Friday, January 20, 2006

O Caso do Brasileiro Preso em Hannover



Baseado em uma estória real durante a feira Cebit em Hannover, Alemanha (ou foi 2000 ou 2001):

Uma das descobertas mais importantes da feira foi a existência de confraternizações após o horário de funcionamento. Não que as festas tivessem alguma graça, mas em compensação transbordavam de comida. Uma refeição comum numa cidade alemã típica com algum suco ou refrigerante não custa menos do que trinta marcos, não incluíndo a sobremesa. No segundo dia de feira descobrimos a boca-livre e passamos a sair do Messe de Hannover, o gigantesco centro de convenções onde acontece o evento, depois das dez da noite, quatro horas após o encerramento. O almoço também foi substituído por um baguete com presunto, que custa caro, se compararmos com o preço no Brasil, mas é suportável. O hábito adquiriu nível tal de especialização que chegamos ao cúmulo de assistir a palestras em alemão na espera do coquetel servido após. Isto aconteceu ontem e entre canapés bem servidos com salmão, queijo, presunto e outros frios refinados, tomávamos vinho tinto Melot ou branco com uva Riesling. Como meu organismo tem um certo preconceito com álcool, enquanto os meus caros amigos tomavam taças e taças eu consegui beber uma completa. Uma etapa concluída, o próximo passo foi procurar outra confraternização para finalizar o jantar. Não foi difícil. Mais cerveja para os meus amigos. Finalmente, depois das dez, conseguimos ir embora. Como em Hannover praticamente não existem hotéis, é prática hospedar-se em quartos de casas de família. E como o procedimento é corriqueiro existe um nível alto de profissionalização.

Fiquei em uma casa com dois quartos para alugar, o outro foi alugado por um brasileiro que veio para o CeBIT, e para manter sua identidade em sigilo, vamos chamá-lo de Sr. X. O Sr. X havia alugado carro em Frankfurt ou Munique, não lembro bem qual das cidades, e veio dirigindo até Hannover. Como estávamos na mesma casa, aproveitava a carona na ida à feira e na volta, mas na Europa o sistema de transportes é tão eficiente que ter um carro é um luxo dispensável. Voltando ao fatídico dia de ontem, eu me ofereci para dirigir naquela noite, primeiro porque o Sr. X estava ligeiramente embriago. Segundo porque, pela infelicidade de uma doença de infância, a maldita pólio, suas pernas não tinham muita força e naquele dia todos andamos muito. O estacionamento era especialmente distante da entrada da feira e eu fui pegar o Ford Focus alugado para poupar o Sr. X de andar toda aquela distância. Ele insistiu em dirigir e por mais argumentos lógicos que eu usasse para dissuadi-lo, ele foi o motorista. O Sr. X é extremamente seguro de si, ou em linguagem menos politicamente correta, teimoso o bastante para se considerar à prova de engano e acreditar que sabia o caminho de volta para nosso hotel-casa naquela cidade estranha. Após mais de uma hora andando em círculos ele decide finalmente aceitar minha sugestão de olhar o mapa. Paramos numa estrada principal, mas muito estreita, próximo ao semáforo. Devia ser por volta das onze da noite. O Sr. X fica observando o mapa e tentando descobrir nossa localização. Um carro pára atrás do nosso e dá sinal de luz. O Sr. X naquele seu jeito debochado fez sinal com a mão como quem diz passe por cima. Ao terminar o sinal, aquele carro ligou a sirene. Era a polícia, provavelmente nos seguindo há algum tempo, afinal o que aquele carro estava fazendo andando em círculos? O policial chega falando palavras duras em alemão que embora fossem incompreensíveis, sabíamos que eram palavas duras. Quando descobriu que não falávamos alemão e tentávamos explicar que estávamos perdidos e que precisávamos de ajuda, tudo em inglês, não quis conversa. Pegou o bafômetro e mandou o Sr. X soprar. O outro policial que o acompanhava fazia o papel de tira bom, tentando apaziguar. De todo modo o tira mal me entrega o seu cartão com o telefone e endereço da delegacia e diz para eu esperar no carro enquanto o Sr. X é levado para averiguação.

A noite estava bastante fria. Embora já fosse março, ainda havia alguns dias de neve, mas não naquele dia. Fui até a estação de metrô que estava do outro lado da rua e liguei para Claus Traeger, o consultor da SOFTEX na Europa, um brasileiro descendente de alemães, que vive em Colônia, na Alemanha. Então ele ligou para Darci Weiss, uma cearense cujo marido é um advogado alemão. Passados uns trinta minutos, o tira bom retorna na sua viatura, pergunta se eu tenho habilitação e faz o teste do bafômetro. Como não bebi o bastante para coisa alguma, ele pede para que acompanhe sua viatura até a delegacia. Eu tinha acabado de fazer uma cirurgia de miopia, que me deixou apenas dois graus dos meus doze graus e eu estava sem óculos ou lentes e ainda via as coisas embaçadas. Consegui segui-lo sem problemas. O Sr. X é advogado e os códigos legais de quase todos os países têm uma forte influência alemã. Ele estava fazendo o jogo de advogado. O bafômetro não é prova e ele insistia na tese de que sua religião não permitia que lhe retirassem sangue. O inglês do Sr. X não era grande coisa e dentro do seu jogo ainda estava bem pior e eu fiz o papel de tradutor. Uma alemã, a que conduzia o interrogatório, falava em inglês comigo e o Sr. X esperava que eu traduzisse para só então se manifestar e eu então traduzia para o inglês. Também no jogo dos policiais eles conversavam entre si em alemão. O Sr. X tem sobrenome alemão e os policiais temiam que ele entendesse alguma coisa e iam cada vez mais testando limites. A delegação era do Rio Grande do Sul e eu era o único cearense da turma. O Sr. X entendia um pouco do que eles falavam e era algo como “que mala! Vamos ter de passar a noite toda aqui”. No jogo de ganhar tempo, eu cada vez me desesperava mais pois tinha uma reunião às oito da manhã com uma empresa interessada em nossos produtos. Os policiais exigiam uma fiança de mil marcos para liberá-lo. Depois de muito ganha-tempo conseguimos baixar a fiança para seiscentos marcos (a relação era de 2,3 marcos por dólar americano a mesma relação do real à época). O Sr. X disse-me onde seu dinheiro estava no nosso hotel-casa. Perguntei aos policiais como chegar em casa a partir da nossa localização e finalmente consegui a informação que tanto queríamos. Estava bem próximo, somente a alguns quilômetros. Fui ao local indicado pelo Sr. X e havia uma grande quantidade de marcos e dólares, cerca de uns três mil dólares no total. Peguei o dinheiro do acordado e voltei para a delegacia. Quando cheguei, encontrei o Sr. X alquebrado como nunca o havia visto em nossa curta convivência.

Aproveitaram minha ausência como testemunha e lhe retiraram sangue à força. Isto mesmo, no primeiro-mundo há também violência policial. Assinei o boletim como testemunha e como tradutor. Ele insistiu em escrever seu próprio testemunho, como manda a lei em muitos países e embora houvesse uma pressão velada para que ele não o fizesse, escreveu no seu inglês tosco a violência que sofreu e o seu relato teve de ser arquivado junto com o boletim. Chegamos em casa e o Sr. X, sujeito forte como é, não ficou remoendo a violência que sofreu enquanto eu estava me remoendo com a injustiça. No outro dia ele compareceu ao forum, o promotor achou uma injustiça o que ele sofreu e a sua multa acabou reduzida para apenas duzentos marcos. A porta também estava aberta para que ele processasse os políciais. O tempo infelizmente era curto e ele teve de voltar com esta injustiça não desfeita para o Brasil e eu com uma péssima impressão da polícia alemã.

6 comments:

Hemeterio said...
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Hemeterio said...

Z, tem uma piada que talvez você conheça:

O que é o céu?

O Céu é um lugar com a economia alemã, a culinária francesa, a polícia inglesa, a política sueca e as amantes italianas.

E o Inferno?

Bom, o Inferno é um lugar com as amantes inglesas, a economia italiana, a culinária sueca, a política francesa e a polícia alemã :-)

A piada tem variantes, mas é por aí.

Zarastruta said...

Hemé,

Pois é, polícia é truculenta por natureza, mas a polícia alemã é sempre mais assustadora.

Edge said...

Da proxima vez que acontecer algo assim, fala que voces sao amigos do Edge.
hehehe
e saiam correndo gritando: rreeeeeiiii

John Preston said...

Gostei da piada Hemé.

Sunstila said...

hahahahaha