Tuesday, January 24, 2006

Contos do Fim do Mundo: A Mulher do Hotel (completo)






“15 Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. Por acaso colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos cardos? 17 Do mesmo modo, toda árvore boa dá bom fruto, mas a arvore má dá frutos ruins. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos. 19 Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 20 É pelos seus frutos, portanto que os reconhecereis.” – Mateus 7.


Quando Paulo encontra um espaço livre e finalmente estaciona o carro, o seu relógio marca cinco horas. A técnica de adiantar a hora, em cinco minutos, parece sempre funcionar – por mais que saiba que o relógio está adiantado, os seus mecanismos de alerta o incomodam como se a hora do relógio fosse a hora oficial, não são espertos o suficiente para efetuar uma simples operação matemática, uma estúpida subtração – e assim, esse procedimento tão simples tem lhe ajudado a mudar toda a filosofia de vida – a de estar sempre atrasado cinco minutos.

Antes de entrar no hotel, olha para o mar a dez metros dali, e imagina como seria o pôr-do-sol daqui a poucos minutos. E, nesse exato momento, Paulo acha estranho o pensamento. Não o pensamento em si, mas o fato de, morando perto do mar há anos, nunca antes haver se preocupado em ver o pôr-do-sol ou qualquer outra dessas coisas que tanto falam os admiradores, entusiastas e os fanáticos. Já vira, mas não porque quisera vê-lo – era apenas um homem no local e hora em que algo acontecia. De qualquer modo, hoje não é o dia, tem um compromisso. Além do mais, a visão que tinha era apenas do norte. O espetáculo está no sol já morno e passível de observação direta, mergulhando lentamente na linha que divide o mar e o céu, segundo ouvira. O ângulo não estava propício de qualquer maneira – o sol não se põe a norte.

Na época em que éramos colônia de Portugal, a escola arquitetônica Européia era majoritariamente barroca. Era isso que Paulo esperava encontrar na arquitetura do hotel Colonial. Mas não, em lugar disso, o que ele vê é uma arquitetura criativa que reproduz o rústico com conforto. Esse é o hotel Colonial – quartos como choupanas e uma grande área livre no centro, onde fica a piscina, rodeada por cadeiras de madeira e hóspedes que aproveitam os últimos raios de sol daquele dia – contrastando-se com os inúmeros hotéis que povoam aquela mesma costa, grandes monólitos que crescem para cima e nunca para os lados, na região de metro quadrado mais caro da cidade de Fortaleza.

A moça sorridente da recepção aponta para a sala de reunião, respondendo a Paulo. Faltam três minutos para às cinco, de acordo com o relógio do hotel, com certeza a hora oficial. Ele desce um lance de escadas, anda pelo corredor que passa ao largo de alguns dos quartos e desemboca na tal sala. Bate à porta e anuncia seu nome. Uma voz feminina o convida a entrar. Ele abre a porta e cumprimenta a senhora de pouco mais de quarenta anos que o convida a sentar-se na ante-sala. Ela tem cabelos loiros que devem ser muito bem pintados, pois parecem naturais, mas não combinam com a sua tés morena. O seu vestir e o perfume apuradíssimo denunciam a sua vaidade e bom gosto. Também falam muito de sua boa condição financeira – uma mulher com aquela presença não se faz com pouco dinheiro – horas de bons cabeleireiros, pedicuros, consultores de belezas e afins – com certeza aquela visão final que agrada Paulo não se é construída ao acaso, ele já viu muitas mulheres maravilhosas que murcharam quando o manto de proteção da juventude foi-se embora. Ela entra na sala principal de onde Paulo não tem fresta alguma de visão e o pede para esperar enquanto ela se prepara.

O tempo passa lentamente. Os minutos levam horas. E aquela espera soa insólita. Por que ela não o recebe logo? Não se ouve vozes. Ela não está falando com ninguém. Ela não tem porque trocar de roupa. Ele então imagina o que deve estar sendo preparado, mas não consegue chegar a uma conclusão, imagina coisas absurdas, caricatas, com o intuito de se entreter e ajudar a passar o tempo e não de encontrar sentido. Ela fôra muito bem recomendada por alguém em quem ele confia – o Macedo – e essa era a razão da submissão àquela situação.

Macedo tem uma filha que sofre de síndrome de down. Essa diferença genética da filha afetou de sobremaneira as crenças, ou mais precisamente, a incredulidade do pobre homem. “Não há ninguém ou nada neste mundo ou em quantos outros houverem ou venham a existir que eu ame mais do que aquela criança”, para usar as suas mesmas palavras. E na sua busca, não pela cura, mas por uma forma de comunicação com a sua filha Clara, ele experimenta de tudo.

Macedo foi hippie na época de faculdade, quando ainda tinha cabelo, nos anos iniciais da década de setenta. E quem diria que aquele cabeludo iria se tornar calvo ainda aos trinta anos. Da filosofia hippie, se é que existiu tal coisa, gostava do amor livre e das drogas. Experimentou todas não injetáveis – lícitas, ilícitas, fracas, fortes – mas não se tornou viciado em nenhuma delas, nem o álcool deixou saudades. Hoje bebe muito raramente. Entre elas, experimentou o ácido, os Lindos Sonhos Dourados, ou Lucy no Céu de Diamantes, como diziam Os Beatles em Lucy in the Sky with Diamonds, todos anagramas para o LSD, ou ácido lisérgico, um alucinógeno que causou certa curiosidade na época, por parte dos adoradores da natureza, dos espiritualistas, dos gnósticos. O ácido entra na corrente sangüínea através da pele, não é necessário cheirá-lo, aplicá-lo na veia ou mesmo bebê-lo. Essa facilidade de profilaxia permitia formas criativas e inusitadas de comercialização. Macedo conseguia a droga no jornaleiro, comprando figuras de álbum juvenil. Naquela figura colorida, ao se tocar em uma determinada região, como o olho do super-herói da ilustração, o ácido penetrava na corrente sangüínea e em poucos segundos estava nos lóbulos temporais, causando uma tremenda confusão mental.

Visões, estado alterado da consciência e fala obsessiva – todos esses efeitos foram sentidos por Macedo. Muitos afirmam ter uma experiência espiritual, outros arrancam os olhos, ferem-se ou matam-se durante a experiência. Mas o pior de tudo é que sem menos esperar, alguns poucos, que já experimentaram a droga e não a usam há décadas, apresentam os sintomas de como se tivessem feito-lhe uso. Isso pode acontecer ao se estar dirigindo de volta para casa com a família. O fato é que Macedo suspeita que a filha é diferente graças ao seu envolvimento com as drogas, mesmo ele tendo parado com o hábito anos antes de concebê-la. A ciência não confirma a sua suspeita, nem desmente. E isso o afeta. Mais do que se fosse, comprovadamente, o responsável. Queria a certeza e gostaria de poder encontrar um culpado. Na falta de um culpado de carne e osso, gostaria de uma razão, mesmo que fosse ela absurda aos olhos da ciência moderna a quem não deve nenhum respeito.

A necessidade de respostas, levou Macedo a experimentar um sem número de religiões e um outro tanto de tratamentos tão esquisitos quanto inócuos. Ao passar do tempo, ele desenvolveu um senso crítico mais racional e passou a fugir dos embusteiros e sentir-lhes o cheiro a distância, pelo menos gabava-se disso. Uma indicação de Macedo valia o esforço de conferir. O profissional indicado poderia ter todos os defeitos morais, intelectuais e éticos, mas era coisa genuína. Paulo está pacientemente esperando ser atendido por esta mulher, que ele esquecera o nome, porque Macedo a tinha indicado. E ele a indicara como profissional científica – uma psicóloga e parapsicóloga que não está no patamar dos pajés, curandeiros e sacerdotes – uma pessoa das ciências, do jeito que Paulo esperava que fosse. Os pensamentos de Paulo são interrompidos pelo chamado da mulher. Já não era sem tempo.

Ao se levantar Paulo sente suas pernas pesadas. Aquela sensação ele conhece bem. Não é dormência pela má circulação de sangue por ter estado sentado. É o estado de alerta de perigo invisível. Paulo sente isso em alguns locais onde pessoas depois lhe contam que é mal-assombrado. Perto de pessoas que não são muito agradáveis, ou muito violentas, mesmo antes de conhecê-las ou ouvi-las. Sabe que existem coisas que não pode descrever, mas pode sentir. Se mais pessoas tivessem estes sentidos, haveriam termos na língua para descrevê-los e uma só palavra seria suficiente e não um parágrafo inteiro. O perigo existia e, naquele momento, ele já estava arrependido de ter vindo. Mas a mulher o chamara novamente. Iria ao menos ouvi-la, desculpar-se e ir embora.

Aquela mulher elegante agora usava um vestido enorme de sacerdotisa do candomblé, rodeada de pedras semipreciosas, cordões e bijuterias de toda a sorte. Paulo entendeu que viera parar no lugar errado, mas não quis ser indelicado. Sabia, entretanto, que por mais que fizesse daquele momento em diante, entrara em uma região perigosa, imprecisa. Sentou-se à mesa coberta por uma colcha bordada e com detalhes feitos, cuidadosamente, à mão. No seu centro havia uma peneira de palhas de palmeira já maduras. Na peneira, repousava em jogo de búzios.

– Qual o seu nome mesmo, meu filho? – Pergunta a mulher.
– Paulo – responde-a e acrescenta – Qual o seu nome, novamente?
– Elisa. O que te trouxe aqui?
– Você lembra do Macedo, que trouxe a filha Clara, para uma consulta com você nesta semana?
– Lembro, sim. Como ele está?
– Está bem. Ele falou muito bem de você, disse que era psicóloga e parapsicóloga. Eu realmente não esperava uma mãe de santo parametrizada. – Fala com um certo sorriso irônico, mas mantém-se cordial.
– Espere um momento – Elisa sorri e junta todos os búzios com as duas mão, e antes que Paulo fale alguma coisa, os balança, fecha os olhos, balbucia algo ininteligível e atira todo o conteúdo de volta para a peneira. Os búzios se acomodam em forma de U com todas as aberturas voltadas para cima. – Você tem uma grande mediunidade, criou um campo tão forte que todos os búzios se abriram para você, mas precisa desenvolvê-la.
– Senão?
– Caso contrário sua vida vai ficar muito complicada. Não é verdade que tudo que você vai fazer sempre aparece uma complicação?
– Sim. Mas assim é a vida. Quando faço um estudo minucioso do que pode ter dado errado chego a conclusão que deixei de observar algum pormenor que acabou estourando mais a frente. – Paulo responde ainda meio em dúvida, pois há um pouco de razão nisso tudo, mas a confusão é uma das armas da ignorância e desinformação e esta era uma guerra, suas pernas não mentem. – Eu vim aqui por causa de alguns sonhos que venho tendo.
– Shhh!!! Vou ouvi-los daqui a pouco. – Diz isso enquanto repete todo o ritual, e joga novamente os búzios na peneira. – Aqui diz que um momento muito atribulado está querendo se formar na sua vida. Saia daí!!!. – Disse apontando para o lado de Paulo. E como resposta a um olhar atônito, complementa. – Existe um negrinho que o belisca de tempos em tempos. Você não sente um beliscão, vê alguns vultos?
– Sinto, mas com certeza é alguma pontada de um órgão interno. E quanto a ver vultos todos nós vemos, principalmente quando nos viramos rapidamente e a retina nos prega uma peça.
– Puxa, como você é incrédulo! Você sabia que foi um Português na outra encarnação. – Ao ouvir esta última frase Paulo é tomado por um choque. Estas palavras fazem todo o sentido do mundo. Isso o assusta, mas deve manter a serenidade.
– E você é muito crédula, pelo seu lado. Mas que estória é essa de eu ser Português? – Paulo perguntou, meio ríspido, com autoridade.
– Conte-me o seu sonho, mais tarde voltaremos a discutir tudo isso novamente. – Diz Elisa. Neste momento, Paulo arrepende-se de ter mencionado o fato. Se não o tivesse feito era a hora certa de ir embora. Mas rende-se. – “Era uma cidade de praia e era noite. Havia uma atmosfera carregada onde eu estava, eu podia senti-la como quem sente o vento da noite e a maresia. Eu estava em frente a uma casa bem simples, pintada de verde, com a pintura quebrada. Entro nesta casa e vejo na sala de visitas um sofá de madeira também em ruínas com o seu centro lascado. A forma da casa é a de um corredor, só que da porta de entrada vê-se mais largura que comprimento, ou seja, a casa é atravessada e não tem muita profundidade. Ao lado esquerdo e acima do sofá existe uma prateleira de madeira bem pequena, sobre a qual repousa um prato com comida. Eu entro na casa e como do prato. Ao terminar vejo que o fundo do prato é um espelho. Eu então sinto que fiz algo muito errado e que as pessoas dariam conta. Na manhã seguinte, o solo acusa chuva recente. Estou com a minha namorada e uma amiga comum. Peço para minha namorada trazer-me algo. Neste tempo, embora não tenha visto as imagens no sonho, seduzi a nossa amiga e mantive relações sexuais com ela. O sonho então dá um pulo e me vejo andando com uma outra amiga e um conhecido em uma estrada limitada por cercas de madeira, muito bem cuidadas, dos dois lados. Este conhecido segura um aparelho de som portátil que tem duas caixas de som pretas. Converso com a minha amiga enquanto o aparelho começa a pegar fogo. Ela se vira para o lado e diz: “Eles levaram três anos para fazer este aparelho, não pode ser destruído”. “Isso se faz em poucos minutos”, pensei. Ela correu para o aparelho que o rapaz soltara e acaba morrendo no acidente. Eu e este conhecido não comentamos, mas sabíamos que ela morrera para salvar aparelho. Ao final da estrada chegamos a um tipo de grêmio de cidade do interior. Entramos e conhecemos algumas pessoas. Conversei com um homem que falava castelhano, não poderia precisar, mas era quase certo que ele não era latino-americano. Ele então convidou-me a sentar no bar e tomar uma cerveja. Não havia cadeira para mim, ele então foi à piscina e pegou uma cadeira de madeira branca. Havia uma criança sentada nesta cadeira e ele levantou a cadeira mesmo assim, só com uma mão, demonstrando grande força física. A criança pulou e a cadeira foi trazida ao bar. “Por que você não teve medo?”, perguntou-me o forasteiro, referindo-se ao incidente com a minha amiga. “Porque sou protegido por Deus”, respondi e me surpreendi e lembro de ter pensado: “Mesmo Deus tem seus preferidos”. “Por que você se acha protegido por Deus?”, continuou, como se lesse meus pensamentos. “Talvez não por algo que eu tenha feito, mas provavelmente por algo que eu vá fazer”, novamente me surpreendi com a resposta. “Você sabe o que matou a sua amiga, não?”, perguntou ele. “Estava relacionado àquela presença, ela atraía”, novamente outra surpresa na minha resposta. Ele disse então que não me entendera. Falei em portuñol. Ele continuou sem entender. Falei-lhe em inglês e ele pareceu entender. Foi então que me disse: “Você tem olhos fundos como o de um Português”.” – Elisa anotava enquanto Paulo descrevia o seu sonho. Mudava sua fisionomia a medida que algumas partes eram reveladas.
– Este seu sonho tem caráter espiritual. Como você sabe eu também sou psicóloga e é muito raro um sonho ser ao mesmo tempo extenso e ter uma linha única de pensamento.
– O que é o sonho para a psicóloga Elisa? – Pergunta Paulo com real interesse.
– Os sonhos, em geral, fazem parte do processo de organização da memória. Se você observar bem, quando passamos uma noite em claro temos dificuldade de organizar a cronologia dos eventos. Coisas que aconteceram há horas parecem ter acontecido há minutos e vice-versa. Somente após o sono, e os sonhos, podemos fechar a contabilidade do dia. – Elisa fala em tom professoral. – Os sonhos também trazem coisas do inconsciente à tona, isto é, para o consciente. Eles têm sentido simbólico, mas não apresentam, em geral enredo simbólico. E o seu sonho apresenta enredo simbólico, conteúdo simbólico e significado simbólico. – Responda-me só uma pergunta: este seu amigo castelhano usa alguma coisa na cabeça?
– Não nesse sonho. – Novamente a mulher tocara em outro ponto delicado. Paulo tem uma teoria já formada sobre os seus sonhos e experiências, e principalmente uma idéia sobre quem seja o tal castelhano que é figura recorrente. Procura alguém para ratificar suas crenças. Mas ele não quer que essa mulher traga nenhuma resposta. O terreno é perigoso, ela é o inimigo. Na França de Vichy, a arma era a desinformação e a desinformação era recheada de fatos verdadeiros costurados em sofismas. Esta mulher acha que sabe verdades, mas Paulo sabe que só ouvirá mentiras verossímeis: distorções da verdade.
– Acho que você não precisa que eu interprete o seu sonho, você sabe exatamente o que ele significa. Você tem um problema muito mais sério. Você tem algum inimigo? Alguém metido com magia negra?
– Na verdade tenho. Uma senhora que tem uma fábrica de velas de umbanda certa vez me comprou um carro e pagou com dois cheques. O primeiro compensou. O segundo retornou porque tinha sido sustado. Liguei para saber o que tinha acontecido e ela disse que o carro sofrera um acidente e tinha virado sucata e estava dividindo o prejuízo comigo. Ganhei na justiça o valor devido e dizem que ela me jogou uma maldição. Não levei muito a sério, mesmo quando um carro que eu tinha capotou, com apenas um mês de uso, em uma reta.
– Eu sei que você tem preconceito quanto a minha crença. Eu até respeito isso. Mas é melhor você se precaver. Eu posso fazer um trabalho para amarrar o mal que tenta atacá-lo. Se você trabalha com o Macedo, você trabalho no Estado. Pode pedir referências minhas ao Governador. Ou, se você quiser ao Secretário de Estado. Meus clientes são pessoas instruídas. Isto não é magia negra. Meu trabalho é somente com espíritos superiores. E não se preocupe que eu não vou lhe cobrar nada
– Eu não posso me livrar do mal por mim mesmo? Por orações? Sem a necessidade de trabalhos?
– Não. Este tipo de trabalho só pode ser cortado com outro trabalho.
– Mas a Bíblia não tem uma passagem que fala que qualquer pessoa pode expulsar demônios.
– Claro, mas a pessoa para fazer este tipo de coisa deve estar com a vida bem equilibrada, em comunhão com Deus. Senão não terá autoridade sobre os espíritos. Você acha que está preparado? Na Bíblia também há uma passagem que diz que quando um espírito expulso volta ele traz mais sete com ele.
– Não, eu não estou limpo. Mas com certeza você também não está. – Paulo fala com desprezo e rispidez. Agora é a oportunidade de ir embora. – Obrigado pela consulta. Quanto eu lhe devo?
– Não me deve nada. É uma cortesia para os médiums. Geralmente eu cobro de acordo com a capacidade de pagamento da pessoa. Mas para você não cobrarei nada. Tenho certeza que ainda iremos nos encontrar.
– Não conte com isso, Elisa, mas saiba que não é nada pessoal. – Paulo volta a falar amistosamente. – Só mais uma pergunta, se não for incômodo: como você sabe que um espírito é de luz?
– Eu tenho meus guias que só têm feito coisas boas para mim e para quem os requisita ajuda através de mim. Pelos seus atos, sei das suas intenções.
– Mas você mata galinhas ou outros animais neste rituais ?
– Às vezes, sim. Os hebreus também sacrificavam seus animais para os deuses.
– Os hebreus não tinham deuses, insistiam na idéia do Deus único.
– Que seja...

Paulo se despede de Elisa e sai mais confuso do que quando entrou. Mas uma coisa era certa: não era aquilo o que ele esperava daquela reunião. Ele sabe que não fez a coisa certa, mesmo que tenha sido enganado. Foi enganado sim, mas entrou no jogo daquela mulher, ou quem quer que seja que ela estivesse representando. Ele vai até o carro e vê que o pneu dianteiro está seco, quase completamente seco. Decide entrar e dirigir devagar até um borracheiro, evitando assim a sujeira da troca de pneu. Já é noite. Faz a volta e é informado por um passante de que existe um borracheiro a duas quadras de lá. Dirige com muito cuidado até ver, finalmente, o borracheiro. O rapaz que tira pneus levou cerca de trinta minutos para retirar o seu. “Nunca vi pneu mais duro, doutor”, diz o rapaz quando finalmente consegue. Após o reparo e troca de pneu, Paulo volta a pista lentamente, quando inadvertidamente cai com o mesmo pneu dianteiro em um bueiro aberto. Os rapazes da borracharia o ajudam a tirar o carro do buraco. Paulo então nota que apenas as marchas para frente estão funcionando: a primeira, terceira e quinta. Segunda, quarta e ré não funcionam. Com alguma dificuldade consegue chegar em casa. Na manhã seguinte vai ao mecânico. O diagnóstico é um só, não importa o mecânico consultado, a caixa de marcha está irremediavelmente danificada. Com o prejuízo é possível comprar uma moto usada. Paulo então sabe o que aconteceu e sabe que embora o plano seja para que ele volte, ele jamais voltará a ver aquela mulher na vida.

4 comments:

Michel said...

Já li a metade :D

Zarastruta said...

Michel,

Espero que tenha gostado até agora e que leia o resto.

Michel said...

pronto terminei!
Valeu a pena, deu até calafrio :)
Uma vez escrevi algo com alguns elementos dessa cronica.
Gostei!

John Preston said...

Uau. Gostei. Tomara que você continue a postar esses contos.