Tuesday, January 17, 2006

Contos do Fim do Mundo: Sociedade dos Céticos (parte I)



Antes eu era cético com a mesma impropriedade apresentada por aquele que crê somente. Hoje sou um cético que possui convicção igual ao do crente que se banhou nas graças do Espírito Santo mas ao contrário deste posso descrever por palavras minha experiência sem que o interlocutor careça de encontrar-se em um determinado estado de espírito para compreender-me. Se há um começo, um marco que aponte de maneira inequívoca a formação do caráter cético em um jovem que ainda carregava as culpas da religião cristã, como era o meu caso, aos meus dezessete anos, esta efeméride coincide com a partida de Ana Luzia, no momento em que eu perdi o amor que me corroía pois justificava minha existência ao mesmo tempo que me enchia de culpa e junto com ele, algo irrecuperável também foi perdido, a minha inocência. Não me lembro ao certo do rosto de Ana Luzia e a menção do nome dela, neste momento que escrevo seu nome, traz-me a imagem de uma moça de cabelos compridos e negros com uma tez pálida e traços tão delicados que causavam comoção em quem a via, não importando quão insensível fosse o observador. A imagem, de tão genérica, não pode ser mais imprecisa. Antes, quando eu escrevia repetidamente Ana Luzia, Ana Luzia, Ana Luzia na folha do caderno da escola para depois disfarçar as letras, transformando A em B, L em E, u em d, antes de riscar completamente as palavras para que se alguém se empenhasse em descobrir o que fora riscado, olhando através dos riscos, deparasse com símbolos ininteligíveis, o sentimento era de prazer e de dor que como já disse me assolavam. Mais estranho acharia o leitor se eu dissesse que o mais próximo que cheguei de consumar este amor, que custou minha inocência e imputou-me novo caráter, foi um beijo de encontro de lábios, cuja falta de malícia foi culpa exclusiva de minha imperícia. Ana Luzia fôra-me apresentada por meu grande amigo de infância, Leonardo, que antes desta formalidade já a tinha tornado uma figura familiar por conta de suas descrições detalhadas.

Se eu agora apresentasse a qualquer um de vocês Ana Luzia depois de precavê-los, talvez de espírito preparado, o leitor não sofresse a tempestade sensorial que sofri ao vê-la pela primeira vez, tão indefeso. Não fosse somente isso, mas também a afinidade que nós descobrimos ter um com o outro e, no crescendo de nossa intimidade, ver surgir alguma coisa que explicava minha existência e, lembrando mais uma vez, tornava minha vida miserável pela culpa de saber que minha felicidade seria a ruína de Leonardo. Não que ele não pudesse sobreviver sem Ana Luzia, tanto que sobrevive até hoje..

No dia em que nos beijamos, eles namoravam há dois anos. Era fim de tarde e estávamos na casa de praia alugada pelo pai de Ana Luzia para as férias do início de ano. Leonardo estava jogando sinuca sem perder uma partida sequer, enquanto Ana Luzia nos chamava insistentemente para andarmos na praia. Em dado momento ela saiu em direção à praia sem falar nada com ninguém, iria ao passeio sozinha. Leonardo por um momento pensou em interromper o jogo, mas preferiu pedir que eu fosse com ela que em breve ele estaria conosco. Enquanto andávamos Ana Luzia queixava-se que Leonardo não lhe dedicava a atenção de outrora. Paramos em uma duna e deitamos lado a lado. Ela então pediu para que eu descrevesse o que eu via quando olhava para o mar. Não lembro as palavras exatas, mas disse algo que a comoveu, pois ela me olhou e disse: "Você é tão diferente do Leonardo". Neste momento, neste segundo que ela me olhou de modo que todo meu corpo entrou em descompasso, eu a beijei. A maneira como ela entregou-se àquele beijo, me fez pensar que o prazer de saciar o desejo supremo valeria qualquer infortúnio que a culpa causasse. Quando o beijo acabou, Ana Luzia tremia o corpo todo. Tentei repetir o beijo e quando a puxei para mim ela evitou a aproximação com o braço estendido, levantou-se e disse que era hora de voltarmos. Não falamos uma só palavra até chegarmos na casa onde Leonardo ainda continuava jogando sinuca. Foi a última vez que eu a vi.

8 comments:

Edge said...

Parece que ana ativa um neurotransmissor especifico de paixoes e desilusoes. Desde a Ana do Gessinger, a Ana Julia de uma musiquinha ai ate Annabel Lee do Edgar Alan Poe, que alias morreu por pura inveja dos anjos. Se serve de consolo, o poema termina dizendo q essa nao foi a ultima vez que eles se viram, ela estaria esperando por ele no paraiso...

"But our love it was stronger by far than the love "

...ah, lembrei: descullpe, tu e' cetico :)

Melon said...

Da inocência à ceticidade de crer que não crer seja o caminho de volta à inocência.

Os Machistas said...

das duas uma, ou isso inibe alguem a escrever ou estimula. Muito bom Z.

Michel

Hemeterio said...

Concordo com os machistas:

às vezes obras primas são criadas na prisão, às vezes a dor gera boa poesia. Depende do artista, e nesse caso, os contos do fim do mundo começaram bem!

Zarastruta said...

E.

Não confunda o mensageiro com a mensagem. A Sociedade dos Céticos ainda tem muita reviravolta. Este é um conto antigo que eu nunca conseguia terminar porque eu estava com um bloqueio de muitos anos.

Melon

Inocência é como virginidade, só se perde uma vez.

Michel

Obrigado pelo elogio. Espero que isto estimule, nunc iniba.

Hemé

Os contos serão intercalados. Em breve terá um conto completo. O Sociedade dos Céticos está pronto na cabeça e talvez tenha fôlego para um romance. Aguarde.

BRANCA said...

obra prima!
é muito legal pq tem que aceitar realmente os sentimentos e/ou tramas que vc passou para dar sentido, vida ao texto!
concordo com os machistas...inibe ou estimula.

bj

John Preston said...

Lindo conto. Quero mais.

Alex said...

Gostaria de ler a continuação....como encontra-la?