Monday, January 23, 2006

Psicologia Freudiana Prática (embora barata)


O Gênesis

No início era a Mãe.
A Mãe nutria. A Mãe protegia. A Mãe sonhava os sonhos de um lugar que não existia. E às vezes a Mãe cantava cantigas que ecoavam e expandiam aquele espaço mínimo onde Bebê vivia e Bebê flutuava no mar da Mãe onde Bebê estava completamente entregue e protegido. A Mãe amava Bebê e Bebê sabia. A Mãe e Bebê eram um.

Depois veio a voz do Pai.
E a voz do Pai dizia o nome do Bebê e Bebê sabia que a Mãe amava o Pai e o Bebê. Bebê temia que o Pai não permitisse que Mãe e Bebê fossem um só. Bebê não vê os sonhos do Pai. O Pai não alimenta Bebê. O Pai canta para Bebê, mas Bebê entrega-se ao conforto da Mãe. Somente quando Mãe canta, Bebê sente que o mar da Mãe não tem fim e repousa entregue e protegido.

E Bebê vai a deriva.
O mar da Mãe se esvazia. Bebê sente angústia. Bebê é arrancado da Mãe, mas permanece preso a ela. Bebê chora. Doem os olhos de Bebê. Bebê quer voltar ao mar da Mãe. Bebê é separado da Mãe e bebê sente fome e frio. Mãe, por favor, nutre Bebê. Bebê e Mãe são um.


O Paraíso

E Mãe nutre Bebê.
Bebê dorme. Bebê acorda. Bebê chora e Mamãe vem. Bebê nutre-se de Mãe. Bebê arrota. Bebê suja a fralda. Mamãe enxuga Bebê. Bebê sorri. Bebê ama Mãe. Bebê e Mãe são um só. Mãe canta cantiga para Bebê e Bebê sente-se protegido e entrega-se ao canto da Mãe.

O Inimigo

Pai não quer que Bebê e Mãe sejam um. Pai também quer Mãe. Pai dorme com Mãe e Bebê dorme sozinho. Bebê acorda no meio da noite e não vê Mãe. Bebê chora. Pai não pode descobrir que Bebê ama Mãe. Pai não quer que Mãe e Bebê sejam um.

Pai protege Mãe e protege Bebê. Bebê teme Pai, mas precisa de Pai. Bebê teme Pai e ama Pai. Bebê não quer que Pai saiba que Bebê ama Mãe. Papai, por favor, não separa Bebê de Mãe.


O Id

Bebê quer.
Bebê quer água. Bebê bebe. Bebê quer comer. Bebê come. Bebê quer, Bebê tem. Bebê bate no gato. Mãe briga com Bebê. Bebê ri. Bebê não sente culpa.

O Ego

Bebê não é mais Bebê. Também, Mãe é um, Bebê é outro. Mãe e Bebê não são mais um. Criança não suja mais a fralda. Criança chama Mãe quando quer sujar fralda e Mãe ajuda Criança. Criança gosta de pegar no pipi. Mãe diz que é feio. Pai briga com criança.

Criança tem irmãozinho. Criança tem priminho. Priminho e Irmãozinho brincam com brinquedo de criança. Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Mãe e Pai não deixam. Criança quer fazer. Criança sabe que não pode.

O Superego

Criança não pode pegar no pipi, não pode dizer nome feio, não pode chutar o gato. Criança quer fazer o que tem vontade, mas lembra que Pai e Mãe brigam e não faz.

Criança sonha com rio. Criança faz xixi na cama. Criança sonha batendo no gato. No sonho Criança pode fazer qualquer coisa. Bebê tem pesadelos. Bebê tem medo.

Criança quer bater em Priminho e Irmãozinho. Criança sente remorso quando bate em Priminho e Irmãozinho. Pai e Mãe não precisam brigar mais com Criança. Criança sabe que não pode fazer coisa feia. Criança sente vergonha sozinho quando pega no pipi.

A Neurose

Criança sabe o que é certo e o que é errado. Além de Pai e Mãe, criança conhece Pai do Céu. Pai do Céu é um e é três: Pai, Filho e Espírito Santo. Mesmo se Pai e Mãe não vissem o que Criança faz de errado, Pai do Céu veria. Pai do Céu castiga. Pai do Céu castiga na terra e castiga no céu. Pai do Céu ama criança. Criança faz errado, pede perdão e Pai do Céu perdoa. Criança alcança a graça de Pai do Céu. Criança sonha com coisa proibida, mas Pai, Mãe e Pai do Céu não podem brigar por isso.

Criança sente remorso. Criança é mau. Criança quer ser boa, mas Criança acaba fazendo coisa errada. Criança sente culpa. Criança tem remorso. Criança precisa botar pra fora o que incomoda Criança. Criança quer, mas Criança não pode.

O Fim da Inocência

Criança não é mais criança. Adolescente é agora o que era Criança. Adolescente vê que Pai também não sabe tudo. Adolescente sabe que Pai e Mãe mentiram. Adolescente não acredita em cegonha. Adolescente não acredita em Papai Noel. Adolescente não acredita mais no que diz Pai e Mãe. Adolescente sente angústia. Adolescente não é mais um, é meio.

Adolescente quer Adolescente. Adolescente e Adolescente somam um. Que angústia é ser apenas meio. Adolescente quer Adolescente que é de outro Adolescente. Adolescente quer que outro Adolescente morra. Viver é angustiante. Adolescente sabe que deveria ser racional, mas não é.

Pai do Céu diz que veio primeiro Adão e Eva. Darwin diz que veio primeiro o Macaco. A palavra de Pai do Céu não pode ser entendida pela razão. Adolescente escolhe ora a razão, ora Pai do Céu. Adolescente sabe que vai morrer. Pai do Céu cuida dele após a Morte. Darwin, não.


O Mal Estar da Civilização

Homem é o que era Adolescente. Homem precisa vencer a natureza. Homem precisa da civilização. Civilização quer que homem não satisfaça seus desejos. O Homem é o pior inimigo da Civilização, mas sem Civilização não pode mais existir Homem.

A Religião tem as regras da Civilização. A Civilização não é justa. Pai do Céu é. Se Homem for bonzinho pode viver na Civilização e nunca morre. Quando morre, tem outra vida no Céu, que é onde mora Pai do Céu. Se for injustiçado na Civilização, não será no Céu.

Homem não acredita mais em Pai do Céu. Homem precisa de Pai do Céu para viver em Civilização? Quando Homem usa a razão, Homem pode viver na Civilização, mesmo quando não acredita em Pai do Céu. Homem sente angústia. Homem quer e não pode. Se pode tudo que quer não há Civilização. Sem Civilização não há Homem.

7 comments:

Edge said...

parece um guia simplificado de psicologia :)
o ID e' autoincrement? :)

Michel said...

otima explicacao do aparelho psiquico de freud :D

Zarastruta said...

Edge,

É uma instância do pensamento do Freud para ficar na sua nomenclatura.

Michel,

A tentativa é colocar uma explicação prática. Obrigado pelo elogio.

John Preston said...

Gostei.

Anonymous said...

Parbéns,
pela primeira vez na vida, vejo explicada, sem frescura, a segunda tópica freudiana.
Cacá

Vanessa said...

Amei! Principalmente da explicação da culpa e do dilema razão/religião.

Anonymous said...

Não sou psicólogo, sou advogado mas já li um pouco sobre...muito prática e cristalina sua abordagem,parabéns!