum programa de TV do Brasil tratar de tal assunto? Seria importante entender um pouco mais sobre nós brasileiros.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Em algum momento os gostos mudam

Uma das leis de Murphy diz o seguinte: “se os fatos não corroboram a sua teoria, ignore os fatos”. Embora esta seja uma das piadas do anedotário das leis de Murphy muitas pessoas gostam de seguir fazendo as coisas deste modo.

Nietzsche diz que a nossa vaidade nos leva a crer que o que fazemos de melhor é o que há de mais importante. Nas organizações as coisas seguem muitas vezes desta maneira, quando um ponto em que somos bons (produto ou serviço) não é mais interessante para o mercado e este fato está claro para todos que estão do lado de fora e poderia ser verificado facilmente por uma pesquisa de mercado, às vezes, mesmo com esta pesquisa, as empresas continuam acreditando que o problema é do mercado e quando "o marcado" perceber que besteira está fazendo retornará a consumir na mesma proporção de antes.

Nos agarramos as nossas idéias como se estivéssemos nos desnaturando se aceitássemos o fato de que mesmo excelente como for, nosso produto não é mais aceito no mercado.

Para quem acha que conhece a si mesmo



“Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos – e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? Com razão alguém disse: “onde estiver teu tesouro, estará também teu coração ”.”
Friedrich Nietzschie – Genealogia da Moral – Uma Polêmica (Prólogo)

“Penso, logo sou”.
Renée Descartes

“Penso onde não sou, portanto sou onde não me penso”.
Jacques Lacan (criticando Descartes e estabelecendo que o nosso eu está longe do nosso pensamento consciente)

“A existência precede a essência” .
Jean Paul Sartre

“A experiência [sintoma psicanalítico] tem (..) uma face perceptível pelos sentidos, que se apresenta como o instante em que o paciente diz e não sabe o que diz. É o momento do balbucio, ali onde o paciente gagueja, o instante em que ele hesita e sua fala se subtrai. (…) Sim, o inconsciente é, na verdade, a ordem de um saber que o sujeito veicula, mas ignora”.
J.D. Nasio – Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan

“A razão é a inimiga que nos proíbe de experimentar novas formas de prazer”
Freud

“(…) Para Freud, a linguagem, longe de ser o lugar transparente da verdade, é o lugar do ocultamento. O sentido que se percebe oculta um outro sentido mais importante, e essa importância será tanto maior quanto maior for a articulação entre a linguagem e o desejo. (…) A função [da psicanálise] é fazer aparecer o desejo que o discurso oculta (…)”
Garcia-Roza – Freud e o inconsciente

Domingo, Outubro 09, 2005

Max Weber não é atemporal


No início do século XX, o sociólogo alemão Max Weber lançou a obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Os alemães, embora expostos somente nos últimos séculos à filosofia ocidental (antes eram considerados povos bárbaros), deram-lhe uma contribuição sem igual, destituindo-lhe a metafísica e aproximando-a da ciência.

A importância da obra de Weber é tão grande que se acredita ainda não obsoleta e sua objetividade supera em muito a de Karl Marx, que se deixou infectar pela ideologia. Max Weber nos apresenta esta obra-prima da sociologia sob a forma de trabalho científico. Já na problematização, primeira parte, em que ele apresenta sua hipótese, como Freud em seus manuscritos, mas de maneira menos explicita, lança mão do artifício de um interlocutor crítico. A hipótese é de que as regiões que sofreram forte influência protestante, hoje, ou pelo menos à época do livro, mostram-se mais economicamente desenvolvidas, ou melhor, mais capitalistas, devido a uma nova ética estabelecida pela influência religiosa. O fenômeno também é notado pelo maior número de profissionais de alto nível entre os de filiação religiosa protestante. O interlocutor crítico, então, lança uma possível nova leitura para tal fenômeno, a de que as regiões mais prosperas foram as que aderiram primeiro ao Calvinismo, Pietismo e Protestanismo e como pressupõe-se que a herança é também responsável pela transferência dos meios de produção e pelo custeio da cara educação necessária para a criação de mão-de-obra altamente especializada, esta seria uma explicação. Entretanto, no desenvolvimento do trabalho vemos que o interlocutor estava errado.

O que Weber quer demonstrar, e o faz de maneira competente, é que com os movimentos de Reforma religiosa destituíram-se os velhos dogmas católicos que viam no capitalismo, tal como o conhecemos, um pecado, ou mais especificamente, de que o dinheiro jamais pode ser um fim em si, mas um meio. A idéia de vocação, primeiro instituída na tradução para o alemão da Bíblia, cria uma nova ética, de que o trabalho é uma vocação. O capitalismo, até então, era exercido sem esta ética, de forma inconstante. As pessoas preocupavam-se mais com o suficiente para viver com certo conforto, qualquer desejo além disso era visto como usura, um pecado.

Ao expor frases de Benjamim Franklin como expoente desta nova ética, contendo afirmações como “lembra-te que o dinheiro é de natureza prolífica, procriativa” ou “lembra-te de que tempo é dinheiro”, Weber delimita o que ele considera o espírito capitalista no seu trabalho. As frases mostram que o capitalismo é o que a religião considerava usura. Surge então a indagação: como o que era pecado, apenas tolerado na antigüidade, torna-se virtude aceita por todos? A resposta vem da evolução da religião protestante que como já dito adiciona a palavra vocação ao vocabulário das pessoas. O trabalho passa a ser visto como uma obrigação para com Deus, uma vocação. O dinheiro proveniente dele, um bem divino, do qual o beneficiário não é o dono, mas somente o fiel depositário. Vê-se aí a natureza de poupança, tão importante para o capitalismo. A forma de se comportar também é importante, o trabalho é uma vocação, o dinheiro uma dádiva, mas a ostentação continua pecado. Weber, embora de maneira disfarçada, mostra um pouco da hipocrisia religiosa, pelo menos sob a luz de Franklin, que inclui normas de comportamento em suas frases, que se referem mais às aparências do que à ética.

O mais importante, entretanto, é que Weber reconhece o desligamento da religião com o capitalismo e apenas enxerga fortes traços da ética estabelecida pelas religiões de linha protestante com a ética capitalista moderna. O filósofo holandês de origem judaica, Spinozza, afirmou que deveríamos ver as coisas sob a perspectiva da eternidade. Este livro de Weber foi apontado como o mais lido do século, mas resta perguntar o quão atual ele é. Segundo o economista Claudio de Moura Castro, em seu ponto de vista publicado na revista Veja de 16 de junho de 1999, com o título “Como foi que deu Certo?”, falta surgir um Max Weber caboclo para explicar o aumento de 340 vezes do produto bruto brasileiro nos últimos 67 anos, uma vez que não somos muito partidários das virtudes protestantes (“trabalho duro, vida espartana, poupança e honestidade pessoal”). Max Weber não explica o Brasil.

Sábado, Outubro 01, 2005

Papel Moeda (Papel Fiduciário – Fiat Money)


No século passado, a economia deu um grande salto e os problemas que implodiam economias foram melhor entendidos. Este negócio de riqueza em forma de papel pode parecer natural agora, mas não foi algo simples de ser implantado. Os negociantes de veneza são tidos como os inventores do papel-moeda, mas o verdadeiro inventor do papel-moeda como instrumento fiduciário (baseado na confiança) foi o escocês John Law. No século XVIII, este escocês fugitivo da forca na Inglaterra (matou um homem em um duelo em uma disputa por mulher) foi retirado pelos amigos da prisão e enviado para a Holanda. Na Europa, posava de cavalheiro em desgraça, com passado escandaloso. Se sustentava nas mesas de jogos. Era um grande estatístico numa época em que não se sabia o que era isto e utilizava estes conhecimentos para ganhar nas mesas de jogos como se fosse sorte. Também era bem apessoado e tinha a fama de mulherengo.

Na França, John Law conheceu Lady Catherine Seigneur, de família muito influente e já casada. Eles se apaixonaram, fugiram para a Itália e casaram-se. Pouco depois iniciou uma crise econômica na Escócia e John Law voltou ao seu país (ele era procurado na Inglaterra apenas) e convencido de que sabia resolver o problema escreveu o tratado Considerações sobre o dinheiro e o comércio, com uma proposta para suprir a nação com dinheiro. Estas idéias foram submetidas ao parlamento escocês. Law enfrentou uma oposição ferrenha, sendo inclusive acusado de plágio por Chamberlen, um inglês que faliu várias pessoas ao tentar implantar a idéia de banco imobiliário aos moldes do Holandês. Mas o que John Law estava propondo não era emitir títulos imobiliários e sim emitir títulos sem lastro, baseados apenas na confiança das pessoas no governo. O tal fiat money, em inglês.

Graças a suas ligações familiares, conseguiu se aproximar de Felipe II, então regente da França. Felipe II não tinha o intelecto dos melhores. John Law era fugitivo, mulherengo e se sustentava nas mesas de jogos, mesmo assim acabou se tornando o principal conselheiro do Felipe II, que acabou comprando as idéias revolucionárias. O tesouro público da França tinha uma dívida de 3 bilhões de livres tournous (algo como uns 3 bilhões de dólares de hoje). A promessa de Law era levantar 500 milhões sem despesas para o povo. Conseguiu autorização para fundar o primeiro banco da França: Banque Royale. Depois conseguiu permissão para emitir papel-moeda sem lastro. Este mecanismo de criar dinheiro do nada teve um efeitor multiplicador e logo os franceses passaram a se beneficiar desta circulação monetária, desta liquidez. Como não existiam ainda as salvaguardas modernas, este modelo levou à inflação. O preço dos bens subiam assustadoramente, Law tentou instituir em 500 livres o total que os indivíduos poderiam carregar no máximo (parece familiar?). Ao final das contas aconteceu a desvalorização da moeda e esta primeira experiência monetária acabou fracassando. Em breve estaremos usando esta experiência para entender melhor o Brasil. Para saber mais sobre John Law, favor verificar na Wikipedia: John Law

Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Economia, Meteorologia e Ciências Ocultas



A teoria econômica é elegante, quase uma ciência oculta. O mais importante é que ela quase sempre consegue descrever os elementos de causa e efeito de uma situação passada. Para previsão do futuro, ler as cartas pode provar-se tão eficiente quanto. Não que a teoria econômica deva ser tratada como pseudo-ciência, ou coisa do gênero: ela funciona. O erro sempre está na construção do modelo. É a mesma coisa o que acontece com a meteorologia, os modelos nunca são completos o suficiente. Assim é praticamente impossível, por enquanto, saber ao certo se os furacão Katrina e Rita irão ganhar força ou transformarem-se em tempestade tropical. Por enquanto é impossível montar modelos certos para a economia e para meteorologia, mas um dia isto será possível.

Inaugurando o blog

O início do Blog Zarastrutas é aqui. O objetivo do blog é discutir: do sexo dos anjos ao livro do Apocalipse. Nada é tabu, nada é proibido. Também há o momento cultura digital em que alguma informação técnica será postada. A tentativa é manter o blog atualizado diariamente. Também haverá links que de alguma maneira são interessantes. Os que contêm material não apropriados para menores de 18 anos serão marcados apropriadamente. Os comentários são muito apreciados e nada será considerado bobagem. Apenas comentários não relacionados e ofensivos a qualquer grupo serão ignorados. Você entretanto pode me ofender ou ofender ao texto gerador do comentário sem problemas. E está lançado o Blog.